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Brasil entra em período de vulnerabilidade, com baixo crescimento e inflação, dizem Lisboa e Solange

Economistas participaram do segundo debate que discute caminhos para o próximo governo, promovido pelo 'Estadão'

13 ago 2026 - 12h38
(atualizado às 12h51)
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O Brasil corre o risco de entrar nos próximos anos em um período de desaceleração econômica acompanhado de inflação, juros altos e aumento ainda maior das dificuldades fiscais, segundo avaliação do economista Marcos Lisboa, sócio-diretor da Gibraltar Consulting, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e ex-presidente do Insper, e da economista Solange Srour, diretora de Macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management. Para eles, o País não conseguiu resolver problemas estruturais que limitam a produtividade e o crescimento e chega a um possível novo ciclo de crise mais vulnerável a choques externos.

Na avaliação de Lisboa, o Brasil tem ficado para trás em relação às economias desenvolvidas e aos países emergentes. Além de crescer menos, o País tem uma frequência maior de crises e, quando elas ocorrem, os efeitos costumam ser mais severos. Para ele, esse desempenho está relacionado a uma visão de política econômica que remonta às décadas de 1950 a 1970, baseada em estímulos à demanda, proteção do mercado doméstico e subsídios a setores específicos.

O economista afirma que esse modelo contribuiu para sucessivas crises fiscais e de inflação ao longo das últimas décadas. Ele citou os períodos que sucederam os governos Juscelino Kubitschek e João Goulart, a crise provocada pelo governo Ernesto Geisel e, mais recentemente, a recessão associada ao governo Dilma Rousseff. "Ou a gente supera essa visão de economia, ou a gente vai continuar nesse mar de dificuldades", afirmou.

Solange Srour vê pouca possibilidade de uma mudança de trajetória no curto prazo. Para ela, o principal problema é a dificuldade do País em resolver a questão das contas públicas e criar condições para a queda dos juros. "Se não conseguirmos baixar os juro,s não há custo de oportunidade no Brasil."

Segundo ela, a situação fiscal atual é muito preocupante, diante do nível elevado da dívida pública e de uma trajetória de crescimento acelerado dos gastos. O quadro, segundo a economista, já produz efeitos sobre a atividade econômica, com juros altos, inadimplência e elevado comprometimento da renda das famílias.

"Eu acho que o entendimento sobre a questão fiscal ainda é extremamente raso. É profunda a nossa crise, é muito maior do que era há 4, 8 anos, porque hoje a gente está com um nível de dívida extremamente elevado, com uma trajetória de crescimento aceleradíssima e com a economia crescendo."

Para Solange, a consequência é uma desaceleração que já está "contratada". O problema é que a economia pode perder força sem que isso necessariamente permita ao Banco Central reduzir os juros. Caso não haja uma agenda fiscal considerada crível, o aumento das expectativas de inflação e a depreciação do câmbio podem manter a inflação pressionada.

Solange Srour / Marcos Lisboa
Solange Srour / Marcos Lisboa
Foto: Ricardo Borges/Divulgação/Wert / Estadão

Nesse cenário, o consumidor seria atingido de dois lados: pela piora do mercado de trabalho e da atividade econômica e pela inflação. Para Solange, esse segundo efeito é especialmente preocupante porque a inflação funciona como um dos maiores impostos sobre a população.

Subsídios e protecionismo

Outro ponto central, segundo Lisboa, é o que ele chama de "patrimonialismo" da política econômica brasileira. Segundo ele, governos de diferentes orientações políticas mantiveram políticas de benefícios tributários, subsídios e proteção a setores específicos sem comprovação de resultados suficientes em termos de produtividade.

Ele cita como exemplos programas e mecanismos voltados a setores e regiões específicas, como a Zona Franca de Manaus e incentivos regionais. Na avaliação dele, políticas desse tipo permanecem mesmo quando não conseguem entregar o desenvolvimento prometido.

O caminho para o crescimento, afirma Lisboa, tem de ser por meio de investimento em capital humano, pesquisa, tecnologia, inovação e empreendedorismo, acompanhado de instituições que permitam ao setor privado desenvolver novas ideias.

Brasil está vulnerável ao cenário internacional

Os economistas destacam ainda que o momento externo ainda tem ajudado o Brasil, apesar dos problemas domésticos. Solange afirma que preços de commodities favoráveis, melhora da balança comercial e um ambiente cambial relativamente benigno têm funcionado como uma espécie de proteção para a economia brasileira.

Mas tudo isso pode mudar. Uma nova alta da inflação americana, juros mais elevados nos Estados Unidos ou um aumento generalizado da aversão ao risco poderiam acelerar a deterioração da economia brasileira. "A gente não fez o dever de casa para evitar a contaminação de um problema externo. Estamos muito vulneráveis aos choques exógenos, mas depois vão dizer que a culpa é do cenário internacional que virou. Na verdade, a culpa é nossa, que não estamos preparados para um cenário internacional que não seja tão benigno como foi nos últimos três anos."

Lisboa concorda e afirma que o Brasil tem uma característica particularmente problemática: cresce menos que outros emergentes quando o cenário global é positivo e sofre mais quando o ambiente externo piora. Para ele, isso ocorre porque o País não aproveita os períodos favoráveis para corrigir seus desequilíbrios.

Veja os próximos debates:

Instituições e governabilidade

Como melhorar a relação entre os Três Poderes e criar um ambiente institucional que favoreça o crescimento econômico, com mais segurança jurídica e previsibilidade nas decisões.

Quando: 24 de agosto, às 10h.

Participantes: Eduardo Giannetti e Samuel Pessôa

Eficiência e governança

Como o Estado brasileiro pode se tornar mais eficiente e oferecer melhores serviços ao cidadão, e quais os desafios para aprimorar a governança pública e privada.

Quando: 27 de agosto, às 10h.

Participantes: Elena Landau e José Roberto Mendonça de Barros

Estadão
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