FMI vai revisar crescimento global para baixo em 2026 por guerra no Oriente Médio
Segundo Kristalina Georgieva, choque de oferta causado pelos conflitos é 'grande, global e assimétrico', com riscos para a inflação e as políticas monetária e fiscal
NOVA YORK - A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, afirmou que a resiliência da economia global está sendo testada novamente pela guerra no Oriente Médio, agora pausada pelo cessar-fogo, e que deve resultar em menor crescimento neste ano. De acordo com ela, o choque de oferta causado pelos conflitos é "grande, global e assimétrico", com riscos para a inflação e as políticas monetária e fiscal.
"O conflito causou dificuldades consideráveis em todo o mundo", disse Georgieva, em discurso preparado para a abertura das reuniões de Primavera do Fundo, que acontecem na próxima semana, em Washington, nos EUA. De acordo com ela, os encontros serão marcados pelo debate sobre os caminhos para enfrentar este último choque e aliviar a dor nas economias e nas pessoas. Na próxima semana, ministros e presidentes de bancos centrais do mundo todo, incluindo do Brasil, desembarcam na capital americana para participar das reuniões de Primavera do FMI.
Na ocasião, o Fundo deve revisar para baixo a projeção de crescimento da economia global em 2026 na atualização de seu cenário que sempre costuma fazer nesses encontros. Não fosse a guerra, observou Georgieva, a perspectiva para a economia global seria de melhora.
"Mas agora, mesmo nosso cenário mais esperançoso envolve uma revisão para baixo do crescimento", disse ela, mencionando danos à infraestrutura, interrupções no fornecimento, perdas de confiança e outros impactos da guerra.
Dadas as incertezas, o FMI vai traçar uma gama de cenários em seu relatório Perspectiva Econômica Mundial (WEO, na sigla em inglês), que incluirão desde uma normalização relativamente rápida a um ambiente em que os preços do petróleo e do gás permanecem muito mais altos por muito mais tempo e os efeitos de segunda ordem entram em ação.
"Felizmente, os preços do petróleo caíram, mas permanecem muito mais altos do que antes da guerra — e muitos países estão pagando altos prêmios para acessar suprimentos preciosos", avaliou Georgieva.
Segundo ela, mesmo países que são exportadores de petróleo, como é o caso do Brasil, vão sentir os impactos dos preços de energia mais elevados por conta da guerra. O conflito pode ainda desancorar as expectativas de inflação e causar um processo inflacionário custoso ao mundo, alertou. "Felizmente, as expectativas de longo prazo não mudaram. Isso é muito bom e muito importante", afirmou.
Por sua vez, as condições financeiras se apertaram, com os spreads de títulos de mercados emergentes subindo substancialmente, ajustes nos mercados de ações e valorização do dólar. Esses movimentos ocorreram, no entanto, de forma ordenada, e já é possível ver algum alívio, de acordo com a diretora-geral do FMI.
O tamanho do impacto da guerra depende de se o cessar-fogo será mantido e de quanto dano os conflitos vão deixar em seu rastro, destacou. "O fato é que não sabemos realmente o que o futuro reserva para os trânsitos pelo Estreito de Ormuz", admitiu. "Quão ruim será esse impacto dependerá, em grande parte, de quanto espaço de política os países têm, incluindo reservas estratégicas de petróleo e gás", acrescentou Georgieva. E, diante do choque de oferta causado pela guerra, o ajuste da demanda é "inevitável", disse.
A diretora-geral do FMI cobrou ainda a necessidade de os países manterem uma busca coletiva por eficiência e diversificação energética. "Diferentes países têm diferentes caminhos para a segurança energética, mas todos devem lutar por ela", concluiu.
Demanda por apoio do FMI
Georgieva estima que a demanda de curto prazo por apoio ao balanço de pagamentos do organismo aumente para algo entre US$ 20 bilhões e US$ 50 bilhões por conta da guerra no Oriente Médio. Caso o cessar-fogo seja mantido, o limite inferior deve prevalecer, conforme ela.
"Vamos focar nos importadores de petróleo vulneráveis do mundo, aqueles classificados no grau especulativo, e vamos colorir em azul todos os países com programas apoiados pelo FMI", disse.
Segundo ela, essa faixa seria muito maior se não fosse pela formulação de políticas sólidas de muitas economias de mercados emergentes. "Estamos bem equipados para enfrentar este choque", garantiu.
Por fim, Georgieva disse que o FMI vai instar os reguladores e supervisores financeiros, em seu Relatório de Estabilidade Financeira Global, que é "essencial" que estejam alerta e tenham agilidade na resposta. Segundo ela, as condições financeiras têm sido altamente acomodatícias por algum tempo, impulsionadas pelo otimismo tecnológico e novos intermediários financeiros, muitos deles não bancários.
"Embora isso tenha impulsionado o crescimento, também cria riscos de reversão", alertou, mencionando os temores em torno da inteligência artificial (IA) e as "enormes necessidades energéticas" atreladas. "As políticas micro e macroprudenciais devem trabalhar para reduzir tais riscos de estabilidade e garantir um sistema resiliente", concluiu.
Cuidado para 'não piorar'
A diretora-geral do FMI fez um alerta aos formuladores de políticas diante da guerra no Oriente Médio: "não piorem as coisas". Ela apelou aos países para não tomarem ações isoladas, como controles de exportação e de preços.
"Os formuladores de políticas podem ajudar de várias maneiras e, certamente, devem ter cuidado para não piorar as coisas", disse Georgieva.
Segundo ela, ações isoladas podem perturbar ainda mais as condições globais já impactadas pela guerra no Oriente Médio. "Não joguem gasolina no fogo", pediu a diretora-geral do FMI.
Georgieva reconheceu que há valor em esperar para ver no caso dos bancos centrais. No entanto, as autoridades monetárias devem entrar em ação caso a credibilidade esteja em jogo.
"Se as expectativas de inflação ameaçarem perder a âncora e desencadear uma espiral inflacionária custosa, então os bancos centrais devem intervir firmemente com aumentos de taxas", alertou a diretora-geral do FMI.
Do outro lado, o apoio fiscal durante a guerra deve "permanecer direcionado e temporário", sugeriu. "Os aumentos de taxas, é claro, diminuiriam ainda mais o crescimento. É assim que eles funcionam", lembrou.
De acordo com ela, se um aperto severo das condições financeiras adicionar um choque de demanda negativo ao choque de oferta, a política monetária retorna a um "delicado ato de equilíbrio", enquanto a política fiscal muda para um suporte de demanda bem calibrado — caso tenha espaço. As curvas de rendimento dos títulos de referência subiram por conta da guerra e elevaram o custo da dívida, ponderou.
"Adicionar estímulo financiado por déficit a essa mistura neste momento aumentaria o fardo sobre a política monetária e amplificaria tais mudanças", avaliou. "Seria como dirigir com um pé no acelerador e outro no freio. Não é bom", comparou Georgieva.
Ela afirmou ainda que o mundo tem um "problema de espaço fiscal". "A dívida pública é geralmente muito mais alta do que há 20 anos, inclusive na maioria dos países do G20 — refletindo a negligência generalizada da consolidação fiscal nos períodos em que as condições permitiram", avaliou.
Segundo a diretora-geral do FMI, a implicação é clara: "todos os países devem implantar seus limitados recursos fiscais de forma responsável, e a maioria deve se mover decisivamente para reconstruir espaço após este choque", concluiu.
Vigilância
A diretora-geral do FMI defendeu a aprovação da 16.ª Revisão Geral de Cotas (GRQ, na sigla em inglês) do organismo. A medida prevê um aumento de 50% no valor das cotas de todos os países membros, mas sem uma redistribuição do poder de voto, e foi encaminhada para ser apreciada pelo Congresso dos Estados Unidos durante a gestão do presidente Donald Trump.
"Precisamos desse aumento. Por que precisamos? Porque simplesmente não sabemos o que o futuro pode trazer", disse Georgieva.
Ao defender a aprovação da 16.ª rodada, a diretora-geral do FMI mencionou o Brasil. Conforme ela, ainda que grandes economias emergentes não precisem de financiamento por parte do Fundo, necessitam da vigilância do organismo e do suporte a nações vizinhas que enfrentam necessidades. "Grandes economias como Brasil e Índia não precisam de empréstimos do Fundo, mas também precisam da vigilância do Fundo... precisam de nós para estabilizar suas vizinhanças", afirmou Georgieva.
De acordo com ela, a 16.ª revisão das cotas não é apenas sobre dinheiro, mas sobre suporte aos países. "É o símbolo do Fundo sendo apoiado por todos os seus membros", disse.
O Brasil já se manifestou a favor da aprovação da 16.ª revisão e também do avanço para a fase seguinte. Em posicionamento ao Fundo, durante as reuniões anuais, em outubro do ano passado, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, cobrou a necessidade de o FMI conseguir "progressos concretos" na 17ª Revisão Geral de Cotas do organismo. Somente após ser votada será possível seguir com a próxima etapa.
O Brasil tem defendido a necessidade de uma redistribuição do poder de voto pelos membros do FMI. No entanto, o tema não avança porque os países com maior poder não querem ceder espaço a outros, como, por exemplo, o Japão, com fatia levemente superior à China.