Choque energético acende temor de crise econômica global em 2026
A imprevisibilidade da guerra no Oriente Médio, com impactos globais nas cadeias de energia e suprimentos, acende o alerta para o risco de uma crise econômica em cascata. O petróleo em alta encarece toda a cadeia produtiva, com potencial de gerar inflação e afetar o crescimento econômico em 2026. Os países em desenvolvimento, com menos margem de manobra para reagir a essa espiral, são os mais vulneráveis.
Lúcia Müzell, da RFI em Paris
Os efeitos da alta dos preços do petróleo e do gás se espalham por toda a economia: transportes, indústrias, agricultura. A escalada inflacionária pode estar apenas começando.
"O risco é muito importante. Quanto mais tempo os preços da energia ficam altos, mais temos a hipótese de que, depois, isso se torne uma inflação alta e generalizada", observa Bruno de Moura Fernandes, analista de macroeconomia da seguradora Coface. "Depois, vai obrigar os Bancos Centrais a subir as taxas de juros, o que leva a que tenhamos menos consumo das famílias, menos investimento das empresas, mais insolvências."
O Estreito de Ormuz, por onde circulam cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito, permanece bloqueado desde o início dos ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã, incluindo refinarias e depósitos desses produtos. A reação de Teerã, que passou a bombardear locais estratégicos de produção nos seus vizinhos no Golfo aliados dos norte-americanos, como o Catar, instala na região um clima de insegurança para o tráfego dos navios petroleiros.
"É um país muito mais complexo e com muito mais capacidade de reação do que estava previsto, do ponto de vista estratégico", salienta Silvia Matos, professora de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas, responsável pela elaboração dos Cenários Macroeconômicos do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre). "Estamos tendo um choque de oferta que poderá ser mais duradouro do que se imaginava."
Volta ao normal não será rápida
As infraestruturas de produção e refino estão sendo visadas — o que significa que, independentemente da duração do conflito, levará tempo para as exportações se normalizarem. Nesse contexto, os preços dos combustíveis não param de subir mundo afora, e a tendência é a mesma para produtos essenciais do cotidiano, como o plástico.
Alguns países, como Espanha e Portugal, anunciaram pacotes de subsídios para limitar os impactos. Mas, depois da crise da Covid e em meio à guerra na Ucrânia, a margem fiscal é limitada.
"Alguns, como Bangladesh, um país obviamente mais pobre, estão a dizer às pessoas para não irem ao trabalho, fecharam as universidades. Alguns países vão ter que reduzir a demanda por energia porque não têm condições de comprar, de entrar nesse leilão em que basicamente os países dizem 'eu pago tanto para esse barco de petróleo, para esse barco de gás'", pontua.
Exposição do Brasil
O Brasil, apesar de ser importador de derivados de petróleo, é exportador líquido de petróleo bruto, o que tem permitido ao país atenuar os prejuízos do choque no mercado internacional, inclusive no câmbio. "Em um país produtor de commodities, a nossa taxa de câmbio é chamada commodity currency, porque a moeda também depende do preço do petróleo. Quando você tem aumento de preços, tem uma certa valorização da moeda", salienta Silvia Matos. "É um movimento que ajuda a atenuar o choque sobre o preço internacional, em dólar."
A chave para determinar a extensão da bola de neve que se desenha na economia mundial é a duração do conflito — o que direciona as atenções para o papel dos Estados Unidos na guerra. Moura Fernandes avalia que a aproximação das eleições de meio de mandato no país, em novembro, será determinante para o presidente Donald Trump limitar a atuação norte-americana a, no máximo, dois a três meses.
"Provavelmente vai ter que parar bastante antes das eleições para poder tomar outras decisões e mudar um pouco a dinâmica. Mas sabemos também que ele é imprevisível e, por isso, é muito difícil saber como ele vai pensar", pondera.
Crise mais grave que a de 2008?
O economista norte-americano Richard Bookstaber, famoso por "prever" a crise financeira de 2008, alertou que o mundo pode estar diante de uma crise ainda maior do que aquela. Ele identifica uma confluência negativa de múltiplos fatores: além das guerras, a ampliação da oferta de crédito privado, a alta valorização dos mercados financeiros e a possibilidade de uma bolha da inteligência artificial.
Silvia Matos também vê essa combinação com preocupação. "Os data centers e a inteligência artificial precisam de energia, então a grande preocupação com esse choque adicional é que, como esse setor é muito intensivo em energia, o risco do retorno mais baixo dos investimentos em inteligência artificial tenha maior probabilidade", explica.
"Essa combinação me preocupa bastante. Há um risco, sim, porque estamos em um mundo de juros altos e dívida alta. Fica bem mais complicado ter um choque de energia nesse contexto, em comparação com a crise de 2008", afirma a professora da FGV.