Como o Brasil pode se tornar protagonista global na corrida dos minerais críticos
Dono da 2ª maior reserva de terras raras, o Brasil está atrasado nessa pauta, mostra estudo da consultoria PwC que aponta as ações necessárias para o País aproveitar sua vocação
Para ser protagonista na produção de minerais e metais críticos, o Brasil tem de acelerar medidas de apoio e regulamentações. Só assim poderá tirar proveito do ciclo de bonança de demanda global que se projeta para os próximos cinco a dez anos. Essa categoria de minerais ganhou evidência no mundo devido a suas aplicações estratégicas na indústria de alta tecnologia e na transição energética. O País está qualificado, pois detém reservas importantes de terras raras, nióbio, lítio e grafite e, em menor peso, níquel e cobre.
Eis a visão de especialistas, como Patrícia Seoane, sócia e líder do setor de Mineração e Siderurgia da PwC no Brasil. "O Brasil está bem atrasado na pauta de minerais críticos", disse em entrevista ao Estadão. Quem também compartilha essa visão é Frederico Bredan, que tem longa vivência na área de mineração e foi nomeado diretor executivo da Associação de Minerais Críticos (AMC).
A entidade, criada em novembro, começou reunindo nove empresas desse segmento no País, a maioria estrangeiras e praticamente todas com projetos em fase pré-operacional no Brasil.
Um fundo para o segmento de minerais críticos e estratégico (Fundo de Investimento em Participações-FIP), no valor de R$ 1 bilhão, foi criado pelo BNDES, com a Vale, no ano passado. É voltado para empresas júnior e de médio porte que atuam na pesquisa, desenvolvimento e implantação de minas de minerais essenciais à transição energética e descarbonização.
O banco aprovou R$ 250 milhões; e a mineradora, o mesmo valor. Duas gestoras foram selecionadas para fazer a captação dos demais R$ 500 milhões e atrair projetos de investidores.
Seoane destaca a definição de uma lista essencial de minerais críticos dentro de uma política pública voltada ao setor. "É chave a determinação de um direcionamento, sob o ponto de vista de uma cadeia produtiva, para avançar além da extração e produção de concentrado". Avalia que tem de atrair investimentos nas etapas de separação e refino, que estão sob o controle da China.
Por exemplo, uma tonelada de minério de lítio (espodumênio) com teor de 6% pode ser exportada por cerca de US$ 800, enquanto o hidróxido de lítio grau bateria pode ultrapassar US$ 8 mil. "A escolha entre exportar minério e exportar inovação define a receita de curto prazo e o posicionamento estratégico", afirma a especialista.
A executiva e sócia da PwC cita o exemplo da Indonésia. Era um mero produtor de níquel. Ao se montar plano estratégico, com atração de investimentos e restrições à exportação de concentrado do metal, tornou-se um participante de peso no mercado mundial. De 2019 a 2024, houve investimentos de US$ 2,3 bilhões e saiu de duas para 60 unidades industriais de processamento do níquel extraído. A Indonésia, atualmente, responde por cerca de dois terços da oferta mundial.
Iniciativas como o fundo do BNDES, de financiamento a baixo custo, a aprovação de um Plano Nacional de Mineração-2050 e regulamentações legais são consideradas essenciais para se ter um setor competitivo, além de segurança jurídica, capacitação de mão de obra, malha logística para escoamento da produção, mapeamento geológico e menor burocracia nos licenciamentos ambientais. "Um plano estratégico é crucial para oferecer maior segurança ao investidor", afirma Seoane.
A nova onda mineral
A demanda global por minerais como lítio, grafita, cobalto, níquel e terras raras deverá crescer de forma acentuada até 2040, diz o estudo da PwC, citando dados da Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês). Para alguns minerais, a previsão é multiplicar-se até quatro vezes em relação aos níveis atuais de consumo.
Para chegar ao protagonismo no mercado de minerais críticos, exige-se mais do que riqueza mineral. Há desafios logísticos, regulatórios e tecnológicos, apontam os especialistas da PWC, além de agregar valor à produção, superando o modelo de exportação primária.
Qual é o papel desses recursos minerais?
De forma sucinta, esses recursos minerais classificados como críticos, estratégicos e raros são associados a suprimento e importância industrial decisiva; uso em aplicações sensíveis à segurança nacional e autonomia tecnológica; e abundância relativa na natureza (os raros). São bens essenciais na transição para uma economia de baixo carbono, que depende de inovação tecnológica, decisões políticas, capital financeiro e recursos minerais, destaca o estudo.
Na transição energética, o lítio é elemento-chave das baterias de íon-lítio, utilizadas em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia estacionária. O cobalto vai nos cátodos das baterias de íon-lítio devido à alta densidade energética e estabilidade térmica, enquanto o cobre está presente na eletrificação, em geral, em razão da alta condutividade elétrica — de motores elétricos à infraestrutura de recarga.
Menos conhecida, a grafita (natural ou sintética) é o principal material para fabricação de ânodos de baterias de íon-lítio. O velho conhecido manganês, presente em pilhas e em ligas de aço, ganhou evidência ao ser empregado em químicas emergentes de baterias de carros elétricos que têm lítio ou níquel-cobalto.
O níquel está em ligas metálicas e, com destaque, em baterias de alta performance para carros elétricos. O vanádio sobressai pelo uso em baterias de longa vida útil para armazenamento estacionário de energia renovável.
As terras raras, mineral alvo de disputa entre as duas grandes potências do mundo, EUA e China, e cobiçado por outras de alta relevância (as europeias) têm quatro dos 17 elementos considerados mais críticos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. São usados na produção de ímãs permanentes, os quais têm aplicações na fabricação de turbinas eólicas, além de equipamentos sensíveis de defesa militar e diversas outras aplicações industriais.
O futuro da mineração será determinado por quem conseguir antecipar as grandes transformações já em curso. Segundo análise da PwC, sete megatendências moldarão o setor até 2035:
- Crescimento populacional e urbanização;
- Transição energética;
- Impactos ambientais e climáticos;
- Tecnologia, inovação e automação;
- Capital humano;
- Acesso a financiamento; e
- Política e regulação governamental.
"As nações industrializadas têm promovido políticas voltadas à independência estratégica de recursos, buscando diversificar fornecedores e fomentar cadeias de valor locais ou regionais com maior valor agregado. É dentro dessa nova lógica que o valor dos minerais críticos migra da lavra para o refino, a transformação e a integração tecnológica", destaca o estudo.
O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) estima que projetos de minerais críticos deverão receber cerca de R$ 100 bilhões de investimentos entre 2025 e 2029 no Brasil. Para a PwC, o País está diante de uma oportunidade rara: ser ao mesmo tempo potência mineral e ator relevante na construção de cadeias industriais de baixo carbono. Porém, conclui, isso exige estratégia, coordenação e ambição industrial.
Nova porta-voz no setor
A AMC, que reúne empresas com investimentos em minerais críticos no Brasil, terá um papel de porta-voz desse segmento, com a experiência técnica de que dispõe, afirma o diretor executivo, Frederico Bredan.
Ele elege três pautas prioritárias: acesso a linhas de financiamento (o BNDES dispõe de linhas, mas empresas em fase pré-operacional não conseguem dar as garantias exigidas); agregar valor na cadeia de produção (uma forma são benefícios fiscais para atrair investimento) e discussão sobre o processo de licenciamento ambiental, envolvendo todas as entidades ( de órgãos estaduais a institutos ligados ao meio ambiente).
A entidade foi formada com empresas em fase de investimento na exploração: em terras raras, Aclara, em Goiás, e Meteoric e Viridis, em Minas Gerais; em lítio (PLS, da Austrália, e Lithium Ionic, do Canadá); em níquel, Atantic Nickel e Centaurus; e em grafite, Grapchcoa e Graph+. A Atlantic Nickel é a única companhia em produção, de níquel sulfetado, e tem um projeto de expansão da capacidade nas suas operações na Bahia.
Na avaliação de Bedran, o cenário internacional para os minerais críticos é positivo. "A demanda é três a quatro vezes o volume ofertado. Em ETR, há uma disputa por suprimento por parte de consumidores", afirma, lembrando que o Ocidente está tentando se posicionar para ser mais protagonista nesse mercado.
O lítio vive um momento de dificuldade no que se refere a preços, com queda superior a 80% desde meados de 2023 devido à entrada de novos ofertantes e à desaceleração na fabricação de carros elétricos.
A AMC previa, em dezembro, a adesão de mais seis empresas à entidade, como a australiana St. George Mining, que tem um projeto para extração de nióbio e terras raras em Araxá (MG).