Fim da 6x1: Vivemos a 'sociedade do cansaço' e é hora de pensar no bem-estar das pessoas, diz Lula
Em discurso durante fórum na Coreia do Sul, presidente brasileiro criticou o protecionismo econômico e defendeu que, quanto mais livre o comércio, melhor para o mundo
BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, nesta segunda-feira, 23, que o mundo vive numa "sociedade do cansaço" e que, com a tecnologia, é possível aumentar a produtividade das empresas e pensar no bem-estar das pessoas. Ele discursou no encerramento do Fórum Empresarial Brasil-Coreia do Sul, em Seul.
"O filósofo coreano Byung Chul Han diz que vivemos em uma 'sociedade do cansaço', em que a pressão pelo desempenho afeta o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. Estamos discutindo, no Brasil, o fim da chamada jornada 6x1, para assegurar que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal", disse. "A tecnologia nos permitiu atingir níveis inimagináveis de produtividade. É hora de pensar no bem-estar das pessoas", completou.
O petista afirmou que o Brasil tem muito que aprender com a Coreia, como apostar no Estado como indutor de setores estratégicos, e citou diversos campos onde ambos os países podem estabelecer parcerias, como o dos cosméticos e o da cultura.
"Nos anos 90, enquanto o Brasil se rendeu ao receituário neoliberal, a Coreia continuou apostando no papel indutor do Estado em setores estratégicos. Nenhum país que chegou atrasado à corrida industrial conseguiu subir a escada do desenvolvimento sem políticas públicas robustas", declarou.
Citando empresas coreanas que investem no Brasil, Lula disse que o País tem segurança jurídica, previsibilidade, matriz energética limpa e muitas oportunidades. "Do funk brasileiro ao K-Pop, de 'Parasita' a 'Agente Secreto', das telenovelas aos K-Dramas, nossa música e nossa produção audiovisual estão conquistando os quatro cantos do mundo. Parcerias nessa área são garantia de sucesso", disse.
Livre comércio
Lula afirmou que não existe justificativa para o protecionismo econômico e enfatizou que, quanto mais livre o comércio, melhor para o mundo. "Há uma tentativa de acabar com o multilateralismo, de voltar o que nós não queremos que volte, o protecionismo para dificultar a economia dos países a crescer. Não existe justificativa. Quanto mais livre o comércio, melhor será para a Coreia e melhor será para o Brasil. E melhor será para o mundo", afirmou.
O petista disse que é preciso abrir as portas para os empresários brasileiros e coreanos e que o comércio entre os países está muito abaixo do seu potencial. "O comércio do Brasil com a Coreia do Sul é muito pequeno. O ano passado foi de apenas US$ 11 bilhões. O que é muito pequeno diante do potencial da economia da Coreia do Sul e da economia do Brasil", disse.
E continuou: "Isso significa que, apesar de algumas empresas coreanas estarem no Brasil já há algum tempo, falta o Brasil se autopromover, se 'autodivulgar' para que a gente possa fazer com que o nosso comércio ultrapasse, muito, os US$ 11 bilhões que nós chegamos agora em 2025".
Proteína
O presidente garantiu que, quando os coreanos quiserem consumir proteína, o Brasil atenderá à demanda. "Quando o povo da Coreia quiser ter acesso à proteína, não se preocupe que o Brasil estará pronto para atender à demanda da Coreia. E, mais ainda, vocês correm o risco de que, se comprarem carne dos Estados Unidos, estarem comprando carne brasileira", declarou.
Ele afirmou que esse momento do discurso era "propaganda" do agro brasileiro, citando números do País relacionados à proteína animal, como carne bovina e frango.
"No Brasil, se mata 150 mil cabeças de gado por dia. Por dia! No Brasil se mata 25 milhões de frangos por dia. Mais ainda, no Brasil, as galinhas produzem 1.800 ovos por segundo. São 60 bilhões de ovos por ano", completou.
Lula afirmou que o Brasil está pronto para avançar com os procedimentos sanitários para poder vender carne para a Coreia do Sul.
"O Brasil vem trabalhado há 15 anos para obter acesso ao mercado de carne bovina coreano. O bulgogi, tradicional churrasco coreano, combina com uma carne de qualidade como a brasileira", disse. "Estamos prontos para avançar nos procedimentos sanitários necessários para que o Brasil esteja no prato do cidadão coreano", completou.
Segundo ele, esse passo sanitário permitirá que os maiores frigoríficos do mundo, que são brasileiros, possam se instalar na Coreia. Lula repetiu que a corrente de comércio do Brasil com o país asiático está aquém do possível e citou acordos firmados na viagem como o de cooperação comercial e o para fortalecer cadeias de suprimentos.
"A corrente de comércio entre o Brasil e a Coreia é de cerca de US$ 11 bilhões. Estamos aquém do recorde de quase 15 bilhões registrado em 2011. O intercâmbio atual não está à altura de duas economias do tamanho do Brasil e da Coreia", enfatizou.