Empresas associam investimento social mais a ganho reputacional do que financeiro, diz estudo
Pesquisa da Comunitas lançada nesta terça-feira, 28, busca apresentar aspectos da integração do investimento social corporativo aos negócios das empresas no Brasil
O alinhamento entre o investimento social corporativo e a estratégia de negócios nas empresas no Brasil é reconhecido como impulsionador para a reputação e o relacionamento com partes interessadas (stakeholders). No entanto, quando o assunto são os impactos mais diretamente ligados ao desempenho financeiro, como aumento de vendas e valorização de ações, esse tipo de aporte não é visto de forma nítida como um gerador de resultados.
O cenário é percebido por meio dos dados da pesquisa "Conexões e Fronteiras entre o Investimento Social Corporativo e os Negócios", do BISC (Benchmarking do Investimento Social Corporativo), pilar de investimento social corporativo da organização Comunitas. A nova edição do mapeamento será lançada nesta terça-feira, 28, na sede da B3, em São Paulo (SP), e foi antecipada ao Estadão.
A pesquisa, que buscou entender a integração do investimento social aos negócios das empresas, foi mapeada em 2025 com abordagem metodológica mista, combinando revisão de literatura sobre o tema, investigação qualitativa e dados quantitativos. A análise contempla também dados de organizações participantes da Rede BISC, que é formada por grandes empresas e seus institutos ou braços sociais em operação no Brasil.
Segundo o documento, fazem parte da Rede BISC a B3 Social, a Fundação Cargill, a Fundação Sicredi, o Instituto C&A, o Instituto Coca-Cola Brasil, o Instituto Lojas Renner, o Instituto Votorantim, o Instituto Ultra, a Gerdau, a Neoenergia, a RD Saúde, o Santander, o Serasa Experian, a Unilever e a Vale.
O levantamento indica que, quando o tema é a percepção de resultados no alinhamento dos investimentos sociais aos negócios, os principais benefícios estão mais direcionados ao campo reputacional. Em destaque, estão: fortalecimento da imagem da empresa; melhoria no diálogo com stakeholders; aproximação com as comunidades; licença social para operar; inserção espontânea e positiva da atuação na mídia; e reconhecimento público.
Por outro lado, as áreas mais próximas da ideia de retorno financeiro são vistas como as que são menos impactadas pelo investimento social. Entre tópicos que seriam menos favorecidos estão: acesso a novos mercados, valorização das ações no mercado financeiro, impacto positivo nas vendas e inovação nos meios de produção.
A diretora da Comunitas, Patrícia Loyola, explica que os efeitos reputacionais e de relacionamento são fatores de negócios que, de fato, sentem mais os efeitos do investimento social, por serem mais próximos à ideia da responsabilidade corporativa. Isso também ajuda a explicar o motivo da visão de que esse tipo de investimento impacta menos no retorno da empresa dentro do mercado financeiro.
Embora ressalte que os dados se tratem mais de pontos de vista dos entrevistados do que de indicadores calculados, Loyola diz que as percepções guardam "relação importante com a realidade", mas que a pesquisa levanta a provocação de que há um grande potencial a ser ainda explorado na conexão entre investimento social e impacto nos negócios.
"O investimento social oferece expertises únicas à empresa em frentes como mitigação de riscos, inovação e estabilização de cadeias produtivas, e são especialmente relevantes no contexto atual de problemas complexos interconectados. Mesmo em objetivos de curto prazo, o investimento social pode ser a chave para endereçar desafios de negócios que possuam raízes sociais, a exemplo de escolaridade, inclusão produtiva e capacitação profissional", salienta.
Conexão com alto escalão
A visão de que o investimento em impacto social oferece menor resultado em ganhos financeiros se comparado aos reputacionais pode estar ligado ao fato de haver ainda pouca conexão entre o alto escalão das empresas e as decisões sobre esses aportes. O ideal é haver uma integração mais ampla entre líderes de diferentes níveis hierárquicos.
Segundo o estudo, na relação entre o investimento social e as lideranças corporativas, as instâncias com maior poder de decisão são: lideranças corporativas de várias áreas, como institucional, sustentabilidade, recursos humanos, comunicação e etc. (77%); conselhos dos próprios institutos (64%); estruturas colegiadas das empresas (41%). Na ponta, aparecem: CEOs (41%); vários CEOs de empresas ou unidades de negócios distintas (32%); lideranças globais dos negócios (14%).
Para Loyola, a conexão entre investimento social e alta liderança empresarial é hoje um dos "tópicos de fronteira" mais relevantes do setor. É importante que esses representantes façam parte das esferas de tomada de decisão sobre esse tipo de investimento, mas também deve haver uma governança estruturada para que a política da alocação se perpetue, independente de movimentos de sucessão.
"Grandes exemplos de investimento social de empresas têm por trás o envolvimento pessoal dos fundadores e controladores dos negócios, mas estes arranjos podem se fragilizar em contextos de sucessão de liderança e profissionalização da tomada de decisão em instâncias de governança."
Para cumprir seu potencial, o investimento social precisa estar mais presente na agenda dos Conselhos, ter seu papel institucionalizado e reconhecido pela empresa como um todo, acrescenta a gestora. "(É preciso que o investimento social) tenha o respaldo das lideranças para cumprir sua missão e explorar o potencial de geração de valor público e privado."
Protagonismo em outras áreas
O investimento social corporativo pode ter protagonismo em outras áreas do negócio, no entanto Loyola lembra que é preciso considerar que esse aporte se destina à geração de impacto social positivo à sociedade e às agendas estruturantes para o desenvolvimento social das comunidades e do País.
A especialista aponta três frentes prioritárias que podem ser adotadas no curto prazo pelas empresas para que isso aconteça:
- Investir no engajamento interno de lideranças e colaboradores para conscientizar de que o investimento social e o instituto são uma estrutura pertencente ao negócio e possui expertises específicas;
- Promover o entendimento dos diferentes líderes das empresas sobre os modos de funcionamento do investimento social e do terceiro setor, que são diferentes do timing de outras áreas dos negócios;
- A partir desse reconhecimento e do estabelecimento de parcerias possíveis, fazer com que o orçamento do investimento social reflita o ganho de complexidade das suas aplicações, para que não se corra o risco de o orçamento seja cooptado pelos interesses meramente privados, se desviando do impacto público.
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