Com Brasil, ministros das Finanças do G7 tentam superar divergências e salvar unidade do grupo
Em plena crise de confiança entre antigos aliados, os ministros das Finanças do G7 encerram nesta terça-feira (19), em Paris, dois dias de reuniões preparatórias para a cúpula do grupo, sediada na França em 2026. A guerra no Irã e o impacto mundial nos preços do petróleo estão no centro das discussões - na tentativa de evitar que a crise energética se transforme em uma nova crise econômica global.
Lúcia Müzell, da RFI em Paris
Além dos ministros e presidentes de bancos centrais do G7, formado por França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Canadá, Japão e Estados Unidos, quatro países foram convidados a participar, entre eles o Brasil. Além destes, três monarquias do Golfo - os Emirados Árabes Unidos, o Catar e a Arábia Saudita - se juntam para um almoço de trabalho antes do encerramento do evento.
O foco será a crise gerada pela guerra no Oriente Médio e o desbloqueio do estreito de Ormuz, por onde circulam 20% dos hidrocarbonetos exportados para o resto do mundo. Desde o início da ofensiva dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, o trânsito de navios petroleiros na região está praticamente paralisado.
Como consequência, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê um crescimento global menor e uma inflação mais alta em 2026. O temor inflacionário desencadeou uma onda de vendas de títulos do governo nos últimos dias, gerando alta nas taxas de juros da dívida soberana dos países. A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, alertou contra a adoção de "medidas que possam agravar" a inflação.
Desequilíbrios na economia mundial
Para atenuar a alta dos preços do petróleo, Washington suspendeu as sanções ao petróleo russo, aplicadas pelos ocidentais devido à guerra na Ucrânia - uma medida unilateral que desagradou os aliados europeus. "Tivemos discussões extremamente francas entre pessoas que não necessariamente concordam em tudo, mas que são capazes de conversar sobre tudo", disse o ministro francês da Economia, Roland Lescure, ao garantir que, ao final das reuniões, um comunicado comum será publicado.
"Estamos enfrentando grandes desafios: a guerra no Oriente Médio, obviamente, os desequilíbrios multilaterais que agora são insustentáveis, as questões em torno dos elementos de terras raras, materiais críticos e ajuda ao desenvolvimento", havia salientado o ministro francês, na segunda-feira (18).
Em uma coletiva na semana passada, Lescure explicou que o mundo está dividido em três grandes regiões, "cada uma enfrentando seus próprios desafios". "A China, que não consome o suficiente; os Estados Unidos, que consomem demais; e a Europa, que não investe o suficiente. Esses desequilíbrios globais se tornaram um problema comum que deve ser abordado, antes de mais nada, no âmbito do G7", afirmou o anfitrião da reunião, que reconheceu "divergências fundamentais" com os "amigos americanos", em especial sobre o futuro do comércio internacional.
O G7 também vive uma crise existencial: as sete potências fundadoras do "clube dos ricos" hoje representam apenas 30% do PIB mundial, quase metade do que pesavam em 1975, quando o grupo foi criado. O G7 é fruto de uma iniciativa do então presidente francês, Valéry Giscard d'Estaing, após o primeiro grande choque mundial de petróleo.
Investimentos no Brasil
Neste contexto, as potências emergentes têm sido convidadas a participar dos debates, em uma tentativa de dar mais equilíbrio ao grupo - embora a China, a segunda maior economia mundial, continue de fora. Nas reuniões em Bercy, sede do Ministério das Finanças francês, o ministro da Fazenda do Brasil aproveita a ocasião para atrair investimentos estrangeiros ao país, que possui não apenas abundância de petróleo e energias renováveis, como detém as segundas maiores reservas globais de minerais críticos.
"O Brasil é um porto seguro de atração de investimento. Um fórum como o G7 permite fazer esse debate e mostrar como a gente tem melhorado a situação econômica no Brasil do ponto de vista macro, com os números todos que a gente tem apresentado", afirmou Dario Durigan nesta segunda-feira. "O nosso real está estável, a bolsa brasileira, apesar das últimas semanas ter sofrido, como todas no mundo sofreram, é a bolsa que mais tem respondido bem a investimentos, como os ativos brasileiros ainda me parecem parecem interessantes, como estão ainda baratos", explicou.
À margem das reuniões oficiais do G7, Durigan terá três encontros bilaterais, com os ministros do Japão e do Canadá e o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol. A recente aprovação na Câmara dos Deputados do novo marco regulatório de terras raras e minerais críticos no Brasil poderá impulsionar investimentos em um setor estratégico para a economia digital, ao mesmo tempo em que tem o potencial de alavancar a indústria nacional, avalia o ministro. A garantia de acesso a esses minerais é um dos principais assuntos do encontro ministerial em Paris.
"É fundamental dar segurança jurídica, por isso um novo marco que garanta procedimentos céleres e seguros, evitando judicialização, com grande pactuação com o setor", argumentou. "Há um grande interesse nessa área", frisou Durigan.
Com AFP
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