Copom mantém ritmo, corta taxa de juros em 0,25 ponto e baixa Selic a 14,50% ao ano, como esperado
Foi o segundo corte seguido da taxa, em meio às incertezas sobre a guerra no Oriente Médio e seus efeitos; decisão do colegiado foi unânime
BRASÍLIA - O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira, 29, reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual - de 14,75% para 14,50% ao ano, como esperava o mercado financeiro. A decisão do colegiado foi unânime.
O Copom afirmou que os passos futuros do processo de calibração da taxa Selic podem incorporar novas informações sobre os conflitos no Oriente Médio.
"No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo", diz o comunicado.
O Copom também afirmou que a decisão de cortar os juros é compatível com a estratégia de convergência da inflação para ao redor da meta ao longo do horizonte relevante. "Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego", emendou.
Foi o segundo corte seguido da taxa. Na reunião anterior, de março, o Copom reduziu a Selic de 15% para 14,75% ao ano, a primeira diminuição dos juros em quase dois anos. Apesar do corte, na ocasião, o colegiado alertou para o aumento das incertezas no cenário, em função dos conflitos no Oriente Médio.
Uma semana depois, em 26 de março, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse em entrevista coletiva, que o "conservadorismo" da autoridade monetária durante 2025 compraria tempo para analisar o cenário e entender os efeitos da alta do petróleo, em razão do conflito, sobre os preços domésticos. "Estamos entendendo e vamos aprender mais daqui até a próxima reunião do Copom", afirmou.
No fim da tarde desta quarta-feira, a curva de juros indicava cerca de 100% de chance de um corte de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic.
Antes de março, a Selic estava em 15% ao ano desde junho de 2025. O período de estabilidade ocorreu depois de o BC aumentar a taxa em 4,50 pontos a partir de setembro de 2024.
Esse foi o segundo maior ciclo de alta dos juros nos últimos 20 anos, perdendo apenas para a alta de 11,75 pontos entre março de 2021 e agosto de 2022, que ocorreu após o fim da pandemia.
Incerteza
O Copom destacou no comunicado que o conflito no Oriente Médio aumentou tanto as suas projeções de inflação quanto a incerteza em torno dessas estimativas. Mesmo assim, o colegiado avaliou que havia espaço para continuar "calibrando" a taxa Selic, diante de evidências de que a manutenção dos juros em nível contracionista já levou a uma desaceleração da economia brasileira.
"Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados", diz o comunicado.
O corte na Selic ocorreu mesmo diante de um aumento de 0,2 ponto porcentual na projeção de inflação para o fim de 2027, de 3,3% para 3,5%. A partir desta reunião, o quarto trimestre do ano que vem passa a ser o horizonte relevante da política monetária.
O comitê destacou ter considerado "apropriado dar sequência ao ciclo de calibração" dos juros porque há evidências de que a manutenção da taxa de juros em nível contracionista - 15% durante quase todo o ano de 2025 - levou a uma desaceleração da atividade econômica.
Isso, segundo o Copom, cria as condições para ajustar o "ritmo e extensão" do processo de calibração, à luz de novas informações, de forma a assegurar um juro compatível com a convergência do IPCA à meta.
O colegiado voltou a repetir que acompanha como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza.
Ainda sobre o cenário doméstico, também disse que o conjunto de indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência.
Juros reais
Com a redução da Selic para 14,50%, o Brasil continua com a segunda maior taxa de juros reais do mundo, 9,33%, segundo o ranking MoneYou/Lev Intelligence. O País está atrás apenas da Rússia, com 9,67%. O México aparece em terceiro lugar, com 5,09%, seguido pela África do Sul (4,62%) e Indonésia (3,31%).
O BC calcula que a taxa real neutra de juros do Brasil - que não estimula, nem deprime a economia - é de 5,0%.
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