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Como petróleo foi 'bênção' e 'maldição' da Venezuela, que foi de país mais rico da América do Sul a crise sem precedentes

A Venezuela chegou a ser o país mais rico da região e a ter um PIB per capita maior do que países como França, Itália e Alemanha nos anos 1950. O que deu errado?

12 jan 2026 - 16h08
(atualizado às 16h32)
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Venezuela chegou a ser o mais rico da América do Sul e a ter um PIB per capita maior do que países como França, Itália e Alemanha nos anos 50
Venezuela chegou a ser o mais rico da América do Sul e a ter um PIB per capita maior do que países como França, Itália e Alemanha nos anos 50
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Após a detenção de Nicolás Maduro, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos vão "administrar" a Venezuela até uma transição "segura" e prometeu tirar proveito das reservas de petróleo do país.

Trump também quer que empresas petrolíferas norte-americanas invistam bilhões de dólares no país sul-americano, e disse ter negociado a entrega de até 50 milhões de barris de petróleo venezuelanos ao seu país.

A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo bruto do planeta, estimadas em 303 bilhões de barris.

Essa riqueza natural, porém, é considerada, ao mesmo tempo, "a bênção" e "a maldição" da Venezuela. Isso porque o país foi de um símbolo de prosperidade na América Latina nos anos 1970 para palco de uma profunda crise econômica e social, com hiperinflação e escassez de bens básicos, na última década.

Entenda, a seguir, qual foi o papel do petróleo na trajetória venezuelana — e o quanto o "ouro negro" deve ainda influenciar o futuro do país diante da ação americana no 3 de janeiro.

Bonança de petróleo

A história do país tomou novos rumos quando, em 1914, foi descoberto um imenso campo produtivo de petróleo no lago de Maracaibo.

Em 1922, houve um novo achado na região: um poço quatro vezes mais produtivo.

Rapidamente, o país se tornou um dos maiores produtores do mundo, com muitos novos contratos e investimentos estrangeiros.

Pelas seis décadas seguintes, a Venezuela passou a ser a "Arábia Saudita das Américas". Expandiu sua produção de 300 mil barris por dia no final dos anos 1920 para mais de 3,5 milhões de barris por dia em 1970.

O país chegou a ser o mais rico da América do Sul e a ter um Produto Interno Buto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos) per capita maior do que países como França, Itália e Alemanha nos anos 1950, segundo o Maddison Project Database, conceituado banco de dados desenvolvido por um economista britânico para comparar crescimento econômico e níveis de renda a longo prazo.

Trabalhadores em unidade de extração de petróleo na Venezuela em 1950
Trabalhadores em unidade de extração de petróleo na Venezuela em 1950
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Em 1976, o país nacionalizou sua indústria de petróleo e criou a estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A), assumindo controle total de suas reservas.

O dinheiro do petróleo permitiu investimentos sociais, educação mais ampla, salários mais altos e uma imagem de modernidade para a Venezuela.

A renda petrolífera financiava grande parte do orçamento do Estado venezuelano, possibilitando subsidiar bens e serviços.

Entre 1959 e 1983, o desemprego no país se manteve na marca de 10%.

No mesmo período, o crescimento médio do país foi de 4,3% por ano — a inflação também era menor do que a registrada em outros países da América Latina.

Mapa da Venezuela mostra os oleodutos principais e campos petrolíferos do país
Mapa da Venezuela mostra os oleodutos principais e campos petrolíferos do país
Foto: BBC News Brasil

A estabilidade da moeda local, o bolívar, permitia que muitos venezuelanos conseguissem sair do país para temporadas de férias, principalmente com destino a Miami, nos Estados Unidos, vista como um paraíso do consumo.

Nos anos 1970, os venezuelanos tinham o maior poder de compra entre os países América Latina — quase três vezes maior que o dos brasileiros —, segundo um índice da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Esse cenário durou até a década de 1990.

Historiadores e pessoas que vivenciaram esse momento contam muitas anedotas sobre como era viver na Venezuela daquela época.

No país, alguns costumavam dizer que "éramos felizes e não sabíamos". Outra piada da época era a seguinte: "Isso está barato, então me dê dois".

Outras pessoas costumavam se orgulhar em dizer que pagavam mais barato pelo litro de gasolina do que pelo de água.

Edifícios na parte moderna de Caracas em 1970
Edifícios na parte moderna de Caracas em 1970
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Caracas se tornou símbolo de uma elite sofisticada e luxuosa. Na cidade, os prédios eram altos e modernos para a época. As rodovias, largas.

Os hotéis eram considerados um "luxo em um paraíso tropical". E os venezuelanos tinham o título de maiores consumidores de uísque do mundo.

A Venezuela também investiu em cultura, criando importantes teatros, centros culturais, museus e editoras de livros.

Apesar de tudo isso, a desigualdade ainda era grande.

"A desigualdade era muito marcada entre cidade e campo. Os grandes centros urbanos e áreas ao redor dos poços de petróleo se desenvolveram, mas quem ficou no campo empobreceu", explica Carolina Pedroso, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"Apesar disso, as pessoas sentiam que o país estava caminhando, porque se conseguiu aproveitar parte desses petrodólares para investir na infraestrutura."

A queda do modelo

Mas o modelo econômico também criou uma dependência profunda: o país passou a viver quase exclusivamente do petróleo, deixando agricultura, manufatura e setores como indústria praticamente estagnados — um fenômeno econômico conhecido como "doença holandesa".

Esse processo começa sempre com a descoberta ou boom de um recurso natural, que leva à valorização da moeda local, tornando outros setores menos competitivos, causando desindustrialização e dependência excessiva de commodities.

Foi o que aconteceu na Holanda com o gás natural nos anos 1960, por isso o nome.

No caso da Venezuela, a dependência não acontecia apenas porque não havia outras bases produtivas para além do petróleo, mas também porque o país desenvolveu muito pouco a sua indústria petroquímica, se tornando dependente das refinarias estrangeiras, especialmente dos Estados Unidos.

"Esse é um ponto que até hoje é muito problemático, porque o petróleo venezuelano é muito denso, cru e pesado", diz Pedroso.

"Para ele ter realmente valor no mercado internacional, precisa passar por uma série de processos petroquímicos que são custosos", explica a professora da Unifesp.

Quando os preços internacionais do petróleo começaram a cair nos anos 1980, a economia venezuelana sentiu os efeitos rapidamente. Os dólares do petróleo que garantiam a estabilidade econômica e política diminuíram. Com isso, aumentou o descontentamento da população com o governo e com a política tradicional.

Manifestante carregando uma bandeira venezuelana é preso por um membro da Guarda Nacional em 27 de fevereiro de 1989, durante o segundo dia de protestos contra medidas do governo
Manifestante carregando uma bandeira venezuelana é preso por um membro da Guarda Nacional em 27 de fevereiro de 1989, durante o segundo dia de protestos contra medidas do governo
Foto: AFP / BBC News Brasil

O episódio conhecido como "Caracaço" é considerado o estopim dessa crise.

Em 1989, poucos dias após tomar posse para seu segundo mandato, o então presidente Carlos Andrés Pérez anunciou um programa de ajustes para tentar superar a crise.

Entre as medidas propostas estava o aumento da passagem no transporte público, como resultado do ajuste no preço da gasolina.

O anúncio provocou grande revolta e a população saiu em massa às ruas.

Em pouco tempo, o que havia se iniciado como um protesto contra o aumento das passagens se converteu em uma revolta popular.

Em reação, o governo decretou a imposição da lei marcial e a suspensão de uma série de garantias constitucionais e direitos civis. As Forças Armadas também foram mobilizadas e a repressão acabou resultando em um verdadeiro massacre.

O saldo oficial foi de mais de 300 mortos, mas estimativas de organizações independentes apontam até 10 mil vítimas.

O chavismo e o petróleo

Segundo especialistas, o trauma gerado pelo episódio e o descontentamento geral da população com a política tradicional abriu as portas para a eleição de Hugo Chávez.

O tenente-coronel foi responsável por organizar, ao lado de outros militares de baixa patente, uma tentativa de golpe de Estado em 1992. O plano fracassou e os envolvidos acabaram presos.

Mas em 1994, Chávez foi anistiado e, em 1999, chegou ao poder prometendo redistribuir a renda petrolífera e diminuir os níveis de pobreza

Durante seu governo, a desigualdade na Venezuela caiu gradualmente e muitos programas de assistência aos pobres, combate ao analfabetismo e mortalidade infantil foram implementados.

No campo econômico, Chávez estabeleceu o domínio do Estado venezuelano sobre os combustíveis fósseis e um limite para a propriedade privada em atividades para a extração de petróleo e gás.

O país ainda se beneficiou, a partir de 2003, de uma enorme valorização inesperada do preço do petróleo.

Mas a dependência econômica do petróleo persistia.

O hidrocarboneto também teve papel importante no que é visto como um endurecimento do estilo autoritário de Chávez.

Em 2002, ele sofreu uma tentativa de golpe envolvendo vários setores da oposição, após uma greve geral. Membros da direção da PDVSA foram acusados de envolvimento e parte da cúpula foi demitida.

"Houve entre 2002 e 2003 uma defasagem gigantesca em termos de recursos humanos especializados em petróleo. Paralelamente a isso, com o boom petroleiro e com esse ímpeto de resolver rapidamente os problemas sociais, o governo venezuelano não manteve a regularidade de reinvestimento que esse setor necessita, basicamente revertendo toda renda petroleira para a política e não para a própria empresa ou para a estrutura de exploração", explica Carolina Pedroso.

Segundo a professora da Unifesp, a expropriação de algumas empresas, especialmente norte-americanas, também colaborou para defasar o setor petroleiro em termos de investimento e modernização.

Chávez morreu em 2013 e foi sucedido por seu braço-direito, Nicolás Maduro.

Ele herdou os mesmos problemas envolvendo corrupção, inflação e crise econômica, que só se agravaram com o passar do tempo.

Hugo Chávez durante sua campanha em dezembro de 1998
Hugo Chávez durante sua campanha em dezembro de 1998
Foto: AFP / BBC News Brasil

A falta de investimento na infraestrutura petroleira ampliou o sucateamento dos equipamentos. Com isso, a queda na produção nas últimas décadas foi intensa.

Para se ter uma ideia, quando Chávez assumiu o país pela primeira vez, em 1999, a produção era de mais de 3 milhões de barris por dia.

No fim de 2025 estava em menos de 1 milhão por dia, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

A piora na crise

Em 2014, os preços do petróleo despencaram e desencadearam a terrível crise que até hoje assola os venezuelanos. O país perdeu 80% de seu PIB entre 2014 e 2021.

A inflação anual chegou a mais de 800% em 2017 e uma escassez de alimentos atingiu o país. Em meio a tudo isso, Maduro também ampliou seu autoritarismo, com intervenções no Judiciário e perseguição de opositores.

A economia ainda sofreu um importante golpe em 2017, quando os EUA ampliaram suas sanções contra o país.

Hoje mais de 20 milhões de venezuelanos vivem em situação de pobreza multidimensional, sem acesso adequado a bens e serviços essenciais, incluindo alimentos e medicamentos.

Diante da crise humanitária, cerca de 8 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2014.

Refugiados venezuelanos recebem doação de alimentos em Pacaraima, Roraima
Refugiados venezuelanos recebem doação de alimentos em Pacaraima, Roraima
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O economista Diego Sánchez-Ancochea afirma que a dificuldade da Venezuela de sair dessa crise pode ser explicada por três grandes fatores.

"O primeiro fator é a má gestão econômica. O fato de que, quando as coisas iam bem, o governo gastou demais e criou uma série de problemas que se tornaram totalmente insustentáveis quando as condições econômicas se complicaram", explica.

O segundo fator são as sanções, diz Sánchez-Ancochea.

Aquelas impostas pelos EUA, em particular, mas também pela União Europeia, que criaram problemas para o país e dificuldades para arrecadar dólares suficientes para financiar todas as importações necessárias.

"E o terceiro fator são os próprios preços do petróleo. Quando os preços do petróleo caem, também se torna muito mais difícil manter as políticas anteriores."

O especialista afirma ainda que a escassez de dólares para financiar as importações e a emissão monetária excessiva como resposta ao déficit público levaram a um ciclo completo de hiperinflação.

O futuro após a intervenção americana

Também não é difícil perceber o papel do petróleo no cenário atual na Venezuela.

Depois da ação militar que levou à detenção de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores em 3 de janeiro, Donald Trump afirmou que empresas americanas recuperariam a infraestrutura petrolífera da Venezuela e começariam "a gerar dinheiro para o país".

O presidente americano deu seu aval para que Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela enquanto Maduro era presidente, tomasse posse como presidente interina.

Um dia depois, Trump anunciou que a Venezuela "entregará" até 50 milhões de barris de petróleo ao seu país.

Mas segundo analistas, seriam necessárias dezenas de bilhões de dólares e até uma década para que o nível de produção que a Venezuela já teve seja restaurado.

"O discurso do Trump simplifica coisas que são, na verdade, muito complexas", opina Carolina Pedroso.

"A reconstrução de infraestrutura mencionada é necessária e verdadeira, mas diz respeito não apenas à infraestrutura de exploração do petróleo, mas a toda a infraestrutura colateral que é necessária para que a operação do petróleo seja mais eficiente - ou seja, infraestrutura de estradas, de logística e de energia."

Trump afirmou que a indústria petrolífera dos EUA estaria 'em pleno funcionamento' na Venezuela dentro de 18 meses
Trump afirmou que a indústria petrolífera dos EUA estaria 'em pleno funcionamento' na Venezuela dentro de 18 meses
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"É o tipo de investimento que não tem retorno rápido. E mesmo se essa injeção de recursos vier, por exemplo, do capital privado, o retorno também não vai ser rápido", complementa a especialista.

Além disso, ainda não há clareza sobre como o setor vai funcionar daqui para frente.

"É muito difícil prever [o que vai acontecer], porque é muito difícil entender exatamente o que Trump está fazendo e o que ele planeja fazer. É essa falta de planejamento que torna as coisas particularmente complicadas", aponta Diego Sánchez-Ancochea.

Ainda segundo o especialista, tão importante quanto as declarações de Trump sobre o petróleo venezuelano, são as definições sobre o futuro das sanções impostas pelos EUA.

"Se as sanções fossem reduzidas e a Venezuela pudesse voltar a exportar mais petróleo, a situação econômica poderia melhorar. No entanto, se Trump tentar obter o excedente gerado pelo petróleo sem reduzir as sanções, as condições piorariam ainda mais", avalia Sánchez-Ancochea.

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