Conceito de supermercado financeiro sucumbiu, diz 'NYT'
Gretchen Morgenson
O conceito do supermercado financeiro - a instituição bancária gigantesca que oferece de tudo para todos - sucumbiu. A primeira notícia de sua morte veio neste mês, quando o Citigroup, o melhor exemplo do fracasso desse modelo de negócio, anunciou que estava se desmembrando. A dissolução começa apenas uma década depois do negociador Sandford I. Weill tentar combinar serviços de seguro, banco de investimento, empréstimo de hipoteca, cartão de crédito e corretagem de ações.
O Citigroup se tornou grande demais para ser gerenciado, pesado demais para sucesso, gigante demais para ser vendido a apenas um comprador. Dias depois, o Bank of America, outro comprador em série de instituições problemáticas - as últimas, Merrill Lynch e Countrywide Financial -, admitiu que seus negócios precisavam do apoio do contribuinte. O governo dos EUA investiu um adicional de US$ 20 bilhões no Bank of America (após os US$ 25 bilhões do último outono americano) e concordou em garantir mais de US$ 100 bilhões de ativos ameaçados.
Claramente, o setor financeiro inteiro está em transformação. E como ninguém quer chamá-la de nacionalização, talvez possamos concordar pelo menos nisso: o negócio do dinheiro como nos acostumamos a conhecer nas últimas duas décadas - com seus salários exuberantes, altos riscos e colchões ultrafinos de capital - já era.
E isso é algo bom, porque talvez possamos voltar a um modelo bancário que seja desenvolvido para fazer mais do que simplesmente enriquecer a cúpula do empreendimento, enquanto acionistas e contribuintes absorvem o dano. As atividades bancárias, lubrificando as engrenagens cruciais do comércio, têm uma posição especial no nosso mundo. Isso sempre será o caso.
Mas em troca desse papel, os principais banqueiros deveriam realizar suas funções com um senso de prudência e compromisso. Ao invés disso, um punhado de arrogantes senhores da ganância destruíram suas instituições e levaram a economia dos EUA ao precipício no percurso.
É cedo demais para dizer quanto do dinheiro do contribuinte americano vai ser gasto tentando reconstruir bancos arruinados por más práticas de empréstimo. Paul J. Miller, analista da Friedman, Billings, Ramsey, acredita que o sistema financeiro nacional precisa de um adicional de US$ 1 trilhão em ações ordinárias para restaurar a confiança e retomar os empréstimos - o sangue vital de uma economia de livre mercado próspera e empreendedora.
Esse US$ 1 trilhão viria além dos fundos desembolsados pelo Programa de Alívio de Ativos Problemáticos, que liberou US$ 700 bilhões, e do plano de estímulo do presidente, num total de US$ 825 bilhões. Segundo Miller, maior rigor no capital, elevado para servir como reserva apropriada em caso de erros do credor, será uma das mudanças que enfrentarão os bancos após saírem dessa confusão. Ele acredita que os reguladores vão exigir que bancos mantenham 6% dos ativos das ações ordinárias tangíveis. Hoje muitas instituições retêm menos de 4%.
Tal exigência cortaria os ganhos, é claro. Arriscar menos também reduziria a lucratividade - ou a aparência dela - nessas instituições. "Esse setor ganhou muito dinheiro assumindo uma linha de negócio com 20% de retorno nos ativos e alavancagens de até 30 vezes", disse Miller. "Não mais. Os bancos estão voltando a ser as companhias chatas que deveriam ser, crescendo de acordo com o produto interno bruto".
Isso claramente significa que o desempenho empolgante de companhias de serviços financeiros e suas ações provavelmente não retornará logo. Como nos últimos anos os ganhos dessas companhias alimentavam tanto a economia quanto o mercado de ações, um desempenho atenuado traz implicações consideráveis a investidores, consumidores e à economia.
Por exemplo, desde 1995, segundo a Standard & Poor''s, os ganhos financeiros foram responsáveis por 22% dos lucros, na média entre as companhias do índice S&P 500. Esses ganhos são quase o dobro do segundo melhor desempenho - o setor energético. É claro, muitos desses ganhos foram efêmeros e desde então se tornaram perdas. Mas quando as companhias divulgavam os lucros, suas ações disparavam.
As valorizações das ações dos serviços financeiros voltarão logo? Não, na opinião de Miller. "Eles vão se parecer mais com o setor de seguros, negociando pelo valor contábil ou uma vez e meia esse valor," disse. "Quer dizer, se você for muito bom."
Para os trabalhadores do setor financeiro, é claro, a queda inevitável já começou. Mas haverá mais. "O setor estava excessivamente grande; muita gente produzindo nada," disse Miller. "Empregos serão perdidos e não serão substituídos. E os salários do setor financeiro não chegarão nem perto do que foram".
O lado bom é que todos esses profissionais do serviço financeiro deslocados podem agora se concentrar em fazer algo, digamos, verdadeiramente útil. Mas esse ajuste será doloroso para todos que precisarão se esforçar para montar novas carreiras e para Nova York e outros lugares onde tais companhias estão sediadas.
Finalmente, o que um setor de serviços financeiros mais humilde vai significar para os consumidores? Maiores custos no empréstimo, disse Miller. "A alavancagem que essas companhias praticavam permitiu uma redução de suas taxas", disse. "As taxas terão de aumentar para os bancos operarem de maneira segura e sensata e ganharem dinheiro".
O crédito provavelmente vai continuar apertado, na opinião de Miller. Um resultado é que os gastos do consumidor não voltarão aos níveis da bolha. "Vai ser difícil conseguir crédito, e isso é algo a que o sistema precisa se adaptar," disse Miller. "É aí que o governo precisa entrar e substituir o crescimento dessa dívida para assegurar uma transição suave".
Em outras palavras, o primeiro plano de estímulo de Barack Obama provavelmente não será seu último. Quando as forças motoras da economia enfrentam uma queda profunda, as repercussões são de longo alcance. Mudar é doloroso, não resta dúvida. Mas os negócios americanos são muito bons em se reinventar quando necessário.
E nunca foi tão necessário.