Concessões em expansão: o desafio agora é destravar mais capital para a infraestrutura
Após uma década de avanços nas rodovias, especialistas apontam, no evento 'P3C', governança, bons contratos e previsibilidade como chaves para atrair novos investimentos ao País
Se na última década o Brasil viveu uma transformação contundente nas concessões rodoviárias — com exemplos relevantes também em setores como saneamento e energia —, o debate que se impõe agora é como atrair ainda mais investimentos para acelerar a modernização da infraestrutura nacional.
Entre 2014 e 2024, por exemplo, foram realizados mais de 30 leilões de concessões e relicitações de rodovias federais, movimento que ampliou para cerca de 27 mil quilômetros a extensão de estradas concedidas no País, considerando trechos federais e estaduais.
Embora isso represente algo entre 15% e 18% da malha rodoviária pavimentada, essas vias concentram uma parcela desproporcional do tráfego de cargas e passageiros. Impulsionado por programas federais e estaduais, o modelo ganhou tração a partir de meados dos anos 2010, quando a necessidade de modernizar malhas saturadas e reduzir gargalos logísticos passou a ser central para a competitividade da economia.
"No caso desses contratos, os ativos não são apenas as rodovias, mas os contratos de concessão bem estruturados. Eles deram previsibilidade, e o setor privado enxergou essa evolução", afirmou Thiago Bronzi, sócio de infraestrutura da Patria Investimentos. Segundo ele, esse novo ambiente facilita a transformação do capital privado em parceiro do investimento em infraestrutura.
O forte choque de demanda gerado pelos projetos recentes do governo federal, observou André Figueira, diretor de private equity em infraestrutura da Kinea Investimentos, do Grupo Itaú, pode até ter criado desafios em termos de mão de obra para estruturar novos empreendimentos.
Ainda assim, ressaltou o executivo, a chegada de capital novo tem como um de seus pilares a governança. "Projeto bom sempre vai ter interessados", afirmou Figueira, participante do painel "Como ampliar o acesso a capital para projetos estruturantes no Brasil", durante o evento P3C nesta terça-feira, 24. O evento, realizado pela plataforma Necta e correalizado com o Estadão, o escritório Portugal Ribeiro & Jordão Advogados e a B3, reúne governo, investidores e iniciativa privada do setor de infraestrutura.
"O momento é muito positivo", afirmou Daniel Epstein, sócio do BTG Pactual — Capital Privado. Para ele, como investidores estrangeiros comparam constantemente as condições entre países antes de decidir onde alocar recursos, ter uma ampla carteira de projetos é um diferencial competitivo.
"O Brasil tem hoje um portfólio relevante para ser licitado, especialmente em saneamento, distribuição de energia e ferrovias. Isso é positivo", disse.
O fato de o país ter feito a lição de casa nos últimos anos, com avanços em governança e na qualidade da carteira de projetos de concessões e parcerias público-privadas (PPPs), não elimina, contudo, obstáculos importantes.
"O cenário macroeconômico brasileiro é positivo, mas esperamos uma queda maior dos juros, o que ajuda na captação de investimentos, sobretudo estrangeiros. Lá fora, muitos falam bem da nossa carteira de rodovias, hoje a maior do mundo", afirmou Túlio Machado, sócio da XP Asset Management.
A consolidação do mercado no longo prazo — com a possibilidade de que, daqui a dez anos, parte dos investidores migre para outros riscos em busca de maiores retornos — não é vista como um problema pelos especialistas reunidos no evento em São Paulo.
O movimento observado na última década, acompanhado por ajustes regulatórios e financeiros, com papel relevante da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na estruturação dos projetos, deve manter o fôlego.
Somente nos contratos federais assinados ou renovados desde 2015, os investimentos contratados superam R$ 300 bilhões, distribuídos ao longo de prazos que variam de 20 a 30 anos.
Mais recentemente, os contratos passaram a incorporar aprendizados da primeira geração de concessões, com maior atenção à alocação de riscos, a mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro e a metas de desempenho, consolidando o modelo como um dos principais instrumentos de expansão e modernização da infraestrutura rodoviária no país.
"Com bons projetos na base dos contratos, não vejo problemas mais à frente. Podemos ter tranquilidade em relação a isso. Para bons projetos, não vai faltar capital", resumiu Lucas Barbosa Rodrigues, sócio e gestor da Perfin Infra.