Estratégia com Minha Casa, Minha Vida turbina resultados da Cury e valorização na Bolsa
A empresa atingiu um novo patamar em suas operações, com 84 obras em andamento em São Paulo e no Rio de Janeiro, o equivalente a 57 mil apartamentos
A Cury reforçou a sua reputação de "queridinha" de analistas e investidores após publicar o balanço do quarto trimestre com um desempenho acima das expectativas de analistas do mercado imobiliário. Como resultado, as ações da empresa figuravam entre as maiores altas do principal índice da Bolsa por volta das 16h30 desta quarta-feira, 11, subindo cerca de 3%, para R$ 36,91. Enquanto isso, o Ibovespa recuava 0,14%.
A Cury, uma das maiores do Minha Casa, Minha Vida, apresentou lucro líquido de R$ 270,1 milhões no quarto trimestre de 2025, montante 62,9% maior do que no mesmo período de 2024. No acumulado de 2025, a incorporadora teve lucro de R$ 975,5 milhões, avanço de 50,1% ante 2024.
A melhora decorre principalmente do ciclo de mais lançamentos e vendas de imóveis em meio às condições favoráveis de contratação dentro do programa. Além disso, mostrou disciplina na execução das obras, manutenção de custos sob controle e diluição das despesas.
A empresa atingiu um novo patamar em suas operações, com 84 obras em andamento em São Paulo e no Rio de Janeiro, o equivalente a 57 mil apartamentos. Um ano antes, eram 70 obras. Esse movimento elevou a margem bruta de lucro para 39,8% em 2025 — a mais alta do segmento — e um aumento de 1,3 ponto porcentual na comparação anual.
"Os resultados do trimestre superaram as estimativas em praticamente todos os itens, o que gera reação positiva", afirmaram os analistas do Safra, Rafael Rehder e Olavo Fleming, em relatório. "Os investidores devem ver com bons olhos a melhora sequencial." O Safra reiterou a recomendação de compra das ações da Cury.
Outro destaque positivo foi a geração de caixa, classificada como "massiva" pelos analistas Gustavo Cambaúva e Gustavo Fabris, do BTG Pactual. "Esse nível de geração de caixa ocorreu graças ao modelo de negócios asset-light (pouco intensivo em ativos) e aos níveis fortes de repasses para bancos no período", apontaram, em relatório, no qual também reforçaram a recomendação de compra dos papéis.
A geração de caixa da Cury foi de R$ 321,1 milhões no trimestre. Além do ganho relevante de liquidez, o número confirmou a regularidade no fluxo, uma vez que foi o 27º trimestre consecutivo de geração de caixa.
No trimestre, a companhia fez o repasse de 5 mil clientes para o financiamento bancário (momento em que as construtoras recebem o valor da venda dos imóveis na planta), levantando R$ 1,49 bilhão. Em paralelo, as obras produzidas no trimestre foram equivalentes a 4,4 mil unidades - mostrando equilíbrio entre os repasses e a produção.
Assim, a Cury fechou o ano com caixa líquido de R$ 316 milhões (mais recursos em caixa do que dívidas a pagar), o que alimenta expectativas de investidores de que haverá continuidade na distribuição de dividendos pela frente. No ano passado, a Cury já pagou R$ 1,35 bilhão em dividendos.
Além da boa situação do negócio, isso também ocorreu como forma de evitar a taxação a partir deste ano, conforme mudança na legislação. Em dezembro, a Cury também fez uma captação de R$ 574 milhões por meio da emissão secundária de ações (follow-on), o que contribuiu para o ganho de liquidez.
Planos para 2026
A Cury está pronta para ampliar os lançamentos e as vendas de imóveis em 2026 se o mercado imobiliário mantiver as condições favoráveis, disse o vice-presidente Comercial, Leonardo Mesquita. "O mercado está em um momento muito bom e temos perspectivas positivas com os ajustes do Minha Casa, Minha Vida", afirmou, em entrevista ao Estadão/Broadcast.
Pela frente, outro impulso virá da decisão do governo federal de ampliar as faixas de renda do MCMV, o que está sujeito à aprovação do Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) no fim deste mês. Se confirmado, isso ampliará o poder aquisitivo dos consumidores e dará flexibilidade para a construtora buscar mais vendas, ganho de velocidade na comercialização e/ou subida de preços para melhorar as margens.
Mesquita acrescentou nesta quarta-feira, 11, em teleconferência com investidores e analistas, que a empresa deve aproveitar para subir os preços neste primeiro momento, o que irá favorecer a sua margem de lucro. "Vamos tentar, nesse início, ganhar preço onde for possível", disse. "O ajuste é uma medida importante para nos programar para trabalhar nas faixas mais altas e atender mais pessoas", complementou.
Na sua avaliação, o novo ajuste mostra uma maturidade do MCMV. "Enxergamos isso como amadurecimento. No passado, o governo esperava o programa deteriorar, perder tração. Agora as medidas estão vindo no momento certo para o MCMV continuar pujante", disse Mesquita, lembrando que a inflação no País requer tais ajustes.
Por outro lado, há uma preocupação com a liminar do Tribunal de Justiça que suspendeu novos alvarás de obras em São Paulo devido a problemas no processo de revisão do plano diretor na cidade, segundo manifestação do Ministério Público. A liminar foi concedida em fevereiro e permanece válida.
A Cury tem um volume de projetos já aprovados, e com alvarás emitidos, que permite à construtora manter seu fluxo de lançamentos previstos até a metade do ano. "Depois disso, já começaremos a ter problemas", disse Mesquita.
Troca no comando
Pela frente, a Cury também deve ter mudanças no alto escalão. A construtora — uma empresa de origem familiar, que há cinco anos ingressou na Bolsa de Valores — tem um plano de sucessão interna preparado. O presidente executivo, Fabio Cury, deixará a função para assumir um assento no conselho de administração em algum momento futuro.
Quando isso acontecer, o sucessor será escolhido entre os demais executivos que compõem a direção da empresa. O mais cotado é o vice-presidente comercial da empresa, Leonardo Mesquita. "Temos um plano de sucessão pronto na empresa caso o CEO decida ir para o conselho. Todas as vezes que ele é questionado sobre isso por investidores, ele manifesta a expectativa de fazer esse movimento algum dia. Agora, a decisão (sobre o momento) dependerá dele", explicou.