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Ex-presidente do BRB diz à PF que negócio com Master foi ordenado por Ibaneis em jantar com Vorcaro

Paulo Henrique Costa mencionou ter participado de encontro do então governador com dono do Banco Master; defesa de Ibaneis não se manifestou

29 out 2026 - 16h32
(atualizado às 17h26)
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Resumo
Em depoimento à PF, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa afirmou que a venda de participação do banco estatal ao Banco Master foi ordenada pelo então governador Ibaneis Rocha durante jantar com o banqueiro Daniel Vorcaro. Costa disse ter sido contra a transação, temendo a privatização da estatal, mas a ordem foi mantida como decisão do acionista majoritário. Investigado por fraudes superiores a R$ 12 bilhões que causaram rombo no BRB, o executivo teve seu acordo de delação rejeitado pela PGR.

BRASÍLIA - O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, afirmou em depoimento prestado à Polícia Federal (PF) que o negócio com o Banco Master foi acertado em uma reunião entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB).

Procurada, a defesa de Ibaneis ainda não se manifestou e o espaço segue aberto.

O depoimento foi colhido pela PF no último dia 15 e enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) em conjunto com o relatório que promoveu o indiciamento de Vorcaro e Paulo Henrique por crimes financeiros.

Ex-presidente do BRB diz à PF que negócio com Master foi ordenado por Ibaneis em jantar com Vorcaro
Ex-presidente do BRB diz à PF que negócio com Master foi ordenado por Ibaneis em jantar com Vorcaro
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

"Dia 24 de setembro eu recebo uma mensagem no meu celular que me convoca pra uma reunião à noite na casa do Daniel Vorcaro, [mensagem] do gabinete do governador Ibaneis Rocha. Eu até falo 'puxa, eu tô viajando, tô na Bahia', eu tento fugir. E não dava pra fugir do jantar. Eu falei: vou ficar só 15 minutos nesse jantar. Mas eu chego, volto de Salvador e vou pra esse jantar. Já digo logo, não posso ficar muito tempo. Chego no jantar, tem algumas pessoas no jantar, entre elas o governador Ibaneis e o Daniel Vorcaro. O governador fala: 'olha Paulo, eu queria te apresentar o Daniel'. Eu falei: 'Eu já conheço, a gente faz algumas cessões de crédito e tal'. Mas ele diz: 'Paulo, estrutura uma venda do BRB para o Master'. Essa é uma parte que não apareceu na investigação, até onde eu vi", disse o ex-presidente do BRB em depoimento.

Paulo Henrique afirmou ter ficado "surpreso" com a ordem e disse que havia sete pessoas na reunião. "Eu falo 'tá certo', e eu tava querendo ir pra porta. Aí o Daniel fala: 'É, mas é banco público, normalmente troca governo depois de um tempo, eu preciso de um acordo de acionista que me garanta controle'", relatou.

A investigação da Polícia Federal já apontou que o BRB fez dois aumentos de capital de forma fraudulenta para permitir que fundos e pessoas ligadas a Vorcaro adquirissem participação acionária no banco público do DF, que chegou a 23,5%.

Como mostrou o Estadão, diálogos do celular de Paulo Henrique mostram que ele mesmo direcionou a venda de participação acionária para pessoas ligadas a Vorcaro. A PF suspeita que essa operação foi montada para dar lastro ao BRB na tentativa de compra do Banco Master - barrada pelo Banco Central em setembro do ano passado.

'Fui pego de surpresa de maneira contrária'

No depoimento, Paulo Henrique afirmou pela primeira vez que foi contrário à operação e disse ter tentado convencer Ibaneis a recuar na venda de participação acionária ao Master, porque poderia acabar resultando em uma privatização do BRB.

"No outro dia 7h30 da manhã eu mando mensagem. Quero conversar. Comecei a dar andamento mas quero conversar. Depois essa reunião é marcada no gabinete do governador, eu vou ao governador e digo: 'chefe, não concordo com essa operação. A gente prometeu que não ia privatizar o banco, o banco tá dando um resultado extraordinário, o banco é chave pro Distrito Federal, a gente opera todos os programas sociais, a gente fez o plano de saúde dos servidores, a gente deu naming rights da Arena, a gente tá reformando o autódromo, o banco é o coração de Brasília", contou à PF.

Nesse momento, Paulo Henrique foi interrompido pela delegada Janaína Palazzo, responsável pelo caso, que lhe fez uma pergunta: "Então o senhor foi contra? Nesse momento".

Paulo Henrique respondeu que foi "pego de surpresa", mas relatou que Ibaneis tratou a operação como uma decisão do acionista majoritário, que é o governo do Distrito Federal.

"Eu fui pego de surpresa, mas pego de surpresa de maneira contrária. E aí nessa reunião ele fala: 'Paulo, é uma decisão do acionista'. E é mesmo, porque é uma venda de ações. Tá fora do BRB. O que ele tinha que pedir é: estruture, veja, faça modelos".

Paulo Henrique Costa tentou fazer uma delação premiada, mas a negociação foi rejeitada pela Procuradoria-Geral da República (PGR). No depoimento, ele defendeu a compra de carteiras do Master pelo BRB e disse que não provocaram prejuízos ao banco do DF.

Ao narrar o início do negócio, Paulo Henrique disse que as tratativas foram realizadas em um encontro na casa de Vorcaro diretamente com a participação de Ibaneis Rocha.

O ex-presidente do BRB não quis dar detalhes sobre os outros participantes do encontro nem sobre os diálogos, já que não conseguiu fazer um acordo de delação. Mas atribuiu a negociação a Ibaneis no depoimento à PF, que integra oficialmente a investigação e não tem relação com as negociações de delação premiada. As informações, portanto, podem ser usadas como elementos de prova pela PF para o avanço das investigações relacionadas ao ex-governador do DF.

Paulo Henrique diz que compra de carteiras do Master era estratégia de crescimento

Paulo Henrique Costa afirmou em depoimento à PF que a compra de carteiras do Master fazia parte de estratégia de crescimento do banco estatal acordada com Ibaneis.

"Lá em 2018, o BRB era um banco apático, obsoleto, que atuava só no DF com consignado com servidor público daqui. Na nossa visão, não cumpria nem papel de instituição financeira nem o papel de banco público. E, para mim, considerando a experiência e o que a gente conhece de concorrencial, fadado a ser fisgado", disse em oitiva.

O ex-executivo é investigado por corrupção. Segundo as investigações, ele teria recebido imóveis de luxo em troca da compra de carteiras podres do banco de Vorcaro. A fraude supera os R$ 12 bilhões e gerou um rombo nas contas do BRB, que busca meios de equacioná-las.

Paulo Henrique afirma que os planos foram chancelados pelas áreas de controle do BRB depois de terem sido aprovadas pelo próprio Ibaneis.

"Então, naquele momento, a gente definiu com o então governador eleito e depois isso foi tudo submetido às instâncias de governança do BRB e aprovado, com os ajustes que essas instâncias trouxeram, um planejamento estratégico, em que o BRB mudaria sua atuação. Ele passaria a ser um banco completo, um banco com presença no País inteiro, um banco maior, um banco mais moderno, um banco rentável", disse.

Estadão
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