PUBLICIDADE

Dopamina faz você comprar e jogar online; E vicia mesmo?

Esse neurotransmissor está relacionado aos sentimentos de amor e luxúria

21 jul 2023 - 06h20
Compartilhar
Exibir comentários
Foto: Kaysha / Unsplash

Salve, salve!!! Salve-se quem puder.

A INA da vez é a dopamina. Esse neurotransmissor está relacionado aos sentimentos de amor e luxúria, ao vício por jogos, ao uso de drogas e ao consumismo irracional.

Na hora do “vamo ver”, seja sendo sentimento ou por prazer (e luxúria), a dopamina estará presente debaixo dos caracóis dos seus cabelos e espalhada pelos lençóis de algodão egípcio no seu ninho de amor.

Ela também está nas lojas onde o consumo desenfreado injeta doses homeopáticas na sua corrente sanguínea fazendo com que você sinta prazer ao comprar aquele espremedor de toranje inútil ou aquele porta mirtilos pra levar de sobremesa no trabalho que será usado apenas uma vez.

Nos jogos de azar então ela manda e desmanda. Aquela sensação de derrota ao perder mil lascas na roleta é imediatamente substituída pela esperança ilusória de que na próxima rodada você vai ganhar duas mil recuperando o preju e voltando pra casa no lucro. Ledo engano.

Pra acompanhar a leitura, aperte o play na playlist “Dopamine” que achei prontinha, entregue de bandeja, com músicas “very very vibe worthy”.

Tem Talking Heads, Paul Simon, Queen, Flamming Lips, Blur, ABBA e até Daft Punk. Muito biscoito fino.

A cada compra, uma dose no sangue

O ser humano pensa que é racional quando na verdade somos pura emoção. A maioria dos nossos atos e decisões são instintivos, inconscientes e muitas vezes, sem explicação racional. As INAs têm papel fundamental nisso.

Ao fazer compras, online ou numa loja física, a grande vilã da sua carteira sair mais vazia do recinto é a dopamina. A cada dez minutos a substância química é secretada em nosso sangue estimulando o circuito de recompensa de prazer no cérebro.

A dopamina está mais relacionada com a motivação e a relação custo-benefício do que com o próprio prazer. No fim das contas, você acaba comprando mais do que precisava ou mesmo coisas inúteis que serão usadas poucas vezes.

O estrago nas compras online é ainda maior devido à simplicidade da operação. Seu endereço e cartão de crédito já estão cadastrados. Basta alguns cliques e pronto. Antes de receber o artigo você já está chorando arrependido.

Nos viciados em jogos de azar a dopamina entra em ação pelo mesmo motivo: o mecanismo de recompensa de prazer. Se começarmos ganhando na jogatina, a “onda” vai aumentando gradativamente. Uma jogada perdida é incapaz de deter o destemido apostador. Seja nas corridas de cavalo, no cassino ou nas loterias, o efeito é o mesmo. Raros são os jogadores que conseguem ser racionais segurando o ímpeto e sair no lucro.

Uma vez meu pai estava em viagem de trabalho num país da América Latina, na Venezuela, acho eu. Eram os anos 80, outro mundo. Ele foi ao cassino com pouco dinheiro justamente pra conter um previsível prejuízo. Ganhou 3 mil dólares após várias rodadas em roletas, black jacks e caça-níqueis. Decidiu subir ao quarto, bateu na porta e deixou 2 mil com seu colega pedindo pra não abrir a porta de jeito nenhum caso ele voltasse pra buscar a bufunfa. Dito e feito: em menos de 15 minutos ele perdera os mil dólares e voltou ao quarto pra pegar mais dinheiro e tentar recuperar no salão de jogos. Ainda bem que seu colega era obediente e manteve a porta trancada.

Se liberada sem excessos, a dopamina é muito útil e benéfica pois é fundamental para a motivação, foco e produtividade. Em situações de gratidão, cumprimento de metas ou pequenas listas de afazeres domésticos a dopamina é liberada.

Pequenas vitórias da vida do pequeno burguês também produzem a danada. Ao achar uma vaga pra estacionar, receber uma promoção no trabalho, pegar um caixa livre no supermercado, achar dinheiro no chão, tudo isso gera dopamina e mini vitórias nas pessoas. Essas mini sortes da Vida.

Produzida no hipotálamo, é secretada quando comemos alimentos ricos em tirosina: chocolate, feijão, amêndoas, sementes de abóbora, ameixas, mirtilo, chá verde, melancia, maçã e beterraba.

Uma maneira eficaz de aumentar a dopamina no organismo é definir metas de curto prazo quebrando aqueles sonhos de verão do tipo: escrever um livro ou aprender italiano em um mês. Dividindo em metas pequenas e factíveis, fica mais fácil cumprir e a recompensa pelo sucesso efêmero vem via dopamina. Celebrar sempre, qualquer coisa, também ajuda.

Por exemplo, você vai ao supermercado na esquina, faz suas compras e volta pra casa sem tropeçar em nada, sem cair num buraco na calçada e não é assaltado (por alguém ou pelo supermercado) já é motivo pra comemorar.

Estoure agora mesmo uma cidra gelada deixando a dopamina tomar conta de você. Nem que seja por alguns minutos.

Para ver e ler e reler

Filme: Cassino – Martin Scorsese (1995)

Robert De Niro em grande forma, Joe Pesci no seu melhor papel e Sharon Stone deslumbrante. Martin Scorsese na direção de seu melhor filme sobre máfia. Um clássico moderno obrigatório.

A história se passa em Las Vegas nos anos 70, onde mais? De Niro é o diretor de um cassino com um passado duvidoso. Sharon é uma prostituta de alta classe, dominante, conquistadora, que só não consegue dobrar seu cafetão. Pesci é uma espécie de guarda costas do diretor de casino e começa a seguir a prostituta após desconfianças de seu chefe.

Numa época quando a Máfia controlava até a quantidade de açúcar que cada cidadão tomava nos cafés da cidade, temos um painel de uma época glamourosa dos crimes e da própria organização, ainda poderosa e influente.

Vemos a queda e a destruição de alguns dos valores mais profundos resultando na vitória da massificação, da propaganda em excesso, consumismo, ganância e apego ao lucro.

Livro: Open, uma autobiografia – André Agassi

Um multi campeão que detestava jogar tênis. Culpa de seu pai, um carrasco insensível que viu nele um talento nato e decidiu seu futuro como um superstar do tênis. De família armênia e iraquiana, um sobrevivente das diásporas do mundo, o patriarca Agassi só se esqueceu de que seu filho André nunca quis aquilo pra sua Vida.

Do início claudicante e inseguro em Las Vegas até a disputa dos Grand Slams, o tenista nos conta com rara franqueza e sinceridade as batalhas internas contra sua forma de jogar durante toda a carreira, a falta de condicionamento físico adequado, a tirania do pai, incapaz de um mero elogio, e sua constante insegurança.

Sua vida de celebridade sempre o incomodou. Tinha uma namorada de infância, mas depois apareceu Brooke Shields e nada foi como antes.

Os detalhes das batalhas contra Pete Sampras, seu eterno rival, Boris Becker, Michael Chang, Andrej Medvedev, Evgeni Kafelnikov e tantos outros são narradas em detalhes.

Um livro obrigatório para os amantes do tênis e pra quem gosta de grandes personagens dos esportes.

Livro: Um Jogador - Fiodor Dostoievski

Desta vez Dostoiévski nos leva até Roletemburgo, cidade fictícia na Alemanha, revelando as artimanhas e vícios de cada jogador em busca do objetivo comum: ganhar dinheiro. Os personagens parecem saídos de uma piada de salão: o general russo atormentado, o misterioso lorde inglês, o ardiloso galanteador francês, a velha matriarca russa doente, rica e inconsequente e o próprio narrador, um misto de ficção e autobiografia, já que o próprio autor era viciado na jogatina.

O livro foi escrito em pouco mais de 20 dias quando Dostoiévski ainda escrevia "Crime e Castigo". No início de Outubro de 1866 ele estava numa sinuca de bico: se não entregasse um novo romance até 1° de Novembro ao editor e vigarista F. T. Stielóvski, este teria o direito de publicar durante os próximos nove anos tudo que Fiodor produzisse sem lhe pagar um vintém.

Num ritmo de trabalho alucinante Dostoiévski rascunhava o material pela manhã, ditava tudo a taquígrafa Ana Grigórievna Snitkina, que viria a ser sua segunda esposa, entre meio dia e 4h da tarde e ela levava tudo pra casa fazendo a transcrição. Em 26 dias um dos romances mais vertiginosos e autobiográficos do autor estava pronto.

Uma crítica contundente ao capitalismo e seus ganhos fáceis nos jogos, vide bolsa de valores, e suas perdas catastróficas.

A dopamina comia solta desde aquela época, sem dó nem piedade.

(*) Pedro Silva é engenheiro mecânico, PhD em Materiais, vive em Viena na Áustria, já ganhou R$ 1.000 na raspadinha e um licor de jabuticaba após completar uma cartela de bingo, e escreve semanalmente a newsletter Alea Iacta Est.

Homework Homework
Compartilhar
Publicidade
Publicidade