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Dólar sobe 0,65% com chance de retirada de estímulos nos EUA e cenário fiscal incerto

Mercado ainda digere o anúncio feito pelo presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, sobre um aperto do programa de compra de ativos já em novembro; Bolsa teve alta de 0,27%

27 set 2021 14h58
| atualizado às 18h27
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O dia foi pouco favorável para os ativos locais nesta segunda-feira, 27, diante do cenário desafiador no exterior, com chance de retirada dos estímulos nos Estados Unidos e a crise de solvência da Evergrande. O cenário local também não é muito favorável, com impasse em torno da PEC dos Precatórios e do Imposto de Renda. No câmbio, o dólar subiu 0,65%, a R$ 5,3788 - no maior valor desde 23 de agosto. Já a Bolsa brasileira (B3) teve ganho contido, em alta de 0,27%, aos 113.583,01 pontos.

Afora uma queda expressiva na primeira hora do pregão, em resposta ao leilão extra de swap cambial (relacionado à venda de dólares no mercado futuro) do Banco Central, o dólar trabalhou em alta durante toda a sessão. Na máxima do dia, a moeda bateu em R$ 5,3883, alta de 0,83%. Em setembro, a moeda americana já acumula valorização de 4%.

A moeda tem sido pressionada desde a última quarta-feira, quando o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, abordou que a redução do programa de compra de ativos, chamado de 'tapering', poderá ser feita em novembro, se os dados do mercado de trabalho americano de setembro vierem fortes. Ele também disse que a alta da taxa de juros pode começar já no ano que vem. O tom do comunicado foi visto como 'duro' por operadores de câmbio.

A retirada de estímulos deixa a renda fixa americana mais interessante, e consequentemente valoriza o dólar, o que prejudica as Bolsas e as moedas de mercados emergentes. No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - operava em alta de quase 0,40%, na casa dos 93,387 pontos.

Entre as moedas emergentes, o dólar subia 0,20% em relação ao peso mexicano e trabalhava ao estabilidade na comparação com o rand sul-africano, ambos considerados pares do real. A moeda americana recuava em relação à lira turca (que se depreciou bastante na semana passada) e ao rublo.

Anunciada na sexta-feira, após o fechamento do mercado, a oferta extraordinária de swap cambial agradou o mercado, já que pode ajudar a conter a volatilidade e suavizar a trajetória da taxa de câmbio. Mais do que o instrumento escolhido e o volume ofertado (US$ 700 milhões por leilão, sempre as segundas e quartas), chamou a atenção do mercado.

Na avaliação do gerente da mesa de derivativos financeiros da Commcor DTVM, Cleber Alessie, uma das hipóteses para esse adiantamento seria o desejo do BC de tentar arrefecer a alta do dólar e, por tabela, amenizar as pressões inflacionárias. "O que vimos neste primeiro dia de oferta adicional foi que o efeito sobre a taxa de câmbio durou muito pouco. Precisamos ver se essa atuação vai conseguir realmente suavizar as pressões sobre o dólar", afirma Alessie, para quem a moeda brasileira deveria estar mais perto de R$ 5,10 por conta do movimento de aperto monetário, mas acaba sofrendo com as questões políticas e fiscais domésticas.

Para o economista chefe da Integral Group, Daniel Miraglia, o mercado já esperava que o BC atuasse para atenuar tanto a volatilidade quanto uma depreciação maior do real, que pode respingar na inflação. Para ele o câmbio nominal, dado o efeito da inflação passada, mudou de patamar e dificilmente ficará abaixo de R$ 5.

Miraglia chama a atenção para o ambiente externo desafiador, com a questão da energia na China e na Europa e as pressões inflacionárias disseminadas, em meio à disrupção das cadeias produtivas por conta da covid-19. "Isso afeta muito a dinâmica do nosso câmbio. Além disso, os nossos desafios internos continuam, com a questão dos precatórios e do orçamento", afirma.

Por aqui, o relator da reforma do IR no Senado, Angelo Coronel (PSD-BA), afirmou - após reunião com o ministro da Economia, Paulo Guedes - que seria irresponsabilidade apresentar um relatório com rapidez e que é inaceitável que estados e municípios percam receita. Taxação de lucros e dividendos e a extinção dos Juros sobre Capital Próprio, disse Coronel, são os "pontos mais sensíveis". O governo conta com a reforma do IR e a aprovação da PEC dos precatórios para bancar o Auxílio Brasil no ano que vem.

Além disso, a perspectiva para Brasil segue pressionada pelas revisões, em baixa, para o PIB, e o mercado mantém a percepção de que o governo tenta "comprar popularidade" para o desafio eleitoral do ano que vem, em soluções como a dos precatórios, o que deixa o desempenho do fiscal sob escrutínio. "É preciso ver até onde irão essas revisões do PIB, quando se estabilizarão", diz Roberto Attuch, CEO da Ohmresearch.

"Os destaques do Focus nesta semana tiveram a ver com inflação e PIB, principalmente. A inflação já vem sendo revisada há algum tempo pra cima, tanto pra este ano como para o ano que vem, com IPCA a 8,45% para 2021 e de 4,12% para 2022, na visão do mercado. E o PIB continua a ser revisado para baixo, com recuperação lenta e gradual da economia - nesta leitura do Focus, estável para 2021, a 5,04%, mas para 2022 constantemente revisado para baixo, agora a 1,57%", diz Cristiane Quartaroli, economista do banco Ourinvest.

"O mercado continua apostando no aumento das expectativas de inflação: foi o 25º aumento consecutivo para o ano, no Focus desta semana. Ainda há muita pressão dos combustíveis e da energia elétrica, e isso acaba contaminando outros setores também, causando esse aumento constante de projeções", diz Bruno Mansur, especialista da Valor Investimentos.

Bolsa

O dia foi particularmente positivo para a Petrobras, cujo com ON e PN em altas de 1,56% e 0,89% cada. O aceno do presidente da estatal, Joaquim Silva e Luna, de que não há mudança em curso na política de preços da empresa, somado ao bom desempenho do barril do Brent, que superou os US$ 79 por barril pela primeira vez desde 2018. No final da sessão, ele avançou 1,93%, a US$ 78,72.

O bom desempenho da petroleira, somado ao avanço das ações da Vale, em alta de 1,43%, em sintonia com o bom desempenho do minério de ferro no exterior, e com os ganhos do setor bancário, em alta de até 3,78% para Santander, ajudaram o Ibovespa a se manter em alta, após um pregão de oscilação. No mês, o índice cede agora 4,38%, colocando as perdas do ano a 4,57%.

Na ponta negativa do Ibovespa nesta segunda-feira, destaque para Méliuz, em queda de 5,18%, à frente de Via, de 4,71% e de Magazine Luiza, de 3,97%. Na face oposta, Marfrig, subiu 7,15%, BRF, 7,00% e PetroRio, 5,09%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

Estadão
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