Dinheiro traz felicidade? Economista responde
A resposta conflitante para essa pergunta envolve economia, psicologia e até a nossa visão de mundo Dinheiro, bufunfa, grana, money, dindim… seja lá o apelido que ele ganhe, ninguém pode negar que o dinheiro é a razão de muita alegria - mas também de muito sofrimento por aí. É também por dinheiro que levantamos cedo […]
A resposta conflitante para essa pergunta envolve economia, psicologia e até a nossa visão de mundo
Dinheiro, bufunfa, grana, money, dindim… seja lá o apelido que ele ganhe, ninguém pode negar que o dinheiro é a razão de muita alegria - mas também de muito sofrimento por aí. É também por dinheiro que levantamos cedo para trabalhar, e é com ele que fazemos um conjunto de coisas incríveis: uma viagem dos sonhos, uma capacitação profissional importante ou até aquele objeto que você sempre quis ter na infância, mas não teve condições de comprar.
Entretanto, também é por dinheiro que boa parte dos crimes, incluindo guerras, acontecem. Se não alcançamos a paz mundial, pode ter certeza que também envolve os lucros dos fabricantes de armas. E se extraterrestres existem, descobrir que em troca de números em cédulas de papel (ou por trás de uma tela digital) a humanidade reza, briga e até mata, talvez eles passem a achar que a raça humana é que é a estranha, afinal. O dinheiro move o mundo e os nossos planos. Mas ele traz felicidade?
Bem, sim
E alguns dados reforçam essa ideia. Em 2022, por exemplo, a Finlândia foi considerada pela ONU pelo 7° ano consecutivo o país mais feliz do mundo, de acordo com a 10ª edição do Relatório Anual da Felicidade no Mundo. E não adianta tentar fugir de que por trás da felicidade finlandesa não está também sua estrutura social bem amparada, inclusive financeiramente. Nessa mesma lista, países como Afeganistão e Líbano apareceram nas últimas posições, e ambos enfrentam desafios tanto em suas economias quanto em suas estruturas sociais.
Na verdade, por trás da maioria das crises políticas e sociais, normalmente há também uma crise econômica. Muitos se perguntam como o nazismo cresceu tão rápido na Alemanha dos anos 30 e 40, por exemplo, ignorando que o país vivia a maior crise financeira de sua história na época em que Adolf Hitler apareceu cheio de promessas vazias (e com muita monstruosidade).
Então, a solução para todos os problemas é o dinheiro? Se você já viveu o suficiente, sabe que também não é por aí. Não é preciso ir longe para encontrar celebridades e empresários que "têm de tudo", mas enfrentam desafios tão dolorosos quanto os de qualquer outra pessoa. Recentemente, a cantora Lexa perdeu sua filha, Sofia, com apenas três dias de nascida, após complicações em um parto de emergência. Toda a fortuna da Apple à disposição de Steve Jobs não foi suficiente para curá-lo quando ele morreu com apenas 56 anos de um câncer no pâncreas. O dinheiro é capaz de resolver muitos problemas, mas como diria o velho ditado: felicidade não se compra.
Então, por que acreditamos que dinheiro faz tudo?
De forma resumida? Capitalismo. Em nosso atual sistema econômico, tudo é mercadoria, inclusive itens essenciais. E se em países como a Finlândia a renda está melhor distribuída entre a população, no nosso Brasil (que está em 38º lugar no ranking e é considerado pela Organização Mundial da Saúde como a segunda nação mais deprimida do continente americano), o acesso a esses direitos não está disponível para todo mundo justamente por falta de dinheiro, daí um motivo para o sofrimento. "Normalmente acreditamos que não há limite para a riqueza. Sendo rico, a impressão é que você pode tudo. Mas tem limite para a pobreza, que é a morte por falta de alimentação ou frio, por exemplo. Para quem não tem nada e passa fome, não é sequer possível discutir o que é felicidade, porque as necessidades básicas da pessoa já não estão sendo atendidas", reflete a economista e conselheira do conselho regional de economia de São Paulo (Corecon-SP), Carla Beni.
Para ela, as questões individuais se misturam às sociais nesse aspecto. "Quando você vive em um estado que te garante o básico, sua tendência é focar mais em seu bem-estar. Na Austrália, por exemplo, onde há uma melhor estrutura social, é comum que os jovens queiram arrumar um emprego e viver a vida. Já no Brasil, onde é preciso trabalhar muito para se ter o básico, surge uma certa obsessão pela riqueza como uma forma de conseguir felicidade. Mas, na verdade, o que isso esconde é a ineficiência do setor público, já que o que essa pessoa está fazendo é tentar suprir essas carências através do que é privado", reflete.
Não, dinheiro não traz felicidade
Parece contraditório, eu sei, mas me permita elaborar: o dinheiro é uma forma de acesso, mas ele não traz felicidade sozinho. Quem explica melhor é Flávia da Veiga, Especialista em Ciência da Felicidade e CEO da BeHappier. "A felicidade autêntica vai muito além da riqueza material. Estudos mostram que, após atingir um nível básico de segurança financeira — onde as necessidades essenciais como moradia, alimentação e saúde estão garantidas —, fatores como relacionamentos significativos, propósito de vida, saúde mental e bem-estar emocional passam a ser os principais determinantes da felicidade", esclarece.
Então sim, cientificamente falando, aquele carro ou bolsa de luxo é uma felicidade ilusória. Em um resumo da psicóloga Cristiane Pertusi: "Depois de suprir nossas necessidades, o que vai realmente influenciar na felicidade são nossas relações, inclusive com nós mesmos, já que descobrir propósitos de vida e acumular experiências é muito mais importante que ter dinheiro apenas por ter."
Sim, a felicidade financeira até existe, mas o que a ciência descobriu até agora é que ela tem um limite. Um artigo de 2010 publicado pela universidade de Princeton, nos EUA, e escrito pelos pesquisadores Daniel Kahneman e Angus Deaton, concluiu esse "platô" em cerca de US$ 75 mil anuais para os estadunidenses na época. Depois disso, rendas maiores não alteravam em nada a felicidade dos indivíduos. "Em outras universidades, como a de Illinois, alguns estudos concluíram que sociedades que priorizam o sucesso financeiro apresentam menor felicidade geral, na realidade", complementa Flávia.
Em conclusão…
Depois de conseguir a sonhada vida confortável, com acesso a lazer, educação, saúde, segurança e um futuro, o que vai definir se alguém é feliz ou não será a sua forma de encarar a vida. "Dinheiro sem conexão, sem propósito e sem vínculos significativos pode gerar vazio, ansiedade e até isolamento. Mas quando utilizado para criar experiências enriquecedoras, apoiar nossos valores e fortalecer laços, ele se torna um meio poderoso para o bem-estar", explica a terapeuta Daniella Villar. Sim, essa pode ser a razão do porque algumas pessoas são muito ricas, mas vivem infelizes (e discutindo com todo mundo na internet!)
A resposta para a pergunta que abriu essa matéria, como já deve ter dado para perceber, é "depende". O dinheiro, no fim das contas, é apenas um meio de troca. Ele existe para pagar aquilo que se paga com dinheiro, e por si só, não trás felicidade ou sofrimento. Para concluir, Daniella nos deixa uma provocação. "A verdadeira pergunta, então, não é se o dinheiro traz felicidade, mas sim: qual papel o dinheiro tem tido na nossa vida?"
"Numa sociedade de consumo, associar dinheiro e felicidade facilmente vira obsessão, já que felicidade não pode ser mercadoria. Não se preenche vazio existencial rodando em círculos no shopping." Carla Beni