Estímulos mantêm economia aquecida, pressionam inflação e dificultam trabalho do BC, dizem analistas
Avaliação é de que atividade econômica deve crescer acima do potencial por mais tempo do que espera o BC, o que provoca alta de preços e deve fazer os juros caírem mais lentamente
Os estímulos que ajudaram a reanimar a economia devem prolongar o período em que a atividade cresce acima do potencial, o que implica pressão sobre os preços e em mais dificuldades no trabalho do Banco Central — que já enfrenta as incertezas provocadas pelos rumos da guerra no Oriente Médio — de levar a inflação para a meta. Diferentemente das estimativas divulgadas pelo próprio BC, o mercado avalia que a convergência da economia ao nível de equilíbrio pode ter sido interrompida no primeiro trimestre e que isso levará mais tempo para ocorrer.
Os economistas concordam que o hiato do produto — a diferença entre o crescimento econômico efetivo e o potencial da economia — vem caindo e deve voltar à neutralidade. A expectativa de grande parte dos analistas, porém, é de que isso dificilmente aconteça até o fim deste ano. Nas previsões da XP Investimentos, por exemplo, o hiato só deve entrar no terreno negativo — ou seja, com a economia crescendo abaixo do potencial — no segundo semestre de 2027.
Seria um ritmo bem mais lento do que o traçado pelo diretor de Política Monetária do BC, Nilton David. No início de abril, ele projetou que o hiato cruzaria o eixo zero em um prazo de semanas.
A previsão é coerente com as estimativas do mais recente Relatório de Política Monetária (RPM) do BC, publicado há um mês. O documento previa o hiato ainda positivo em 0,1% no primeiro trimestre e valores negativos nos trimestres seguintes. No terceiro trimestre de 2027, o BC estimava hiato negativo em 0,4%.
É normal haver divergências nessas previsões por conta da utilização de metodologias e premissas diferentes. Os cálculos do mercado e do BC podem divergir por estimativas distintas do Produto Interno Bruto (PIB) potencial — o máximo que o País pode produzir sem gerar inflação — e porque as projeções de economistas para o crescimento do PIB neste ano, de 1,85%, superam as da autoridade monetária: 1,6%.
Para o BC, que nesta quarta-feira, 29, reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, para 14,5% ao ano, o Brasil voltar a crescer dentro de sua capacidade é uma premissa para a inflação recuar de forma sustentável em direção à meta de 3%.
Há quase quatro anos, nas contas do mercado, a atividade cresce acima do potencial, com momentos na primeira metade do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em que o hiato ficou positivo em 1,5% a 2%. Sob efeito dos juros altos, a atividade perdeu força no segundo semestre do ano passado, fazendo a taxa recuar para 0,4%, nas contas do BC, ou 0,5%, nas previsões do mercado. Porém, sustentada pela isenção do imposto de renda a salários de até R$ 5 mil, pelo reajuste do salário mínimo e pelas concessões de crédito consignado, a economia ganhou força no início do ano.
Isso pode ter um novo impulso ainda com o programa de renegociação de dívidas que deve ser anunciado pelo governo, chamado de Desenrola 2.0, que tem potencial para ser um novo estímulo ao consumo.
"Quando analisamos os dados do PIB, de fato observamos o hiato fechando. Mas os dados recentes de atividade mostraram recuperação. Talvez essa trajetória tenha sido interrompida momentaneamente", diz o economista-chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano.
Economistas da XP e do Santander consideram que a parcela do crescimento acima do potencial pode ter subido para algo na faixa de 0,5% a 1% no primeiro trimestre.
Apesar dos juros ainda elevados, os pagamentos de precatórios, a antecipação do décimo terceiro salário de aposentados e as novas linhas de crédito — em especial a ampliação do programa Minha Casa, Minha Vida, o financiamento de reformas residenciais e as linhas já anunciadas para caminhões e máquinas agrícolas — indicam que o alinhamento entre PIB potencial e efetivo não será imediato. "Além disso, é um ano de eleição, o que antecipa gastos públicos para o primeiro semestre", acrescenta a coordenadora do Boletim Macro do Ibre/FGV, Silvia Mattos.
Conforme o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, o consumo segue relativamente forte, com setores que dependem do crédito, como o mercado imobiliário e as vendas de automóveis, mostrando resiliência aos juros altos. "Os dados antecedentes, como consumo aparente de aço, cimento e energia, e a produção de automóveis, sugerem um ambiente econômico ainda forte", observa Galhardo.
No questionário enviado pelo BC em março, economistas responderam que previam um hiato ainda ligeiramente positivo no fim deste ano. A projeção, na mediana, era de crescimento 0,1% acima do potencial no último trimestre de 2026.
Para Gabriel Couto, economista do Santander, o processo de fechamento do hiato pode ter sofrido uma inflexão no primeiro trimestre, quando, nas estimativas feitas pelo banco com base em indicadores disponíveis, o PIB cresceu cerca de 1%. O movimento está ligado a estímulos do lado da demanda no começo do ano. "Sendo um impulso de demanda, você não vê contrapartida no potencial, isso acaba gerando uma ampliação do hiato, ao menos temporariamente", diz Couto.
Para o Santander, a queda lenta dos juros e uma política fiscal que tende a ser menos expansionista devem contribuir para a moderação do crescimento nos próximos trimestres. Consequentemente, a tendência é de o hiato voltar a se fechar ao longo de 2026, levando a economia a operar perto do potencial no segundo semestre.
Economista da XP Investimentos, Rodolfo Margato acredita que essa tendência será mais gradual. Após terminar 2026 em 0,5%, ele vê o hiato caminhando para a neutralidade no segundo trimestre do ano que vem e atingindo nível ligeiramente negativo apenas no segundo semestre de 2027. "Para o ano que vem, vemos um impulso fiscal negativo no início de governo, além do efeito defasado da política monetária restritiva", diz.
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