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Brasil Adiante: 'Brasil deve liderar a discussão de capital natural', diz Roberto Waack

Cofundador da Coalização Brasil Clima, Florestas e Agricultura conversou com o 'Estadão' depois de participar do evento Brasil Adiante

22 ago 2026 - 10h57
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Resumo
No evento Brasil Adiante, Roberto Waack defendeu que o Brasil lidere a valoração do capital natural, transformando serviços ecossistêmicos em riqueza e políticas públicas. Ele destacou que a Amazônia precisa de infraestrutura e presença estatal para combater o crime organizado. Waack também ressaltou a importância de aplicar o Código Florestal e valorizar as áreas conservadas pelo agronegócio, aliando a produção de commodities à conservação ambiental como motor de desenvolvimento sustentável.

O conceito de "capital natural" é o valor que um produto ou serviço pode adquirir com base na utilização de recursos naturais na sua cadeia de produção. Ou seja, atribuir ao valor final deste bem um preço relacionado ao insumo utilizado, que foi fornecido pela natureza — que é finito e importante para o sucesso das empresas.

E valorizar este capital natural é o que Roberto Waack, cofundador da Coalização Brasil Clima, Florestas e Agricultura, acredita para a Amazônia se tornar também um vetor de desenvolvimento para o Brasil.

Vista aérea da floresta amazônica no município de Parauapebas, no Estado do Pará
Vista aérea da floresta amazônica no município de Parauapebas, no Estado do Pará
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

"Para dar tangibilidade ao que a gente diz quando fala que a natureza é importante, a gente precisa transformar em política pública que permita medir e relacionar essa medição com incentivos fiscais, aporte de recursos de um banco de desenvolvimento, o reconhecimento de municípios, reconhecimento de proprietários que têm isso", diz Waack.

O especialista, que também é presidente do conselho do Instituto Arapyaú, conversou com a reportagem na quarta-feira, 19, depois de participar do Brasil Adiante, evento organizado pelo Estadão que reúne especialistas para debater soluções concretas que podem ser aplicadas ao longo dos próximos dois anos pelo governo eleito em 2026.

Na conversa, ela cita também a importância de levar maior infraestrutura para a Amazônia — saneamento básico, educação e ferrovias —, e como a ausência do Estado e de investimentos na região também favorecem o crescimento do crime organizado e de atividades ilegais como alternativa aos serviços regulares.

"Você tem o garimpo ilegal, a legalização de madeira de origem ilegal e a área de conquista de terras ilegais, esquentando o dinheiro da droga. Essas questões estão totalmente conectadas. E pior: ela está contaminando tremendamente o ambiente político", diz. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Quais medidas práticas o governo deve adotar nos dois primeiros anos de mandato para que a conservação ambiental seja traduzida em geração de riqueza?

Valoração do capital natural. Um país como o Brasil, que tem a riqueza que a gente tem do capital natural, devia liderar essa discussão no mundo. Do que estou falando? Quando eu falo de capital natural, eu estou falando de serviços que a natureza oferece para a humanidade: provimento de água, ar, minérios, biodiversidade.

A relação do capital natural com o clima tem a ver com a emissão de carbono. Então, nós precisamos ter uma regulação muito avançada, muito sofisticada de como a gente mede carbono. O Brasil tem uma capacidade importante de estoque de carbono, mas também de retirada de carbono da atmosfera, mas a gente ainda não está com todas as metodologias reconhecidas de carbono no solo e a relação do carbono com o agronegócio, por exemplo. Então, precisamos avançar na discussão de carbono.

No caso de recursos hídricos, a água provavelmente é o bem mais importante da humanidade. E nós não estamos gerenciando bem os recursos hídricos, nós não estamos reconhecendo o que significam, por exemplo, as chuvas e o quanto elas estão ligadas com a conservação da Amazônia. A ciência já está mostrando esses caminhos, mas a gente precisa de políticas públicas que reconheçam a importância desse serviço ecossistêmico.

No Brasil, 20% da produção de café depende de polinizadores que saem das áreas de conservação. Para dar tangibilidade ao que a gente diz quando fala que a natureza é importante, a gente precisa transformar em política pública que permita medir e relacionar essa medição com incentivos fiscais, aporte de recursos de um banco de desenvolvimento, o reconhecimento de municípios, reconhecimento de proprietários que têm isso.

Então, é um processo de dar tangibilidade ao capital natural e aí ele virar política pública que vire reconhecimento econômico do capital natural.

Quais são os principais entraves que impedem o País de dar maior valor a esse capital natural?

Não é uma coisa fácil. O capital, principalmente o capital natural no Brasil — ainda bem — é extremamente biodiverso, a gente tem vários sistemas de produção. O que a gente não teve ainda é a necessária dedicação para essa caracterização. Ele é complexo, e, por ser complexo, a gente já se afasta um pouco.

Tem uma coisa revolucionária acontecendo, que é a inteligência artificial e data management. Eu costumo dizer que a inteligência artificial e a gestão de dados vão nos aproximar da natureza como nenhum outro instrumento. Pode parecer uma contradição, porque a gente vai usar algo artificial para nos aproximar da natureza. Nós estamos cercados de expressões da natureza: no que a gente come, no que a gente veste, nas madeiras, enfim.

Mas a gente não tem ainda uma relação de como aqueles produtos foram originados a partir de um gene, por exemplo. E a inteligência artificial, data management, o que se chama de sequenciamento gênico, etc., está nos aproximando do que é a natureza, como ela funciona e como a gente pode interagir melhor com ela.

Roberto Waack durante participação no evento Brasil Adiante.
Roberto Waack durante participação no evento Brasil Adiante.
Foto: Felipe Rau/Estadão / Estadão

Então acho que são avanços tanto no campo de políticas públicas que considerem a complexidade, mas também avanços na ciência. E aí o Brasil precisa avançar demais. A gente está muito aquém da revolução que está acontecendo nessa área.

Durante o painel, o sr. bateu muito na tecla sobre a necessidade de levar mais infraestrutura para a Amazônia. Quais são as maiores demandas por lá?

Lá, 30% dos domicílios têm tratamento de esgoto. Não é possível que a gente tenha acesso ao saneamento com uma porcentagem como essa. Todas as vias de acesso são extremamente complicadas. A gente tem um potencial de recursos, dos rios, no transporte fluvial, ferrovias... A gente não está levando a sério o quanto as ferrovias podem ser economizadoras de custos, que têm um impacto na redução de emissões de carbono.

Mas é uma discussão difusa. O que acontece no fim é que as populações da Amazônia ficam isoladas, com acessos a sistemas de transporte extremamente precários, caros. A Amazônia gera 35% da energia do Brasil, mas, desse total, 8% ficam na Amazônia.

Essas contradições precisam ser resolvidas: investimento em hospitais, investimento em escolas, investimento em mobilidade. Tudo é muito abaixo do que é a média brasileira. Nós estamos falando de 15% da população brasileira, 8% do PIB, 4% do investimento em ciência e tecnologia. Essa equação precisa ser mudada, porque lá tem o capital natural, que é considerado um dos mais importantes do mundo.

Na hora em que a gente fala de benefícios para a população local, a gente também tá endereçando o crescimento da criminalidade. Porque, de certa maneira, a criminalidade vai ocupando espaços em que o Estado não está presente, e começam a oferecer, por exemplo, internet, as milícias, etc. Então, claro que a gente tem de combater o crime, mas o combate ao crime está associado a oferecer às populações locais melhores condições de vida, de uma maneira geral.

Combater o crime organizado na Amazônia também é uma política ambiental?

"Com certeza. Grande parte do que acontece na relação droga, ouro, madeira e terra é praticamente um combo. Você tem o garimpo ilegal, a legalização de madeira de origem ilegal e a área de conquista de terras ilegais esquentando o dinheiro da droga. Essas questões estão totalmente conectadas. E pior: ela está contaminando tremendamente o ambiente político.

Então, a gente tem essa combinação de diversos crimes com o ambiente político, de certa maneira, por conta da ausência do Estado. Informação é fundamental, inteligência (policial). A gente tem os instrumentos para isso, mas precisa de uma vontade política muito forte e uma combinação das ações do Governo Federal com as ações dos Estados."

Qual atividade econômica legal poderia efetivamente competir com a renda oferecida pelas atividades criminosas?

A competição com a ilegalidade já começa desfavorecida por um custo logístico muito alto. A gente também tem uma situação de capacitação de mão de obra, etc. Então, tem uma questão difícil de produtividade.

E tem algo muito importante que é: qual a relação das atividades produtivas tradicionais, por exemplo, a mineração, o agronegócio, com a conservação? O Brasil tem o Código Florestal. Se ele for adequadamente aplicado, qualquer atividade agropecuária tem de ter 80% de conservação, mas isso acaba sendo um passivo, porque não há o reconhecimento do valor dos serviços ecossistêmicos.

Então, para que a competição com a droga, por exemplo, se equilibre, é preciso reconhecer o valor desse capital natural que está associado à produção do agro em uma parte do território, não em todo o território. A mesma coisa quando a gente fala da mineração: a mineração tem um papel importante em conservação de grandes áreas. Esse capital natural que está associado à produção de commodities e precisa ser reconhecido.

Aí a gente começa a compor: reduz o custo logístico, melhora a produtividade, reconhece o papel dos serviços ecossistêmicos. Quando a gente junta essas coisas com a produção das commodities ou de outros bens, aí essa equação começa a ficar um pouco mais equilibrada.

O sr. já comentou que o Brasil é o único país no mundo onde é possível a construção de uma agenda de desmatamento ilegal zero a partir da relação com o agronegócio, produtores rurais preocupados com o desmatamento e com as florestas. O sr. poderia nos explicar melhor como essa relação pode ser construída e de que forma ela pode trazer impactos positivos para o desenvolvimento?

O Código Florestal é uma preciosidade. Nenhum país do mundo tem uma legislação tão sofisticada que reconheça a importância do uso da terra, que associe a conservação com produção. Ele tem uma dificuldade, que é a implementação. A gente tem de validar as informações que estão vindo do campo. E isso depende de uma política pública, obviamente, de enforcement da lei.

Mais ou menos 200 milhões de hectares de conservação — o Brasil tem mais ou menos 500 hectares — estão na mão do setor privado, do agronegócio. Esse agronegócio é obrigado a cumprir essa lei e tem esses 200 milhões de hectares como um passivo, mas não tem nenhum reconhecimento por isso. E aí volta essa discussão para dar valoração aos serviços ecossistêmicos.

Por exemplo, uma propriedade ou uma pequena propriedade que tem nascentes do lado de um município é responsável pelo suprimento de água daquele município. Essa equação precisa ser melhor tratada, né? Se você tem estradas, rodovias que estão margeadas por áreas florestadas, elas têm muito mais resiliência a grandes intempéries do que uma área totalmente devastada.

Então, quando essas equações começarem a aparecer, a gente também começa a conectar a nossa produção de commodities com a produção de commodities que tem mais relação com o capital natural. Ela tem mais conservação de carbono, mais conservação de biodiversidade.

O Brasil é um dos maiores supridores de segurança alimentar do mundo. Essa segurança alimentar que o Brasil oferece, se não tiver desmatamento, tem uma equação única do ponto de vista da relação com as mudanças climáticas, relação com a agenda da biodiversidade, redução de desertificação, aumento de resiliência e adaptação às mudanças climáticas.

Isso precisa ser mais visível, reconhecido, exposto para o mundo, dizendo, 'sim, nós temos uma produção de alimentos e de energia como nenhum outro país. Somos essa potência, mas, além disso, a gente também é uma potência de associar essa produção ao capital natural e ao valor do capital natural'.

E aí o setor privado, detentor dessas áreas por conta do Código Florestal, é um dos principais interessados em que isso aconteça. Ele também detém um poder político muito grande. A bancada do agro, os institutos que operam, poderiam estar muito mais ativos no reconhecimento desse valor. Acho que a gente precisa arrumar um pouquinho e avançar nessa equação.

Estadão
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