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É possível criar grandes negócios com funcionários trabalhando de casa, dizem especialistas no RIW

Aumento da ocupação de escritórios indica que o trabalho remoto perdeu força, mas startups e negócios consolidados encontram caminhos para a produtividade e retenção de talentos com o modelo à distância; entenda

7 ago 2026 - 09h43
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O trabalho remoto ganhou grande destaque durante a pandemia de covid-19 por ter se tornado popular a fim de evitar aglomerações e espalhar ainda mais a doença. Porém, com a retomada da normalidade, muitas empresas começaram a voltar aos escritórios. Prova disso é que a vacância de escritórios caiu de 25,1% no segundo trimestre de 2021 para 14,3% no mesmo período deste ano, segundo dados da consultoria Newmark. No entanto, empresas como a fintech RecargaPay ainda adotam modelo de trabalho 100% remoto, o que já faziam desde antes da pandemia.

Miguel Perdigão, gerente geral de produtos financeiros na RecargaPay, diz que a companhia conta hoje com cerca de 500 pessoas espalhadas por 100 cidades em países como Brasil, Argentina, Portugal e Estados Unidos. Para ele, o trabalho remoto é um forte aliado na retenção e recrutamento, especialmente no setor financeiro, onde muitos concorrentes estão exigindo o retorno ao presencial.

"Temos todos os controles que precisamos ter como uma instituição financeira e lançamos nos últimos dois anos todos os produtos que uma plataforma financeira tem. Trabalhando 100% remoto", afirmou Perdigão, durante o Rio Innovation Week, em painel mediado por Lucas Agrela, repórter do Estadão.

Painel no RIW discutiu a produtividade no trabalho remoto
Painel no RIW discutiu a produtividade no trabalho remoto
Foto: RecargaPay/Divulgação/Beto Petroni / Estadão

Segundo André Chiarini, presidente da empresa de logística Spare Partners, a presença física é indispensável para atividades como movimentação de materiais, inspeção, recebimento e atendimento 24x7 nos armazéns. No entanto, ele mantém todo o setor corporativo da empresa 100% remoto, tanto no Brasil quanto no Peru, o que tem gerado ganhos de produtividade e maior disponibilidade das pessoas.

"A empresa foi criada em 2018 no Peru, mas chegou ao Brasil no final de 2019, e logo em seguida veio a pandemia. No Brasil, sempre tivemos trabalho remoto, e isso faz diferença no dia a dia para a produtividade, para a disponibilidade das pessoas para as reuniões e para trocar ideias e fazer acontecer. Também tem feito muita diferença na hora do recrutamento", disse Chiarini.

Christian Brech, gerente nacional da plataforma de gestão de pessoas e RH Buk Brasil, afirmou que o sucesso do trabalho remoto começa na contratação. Por isso, ele busca pessoas engajadas que compartilhem o propósito da empresa para evitar a necessidade de controles invasivos, como monitoramento de cliques no mouse.

Brech conta que a Buk tem um programa chamado "Work from Anywhere" (trabalhe de qualquer lugar) que permite aos seus mais de 2 mil funcionários trabalharem de onde quiserem, baseando-se na autonomia e na relação entre líder e liderado. "Temos uma pesquisa anual de felicidade organizacional e, na última edição, 86% das pessoas declararam estar felizes com o trabalho remoto", disse.

Para ele, o setor de tecnologia, pioneiro no modelo de trabalho remoto, continua a ser o mais propício para quem deseja trabalhar fora do escritório. Porém, outras áreas tipicamente presenciais estão se tornando mais flexíveis e adotando modelo de trabalho híbrido, com alguns dias na empresa e outros de casa. "Hoje, muitas pessoas foram morar até fora de São Paulo e, com a volta ao presencial, acabam perdendo mais tempo no deslocamento. É importante se perguntar se vale a pena mesmo trazer todo mundo para o escritório", afirmou.

Cultura é argumento usado por empresas para a volta ao presencial

A cultura come a estratégia no café da manhã. Essa frase de Peter Drucker, conhecido como o pai da administração moderna, é um mantra repetido à exaustão por CEOs e diretores de diferentes nichos de mercado. Esse mesmo mantra é usado como argumento para a volta ao trabalho presencial. Porém, nem sempre isso se confirma na prática.

Perdigão argumentou que a cultura não é algo que se constrói apenas em momentos informais, como o café no meio da tarde, mas sim no dia a dia das operações, na forma como as decisões são tomadas, na agilidade das reuniões e no progresso dos projetos. Para ele, a estrutura horizontal e a rapidez na resolução de problemas ajudam a imprimir a cultura da empresa mesmo à distância.

Brech ressaltou que a cultura se baseia na confiança desde o início, evitando controles invasivos. Para ele, a rotina e o passo a passo dos processos garantem que as pessoas se sintam parte dos projetos da empresa.

Já Chiarini destacou que a formação da cultura vem da coerência entre os valores pregados e a prática real, independentemente de ser online ou presencial.

Volta ao presencial acaba com os nômades digitais?

O sonho de trabalhar de outra cidade, país ou continente parecia ao alcance de todos que trabalhavam em escritórios no auge da pandemia de covid-19, mas a volta ao presencial tem tornado isso cada vez mais raro no mercado de trabalho.

Para Chiarini, o setor de tecnologia é o único que se encaixa nesse modo de vida, dado o histórico mais longevo de cultura de trabalho remoto.

Perdigão, do RecargaPay, defendeu o conceito de trabalhar de qualquer lugar, em oposição ao modelo remoto que obriga o funcionário a ficar apenas dentro da sua casa. Como exemplo prático, ele mencionou o caso de um colaborador do RecargaPay que fez uma longa viagem de trailer enquanto trabalhava normalmente na empresa.

Brench vê o nomadismo digital como um diferencial para atrair talentos para as empresas atualmente. Porém, ele observou que, em especial, a área comercial ainda requer encontros presenciais com clientes e alguns rituais que podem exigir a presença física para fechar negócios.

Estadão
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