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'China deixou de ser potência de escala para mudar as regras do jogo global', diz Ricardo Geromel

Empresário e palestrante lança livro em que explica como a China está dominando o mundo em IA, agro, energia, saúde e, brevemente, também na cultura

17 ago 2026 - 14h40
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O empresário e palestrante paulista Ricardo Geromel, de 39 anos, tem uma relação antiga com a China. Em 2011, criou no país uma empresa que trazia para o Brasil jogadores e pessoas que queriam se tornar dirigentes de times, para uma espécie de imersão no futebol nacional, com direito a diploma e tudo: "Chinês adora diploma", diz. Mas a empresa acabou não dando certo e foi fechada.

A relação com o país, porém, acabou se tornando uma nova via de atuação. Amigos e investidores com quem mantinha contato começaram a pedir ajuda a ele quando precisavam tomar decisões de exportação, investimentos ou negócios ligados ao mercado chinês. E disso nasceu a FCGI, uma empresa que já levou mais de mil brasileiros, a maioria empresários, para conhecer e entender in loco o que é a China.

Seu primeiro livro sobre o país, "O Poder da China", lançado pela editora Gente em 2019, se propunha a ser um guia para entender o que é a China. "É o mínimo, o básico, o essencial que todos nós deveríamos saber sobre a China. Como cidades como Shenzhen, que em 1990 não tinham nem 30 mil habitantes, que eram um vilarejo de pescadores, hoje são uma megapotência."

Em sua segunda obra sobre a China, "O Novo Poder da China", editado por sua própria empresa, e com lançamento previsto em São Paulo para esta terça-feira, 18, ele vai além e mostra como o país comunista está mudando o jogo mundial em quatro áreas: energia, agronegócio, saúde e inteligência artificial.

"A China começou fazendo imitação barata de tudo, mas essa era do chinês copiador acabou faz bastante tempo. Hoje o PIB per capita na China é quase 40% maior que o PIB per capita no Brasil, passando de US$ 14 mil ao ano. Então, mão de obra barata não é mais com eles. É com o Laos, o Camboja e o Vietnã", dia. "A China fez a maior conquista econômica da humanidade, tirando mais de 800 milhões de pessoas da miséria em 30 anos. E ela passou de uma potência de escala para agora mudar as regras do jogo global."

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

O sr. diz no livro que a China está mudando as regras do jogo mundial em quatro campos: energia, saúde, agro e inteligência artificial. No caso específico da energia, o que está acontecendo lá?

A China consome duas vezes e meia mais energia que os Estados Unidos. E é a maior importadora de petróleo. Desse petróleo, 83% passa por um lugar só, o Estreito de Malaca (entre Indonésia, Tailândia, Malásia e Singapura). E ele só tem 2,9 quilômetros de largura. Ou seja, a China é vulnerável, nesse ponto. Portanto, grande parte do porquê a China ser líder global (em energia) hoje, indiscutivelmente, vem daí: para resolver esse problema que ela tem, de (fornecimento de) energia e de vulnerabilidade. Ela se transformou numa superpotência em transição energética porque precisa. A China é o primeiro "eletroestado" do mundo. Mais de 30% de toda energia consumida na China já é eletrificada. Nos Estados Unidos, isso está em uns 23%. Ela adoraria eletrificar tudo e não mais ser dependente do petróleo, mas é impossível hoje. Então, toda essa revolução que você vê no seu dia a dia, aqui no Brasil, de painéis solares, carros elétricos, baterias, tudo faz parte dessa nova ordem mundial chinesa.

E como eles estão fazendo a revolução na inteligência artificial, que é um setor altamente dependente de energia?

Eu falo com grandes líderes econômicos, de grandes empresas aqui no Brasil e pergunto: e aí, o que está rolando de IA na China? E eles não fazem a mínima ideia, porque sai muito pouco na imprensa, porque eles não têm acesso, porque é longe mesmo. Então eu conto como funciona lá na China. Não existe IA se não tiver energia suficiente e ela consome uma quantidade gigantesca. A China tem grande chance de ganhar a corrida porque ela está na frente em energia. Não só em geração, para suportar a demanda, mas também uma IA que consuma menos energia. O problema é que, se a IA passar a consumir menos energia, tem o tal do paradoxo Jevons: conceito da economia que mostra que, quando uma tecnologia melhora a eficiência no uso de um recurso, o consumo total desse recurso pode subir em vez de cair. Ou seja, acharão outras aplicações para a IA que vão consumir esse ganho de energia. Vão colocar IA em tudo. Um exemplo é porto de Xangai, que trabalha praticamente sozinho: tem IA para tirar o contêiner do caminhão, para colocar no navio, tudo sem ninguém.

Por falar em portos, a China não tem suficiência em alimentos, não é? É aí que entra a revolução no agro que você cita no livro? O que está acontecendo?

Sim, não tem. É aí que entra a parte do agro. Atualmente, nesse campo, a China vive um casamento simbiótico com o Brasil em que o padre foi os Estados Unidos. O Brasil depende da China e a China depende do Brasil: em 2009, a China se tornou a nossa maior parceira comercial. E desde 2009, todos os anos, a cada ano, o Brasil bate recorde de volumes de negócio com a China. De toda a soja que ela compra, 70% sai do Brasil. E ninguém quer ter 70% na mão de um fornecedor só. E se esse fornecedor tiver algum problema? Só que, maior que o Brasil, no agro, só os Estados Unidos. Aí eu converso com o pessoal do agro no Brasil, que vem surfando essa onda chinesa há muito tempo. E eles me falam que não estão preocupados, porque a China é dependente do Brasil. Mas quando chego em Pequim, a turma me fala: "Não somos dependentes, estamos dependentes do Brasil". Então, essa é uma situação muito vulnerável, a do agro no Brasil. Eles estão investindo muito em pesquisa. Isso vai demorar. Mas daqui a dez anos pode ser que o jogo mude também para o agro brasileiro.

E a parte da saúde?

As maiores farmacêuticas do mundo vão ter um penhasco de US$ 300 bilhões em patentes que vão cair até 2030. E os chineses estão prontos para fazer um tsunami de genéricos. Só no ano passado essas grandes farmacêuticas compraram mais de US$ 30 bilhões em moléculas. A China acabou se especializando nessa parte de criar as moléculas. Meu negócio é organizar viagens para brasileiros. Já levei 25 diretores de hospitais brasileiros porque as marcas chinesas já estão vindo para o Brasil. Você vai num hospital hoje, já tem muito equipamento chinês, software chinês sendo usado pelos hospitais e clínicas de diagnóstico. Uma história que eu conto no livro ilustra bem essa dominação. Vinte anos atrás, custava US$ 20 mil para mapear DNA. Hoje, custa só custa US$ 500. Vários laboratórios oferecem esse serviço, até para cachorro. E uma empresa americana, a Illumina, tinha mais de 80% do mercado. Aí veio uma empresa chinesa chamada Beijing Genomics Institute, a BGI, com uma máquina melhor e mais barata e começou a varrer o mercado. Em algum momento no futuro, em vez de US$ 500, o sequenciamento vai custar US$ 50, ou US$ 5, e aí os remédios vão ser personalizados. Não vai ter remédio para enxaqueca igual para todo mundo. Vai existir o remédio certo, para cada pessoa, conforme seu genoma. Aí o que que fez o governo do Biden? Passou uma lei chamada Biosecure Act, que nomeia a BGI especificamente, dizendo que essa empresa chinesa está conhecendo o DNA da população americana e que isso é risco de segurança nacional, que a China pode fazer uma bomba biológica. Mas não é por aí. O governo americano quis proteger a saúde dos americanos ou a saúde financeira da tal Ilumina? Por isso digo que há várias guerras rolando no mundo e uma das maiores é Estados Unidos-China. Não é uma guerra bélica, não tem bomba explodindo ainda - vamos torcer para não ter -, mas é uma guerra comercial, financeira.

Isso vai se tornar uma guerra cultural?

Vai. Tem muita empresa chinesa que não usa nome chinês. Eles não querem ser confundidos com aquela China que era a das imitações baratas. Foi o caso da Shein, de varejo de moda. No começo eles queriam parecer que eram americanos… Mas na China as mudanças são muito velozes. E esse último plano quinquenal do governo (um plano detalhado de investimentos para os próximos cinco anos que o governo faz regularmente) coloca explicitamente, como uma das cinco principais métricas, o soft power, o poder suave da China. Eles eram um país que nunca se preocupou muito em vender o sonho chinês. Mas agora eles querem isso também.

Saiba mais sobre o livro:

O Novo Poder da China

Autor: Ricardo Geromel

Editora: FCGI

Lançamento em São Paulo: 18 de agosto, às 18h30, na Galeria Magalu (Conjunto Nacional - Avenida Paulista, 2073)

Estadão
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