Gerar crescimento sustentável é o grande desafio da humanidade, diz CEO da Riachuelo
Varejista anunciou investimentos em expansão e ecoeficiência fabril, mesmo em cenário avaliado por André Farber como de 'injustiça tributária' frente a plataformas internacionais
Para o CEO da Riachuelo, André Farber, aliar geração de crescimento empresarial com a manutenção de uma operação sustentável é o "grande desafio da humanidade", mas não se trata de uma missão impossível. É o que a série recente de movimentações e investimentos da varejista de moda deseja provar ao mercado.
No final do ano passado, a companhia passou por um rebranding (reposicionamento de marca), fortalecendo a conexão com suas raízes nordestinas com o Rio Grande do Norte (RN) e anunciando o investimento de R$ 180 milhões em cerca de 20 lojas previstas para serem abertas e reformadas em 2026.
Ao mesmo tempo, a Riachuelo conseguiu fazer sua maior coleção de jeans circular, a Pool Loop, composta por 42 mil peças, com 9,4 toneladas de algodão feito com aparas de fábrica. O espaço fabril, que pertence à varejista, recebeu em 2024 R$ 6,3 milhões de investimentos em ecoeficiência, para tornar mais "verdes" maquinário e produção.
No mês passado, a Guararapes Confecções, controladora da Riachuelo, informou ao mercado que está avaliando a realização de uma oferta pública subsequente de ações (follow-on) com valor inicial estimado de cerca de R$ 400 milhões. Caso seja concretizada a operação, os recursos levantados poderão ser direcionados a iniciativas de expansão e fortalecimento da operação.
Apesar do movimento da companhia, o cenário para as varejistas de moda no Brasil é de "injustiça tributária", na avaliação de Farber, visto que concorrentes de plataformas internacionais não precisam pagar certos impostos de produção, como encargos trabalhistas, e sim sobre produtos. Ele crê que a reforma tributária pode ajudar a diminuir as disparidades.
"O modelo de plataforma (internacional) é um modelo de injustiça tributária, no qual as empresas pagam muito menos impostos do que nós. Alguém vai ter que encarar esse problema. Queremos que todos paguem os mesmos impostos. Estamos aguardando que a justiça um dia prevaleça. Temos confiança nos governos de que isso um dia vai se equalizar", afirma.
Abaixo os principais trechos da entrevista:
No ano passado ficou evidente a conexão que a Riachuelo está fazendo com suas origens nordestinas. Qual o propósito dessa mudança de chave?
Em uma palavra, o que está por trás disso é: "verdade". Porque as empresas são o que elas são. Elas são formadas por histórias, por pessoas, na sua ancestralidade, nas suas raízes. Somos essa somatória. A empresa tem quase 80 anos e nasceu no RN. O sr. Nevaldo Rocha, que é o fundador, nasceu no interior do Estado e saiu da sua cidade aos 12 anos, porque não tinha emprego. Aquela história clássica. Foi atrás de uma vida melhor, em Natal, começou a trabalhar em uma loja, empreendeu e gerou tudo o que vivemos hoje. Eu sou presidente da empresa há três anos. Mas fico pensando: o que faz eu estar aqui? Sou uma pessoa que também tem suas marcas, raízes. Meu pai veio para o Brasil com dez anos, como refugiado de guerra. Sempre escutei que o Brasil era um País maravilhoso, que aqui ele encontrou um lugar de paz que tínhamos que cuidar e retribuir. Eu já trabalhei 16 anos no O Boticário e três anos na Riachuelo, duas das maiores empresas brasileiras. Não é por acaso. A loja é uma somatória dessa vontade de se reconhecer como brasileiro, de querer gerar um impacto positivo no Brasil, de se orgulhar disso.
Ano passado, a Riachuelo alcançou o melhor Ebtida e o maior lucro líquido para um terceiro trimestre na história da empresa. Até que ponto essas estratégias contribuíram para esse resultado?
Creio que uma coisa está ligada à outra, pois, no final das contas, um dos grandes fatores da nossa melhora de resultado é o fato de trabalharmos melhor com a fábrica, e a fábrica é totalmente ligada ao que a gente é. Então, isso é um dos fatores. Não é o único. Melhorar o produto, melhorar a marca, fazer uma marca que fala com a sua verdade é mais fácil, e aí você melhora o resultado. Se somos uma empresa brasileira e dialogamos com isso, a marca também flui melhor, conversa melhor com as pessoas e as atrai mais. As pessoas gostam do que é real e não do que é fake.
O fato de a fábrica ser própria facilita também o trabalho de ecoeficiência?
Gerir algo que você é dono dá mais trabalho, mas você controla melhor e consegue se organizar. Conseguimos muitas vantagens. Uma das principais é a de sustentabilidade. Se controlamos tudo, temos segurança de que estamos usando os melhores processos do mundo de sustentabilidade na fábrica. Além disso, a fábrica é muito grande, e alguns elementos de sustentabilidade dependem de escala para receber investimentos. Então, escala é um fator. Temos máquinas, por exemplo, para o jeans, que são caras, mas que economizam muito mais água do que no mercado em geral. Temos uma estamparia digital que só nós temos no Brasil, totalmente automatizada, que economiza muita tinta na aplicação. Também acabamos de fazer investimento na fábrica para um laboratório de medidores digitais de corantes. Estamos agora utilizando inteligência artificial na fábrica... A cadeia têxtil é muito fragmentada, pouquíssimas empresas têm capacidade de fazer esse investimento. A escala te permite fazer isso, ter produtos melhores e mais sustentabilidade.
Sobre planos para este ano, como expandir e ao mesmo tempo manter metas de eficiência sustentável?
O grande desafio da humanidade é como gerar crescimento sustentável. Por um lado, sabemos que só conseguimos gerar mais bem-estar com emprego, com oportunidades, e isso geralmente exige crescimento. Em paralelo, também temos que trabalhar para fazer com que os nossos processos sejam cada vez mais ecoeficientes. Vamos gerando oportunidade de crescimento e, ao mesmo tempo, vamos trabalhando para ser cada vez mais sustentável, para conseguir evoluir na nossa pegada.
Como a empresa está fazendo para escalar a produção e otimizar os custos?
Não tem jeito. Normalmente, há custos maiores quando se faz isso. Como lidar com isso? Vejo que temos que evoluir para poder elaborar melhor a forma de comunicação com o consumidor, para que ele também valorize isso como um atributo positivo. Também (temos que) exercer um papel de educação do consumidor para que ele vá conosco nesse processo. À medida que vamos melhorando, ele também vai entendendo e nós vamos aumentando a escala. Não é sobre fazer aquele barato que é mais difícil. Não é sobre custo. (Quer menor) custo, vai fazer com os asiáticos, que trabalham 18 horas por dia e não pagam os impostos. Quer fazer de forma responsável, tem que seguir as leis brasileiras e vai embarcar mais custo nisso.
Sobre a concorrência com as roupas que vêm das plataformas internacionais, que mesmo depois das taxas sobre produto ainda pressiona as varejistas, o sr. percebe que o setor tem se movimentado para fazer algum tipo de enfrentamento?
São nove trimestres consecutivos de crescimento (da Riachuelo). Com melhora da experiência, com preços bons, com qualidade, com sustentabilidade, com todos os investimentos em tecnologia, temos conseguido atrair muita atenção do consumidor e sustentar o crescimento. Dito isso, vivemos em um cenário de injustiça tributária, no qual não existe isonomia tributária entre quem opera um modelo baseado localmente e o modelo de plataforma. O modelo de plataforma é um modelo de injustiça tributária, no qual as empresas pagam muito menos impostos do que nós. Alguém vai ter que encarar esse problema. Muitos países europeus, até os Estados Unidos, encararam e agora todo mundo paga imposto igual (fazendo referência à queda da lei de minimis, que isentava impostos de produtos importados que custavam até US$ 800 nos Estados Unidos). Não queremos nenhuma vantagem. Queremos que todos paguem os mesmos impostos. Já sabendo que, quando você opera no Brasil, você tem uma carga tributária alta sobre emprego também, que alguns países não têm. Mas estamos falando sobre os impostos de mercadoria. As associações se mobilizam, sim. Estamos aguardando que a justiça um dia prevaleça. Temos confiança nos governos de que isso um dia vai se equalizar, mas mesmo assim seguimos a nossa vida.
Então, não seria por falta de "advocacy" (defesa) do setor…
É uma pauta difícil para os governos, falando português bem claro. Os governos estão aí para gerar justiça, gerar melhores condições para a população, para ajudar a organizar a sociedade. Então, hoje os governos não estão organizando isso de forma que seja justa. Isso nós temos que falar. O governo melhorou, deu um passo na direção certa, mas vivemos uma injustiça tributária gritante.
Seriam questões tributárias igualitárias entre os mercados local e estrangeiro, sem vantagem local…
É isso. Não é sobre esquerda e direita. Pode ser o governo de direita ou de esquerda. Independentemente de governo, precisamos resolver isso. É um assunto que não está resolvido. Penso que a reforma tributária tem que ser uma oportunidade de diminuir um pouco esse gap (lacuna), porque ela tira um pouquinho da complexidade tributária — e eu acho muito boa a reforma no sentido de tirar essa complexidade —, e tudo fica mais visível, porque, às vezes, há uma dificuldade de entendimento. Às vezes, parece que estamos reclamando porque queremos alguma vantagem, pois é tão difícil entender os impostos…
O ano de 2026 vive um cenário macroeconômico e político bem desafiador. O que é que podemos esperar do ambiente de negócios no Brasil esse ano?
Pensamos muito no longo prazo. O Brasil é um País que tem um mercado grande, que oferece muita oportunidade, em que quem trabalha com o olhar otimista, empreendedor de longo prazo, sempre consegue bons resultados. Não dá para pegar atalhos e achar que vai construir mais rápido, porque não vai. Então, o nosso olhar é mais de longo prazo. Historicamente, os anos de eleição são anos bons, porque têm estímulos na economia. Então, esperamos um ano bom. Normalmente, os anos pós-eleição, independentemente de qual governo venha, vêm com ajustes. Isso pode gerar uma economia um pouco mais difícil, mas também depende muito do que for feito, de eventos globais. Estamos vendo um momento muito positivo para o mercado acionário no Brasil. Não no mercado de consumo, mas no mercado acionário. Estamos vendo um fluxo de dinheiro para mercados emergentes. Não é um fator nosso, é um fator de fora. Essas coisas nós não controlamos. Então, vamos olhando o futuro, melhorando a experiência da Riachuelo, criando condições de desenvolvimento de produto, de time, para que possamos fazer melhor. Independentemente do que acontecer, vamos crescer. Se a economia ajudar muito, vamos crescer muito. Se a economia não ajudar, vamos crescer pouco ou menos do que gostaríamos. Mas tem que ir olhando sempre positivamente para frente.