Evolução nos pagamentos: após o Pix, vêm os agentes autônomos de IA
No próximo ciclo de transformação do sistema financeiro, a tecnologia pode tornar os pagamentos menos visíveis; porém confiança, controle e transparência terão de ficar ainda mais
Após a consolidação do Pix, a nova fronteira do sistema financeiro foca em pagamentos invisíveis mediados por agentes autônomos de IA e tokenização. Debatida no Febraban Tech, essa transição promete transações automáticas e concessão de crédito mais precisa para combater o endividamento. O grande desafio das instituições será integrar jornadas de consumo sem fricção, assegurando transparência, controle de dados, segurança ao cliente e avanço paralelo na educação financeira da população.
O Brasil já resolveu uma parte importante do problema dos pagamentos: fazer o dinheiro circular de forma rápida, digital e praticamente instantânea. Os desafios agora são outros e apontam para um futuro inimaginável até há pouco tempo.
O que acontece quando o pagamento deixa de ser percebido pelo consumidor? Quando uma compra é iniciada por um agente de inteligência artificial, o crédito é analisado por algoritmos e a transação acontece sem que o cliente precise sequer abrir o aplicativo do banco? Como isso, que parece assustador, vai de fato funcionar, diante de questões como privacidade e proteção de dados, intenção real de compra e diversos níveis possíveis de interação com a IA, presente em todas as instituições onde o cliente mantém relacionamento?
Essas questões percorreram o painel "O caminho que transformou o Brasil em referência global em pagamentos", nesta quarta-feira, 26, no Febraban Tech. Os participantes, após revisitar a evolução dos cartões e das transações eletrônicas, que tiveram um longo histórico de desenvolvimento no País, discutiram o próximo ciclo de transformação do sistema financeiro, no qual a tecnologia pode tornar os pagamentos cada vez mais invisíveis. Porém confiança, controle e transparência terão de ficar ainda mais visíveis.
Carlos Zanvettor, vice-presidente da Corpay, resumiu um dos principais desafios em torno do tema: o pagamento terá de continuar sendo "inquestionável", mas também mais configurável, previsível, transparente e inteligível.
Essa mudança já está em curso. De acordo com a pesquisa Febraban 2026 divulgada no evento, o sistema bancário brasileiro movimenta cerca de 240 bilhões de transações por ano e 83% delas ocorrem em canais digitais. O Open Finance, por sua vez, já ultrapassou 154 milhões de consentimentos, abrindo uma questão sobre o que, de fato, o Brasil pode (e tem) que fazer com essa base.
Para José Tosi, sócio-fundador da Tokeen Tecnologia, a transformação seguinte passa pelos ativos digitais e pela tokenização. "Os ativos digitais que as empresas têm hoje têm muito pouca utilização financeira", afirma.
Com um ambiente tecnológico mais desenvolvido, segundo ele, o Banco Central começa a estimular novos produtos e isso pode alterar a forma como fornecedores, consumidores e instituições financeiras se relacionam.
A inteligência artificial aparece como outro vetor decisivo. No crédito, a expectativa não é simplesmente ampliar a oferta, mas melhorar a qualidade das decisões. Tadeu Silva, presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), destaca que mais de 96% da população brasileira é bancarizada, mas 82% das famílias estão endividadas.
"Isso chama atenção para um problema que acompanha a expansão da bancarização: ter acesso ao sistema financeiro não significa necessariamente ter inclusão financeira de qualidade", aponta. "É aí que a inteligência artificial pode ajudar principalmente na avaliação de risco e na adequação do crédito ao perfil de cada cliente, para melhor avaliação do risco, trazendo maior assertividade no crédito, pensando num mercado mais sustentável".
E quando a IA toma decisões?
Se um agente de software puder escolher um produto, negociar condições e iniciar um pagamento, a relação entre cliente e empresa poderá mudar radicalmente.
Para Dorival Dourado Júnior, conselheiro independente do BMG, da Omni Financeira, e da TQI Tecnologia, esse futuro aponta para uma disputa que pode ser tão importante quanto a própria infraestrutura de pagamentos: quem continuará dono da experiência do consumidor quando a interface deixar de ser um aplicativo, um cartão ou uma agência e passar a ser um agente de inteligência artificial?
Para Claudio Yamaguti, sócio-fundador e conselheiro da Afinz, a resposta passará pela personalização. "No mercado do futuro, diferentes gerações terão expectativas distintas e bancos e empresas precisarão combinar tecnologia com atendimento humano. Mas a experiência continuará sendo individual".
Para o executivo, a experiência será a de uma jornada integrada, na qual o consumidor não precise navegar por diferentes serviços para resolver uma única necessidade. "Eu não posso ficar oferecendo um cartão de crédito, um empréstimo, um seguro, com cada experiência diferente para poder comprar uma bicicleta, por exemplo. Tem que acontecer totalmente de forma automática".
Desafio: pôr infraestrutura sofisticada para trabalhar pelos clientes
A próxima geração de pagamentos será disputada, pelas empresas, menos pela tecnologia oferecida por elas e mais pela capacidade de uma instituição de resolver, de forma integrada e com o mínimo de atrito, toda a necessidade financeira do cliente. Usando, é claro, a IA para integrar e conectar os diversos pontos da jornada, de modo a simplificá-la.
Claudio Yamaguti, sócio-fundador da plataforma de soluções financeiras Afinz, resumiu essa lógica ao lembrar que a história dos meios de pagamento pode ser entendida como uma sucessão de soluções para eliminar fricções, citando que o cartão reduziu a necessidade de carregar dinheiro. "O crédito pré-aprovado reduziu a espera pela análise de cada compra. O Pix reduziu o tempo e o custo de transferir dinheiro. A próxima fronteira, portanto, pode ser fazer com que o pagamento aconteça sem sequer chamar a atenção do consumidor".
Mas há um risco nessa invisibilidade: quanto menos o usuário percebe o processo, maior pode ser a necessidade de mecanismos que garantam que ele saiba o que está acontecendo. E esse é justamente o desafio das empresas nesse relacionamento.
Para os executivos participantes do painel sobre meios de pagamento, a tecnologia está evoluindo mais rapidamente do que a capacidade da sociedade de compreender seu funcionamento. Assim, educação financeira e letramento digital passam a ser parte da infraestrutura necessária para a próxima geração dos pagamentos.
"O Brasil chegou a uma posição de destaque justamente porque conseguiu construir infraestrutura, regulação e modelos de negócio capazes de acompanhar diferentes ondas de inovação. Agora, a vantagem competitiva pode depender de saber transformar essa infraestrutura em novos produtos e serviços, e, principalmente, em experiências mais simples para o consumidor, fazendo a estrutura trabalhar de forma igualmente sofisticada", lembrou José Tosi, da Token Tecnologia.
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