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Bets estão tirando dinheiro do consumo e dos shoppings, diz associação

Sites de aposta movimentam em torno de R$ 30 bilhões por ano, volume relevante que afeta as compras, segundo Glauco Humai, presidente de entidade que representa o setor

4 fev 2026 - 15h43
(atualizado às 15h46)
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A consolidação dos sites de aposta, as chamadas bets, afetou o comércio no Brasil, na visão do presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), Glauco Humai. "As bets estão tirando, sim, dinheiro do consumo e dos shoppings" afirmou, em entrevista à imprensa.

As bets movimentam em torno de R$ 30 bilhões por ano, um volume de recursos relevante, na visão do presidente da associação de shoppings. "As pessoas que estão com pouco dinheiro, muito endividadas e ainda jogando nas bets têm mais dificuldade para comprar", assinalou.

Outro fator de concorrência para os shoppings é o avanço do comércio eletrônico, cujas entregas estão mais rápidas e com cobertura em mais localidades do País. "Antes as pessoas pegavam o carro para ir ao shopping, mas hoje podem comprar certos itens pela internet", admitiu.

Faturamento dos shoppings centers no Brasil no ano passado totalizou R$ 200,9 bilhões
Faturamento dos shoppings centers no Brasil no ano passado totalizou R$ 200,9 bilhões
Foto: JF Diorio/Estadão / Estadão

Por outro lado, os shoppings se aperfeiçoaram, indo além das compras, e reunindo também opções de lazer, alimentação, serviços e lazer. Operações como academias, clínicas médicas, centros de estética, por exemplo, estão mais comuns. O tempo médio de permanência dos visitantes nos shoppings subiu para 80 minutos, um recorde. A média dos últimos anos estava próxima de 73 minutos, enquanto na pandemia ficou abaixo de 30 minutos.

Em meio a esse conjunto de fatores, Humai disse que o crescimento de 1,2% das vendas em 2025 foi positivo. "O crescimento poderia ter sido maior que 1,2%, mas o ano foi confuso. O juro foi muito alto no ano passado, pode ter tirado um pouco do afã dos lojistas em crescer. Mas contamos com o aumento do emprego e da massa salarial, o que ajudou as vendas."

O presidente da Abrasce notou ainda que os 81 shoppings inaugurados desde 2020 — quando atravessaram a pandemia — ainda estão em fase de amadurecimento, com atração de consumidores e lojas. Portanto, com vendas abaixo do potencial. "Isso puxa a média de vendas do setor para baixo, mas tende a mudar quando eles amadurecerem".

Faturamento de 2025

O faturamento dos shoppings centers no Brasil no ano passado totalizou R$ 200,9 bilhões. O crescimento de 1,2% ficou um pouco abaixo do inicialmente previsto para este ano, que era de 1,6%. O dado também foi inferior ao resultado de 2024, ano em que houve elevação de 1,9% nas vendas do setor. Ainda assim, o volume de vendas dos shoppings em 2025 foi o maior já registrado.

Os dados foram divulgados nesta quarta-feira, 4, pela Abrasce e são nominais, isto é, não descontam a inflação.

Humai considerou o desempenho de 2025 positivo. "As vendas ficaram muito próximas do que esperávamos para este ano. O crescimento de 1,6% foi importante, ainda mais se comparado com outros setores, como a indústria, com resultados abaixo. Então, estamos satisfeitos", afirmou.

A taxa de ocupação média dos shoppings foi de 95,4%, um nível saudável e baixo, avaliou Humai, que vê uma boa demanda de lojistas por espaços nos centros de compra. "O que temos hoje é uma vacância técnica. Se o shopping estiver 100% ocupado, não cabem novas lojas, nem chegadas de marcas", ponderou.

O setor encerrou o ano de 2025 com 658 shoppings em atividade, distribuídos por 253 cidades no Brasil. No último ano ocorreram dez inaugurações. A área bruta locável (ABL) dos shoppings aumentou 0,9% no mesmo período, chegando a 18,3 milhões de metros quadrados. Para este ano, estão previstas 11 inaugurações, segundo a Abrasce.

O número total de lojas no setor aumentou 1,2%, totalizando 124,7 mil em 2025. A taxa de inadimplência dos lojistas foi a 4,3%, a menor da história, segundo a Abrasce, o que mostra uma situação saudável dos comerciantes, na visão de Humai. A quantidade de pessoas empregadas no setor subiu 0,9% no ano, resultando em 1,082 milhões de empregados.

Por sua vez, o fluxo de visitantes mensais nos shoppings apresentou um recuo de 1% em 2025, atingindo 471 milhões de visitantes. O tempo médio de permanência dos visitantes nos shoppings subiu para 80 minutos, um recorde. A média dos últimos anos estava próxima de 73 minutos, enquanto na pandemia ficou abaixo de 30 minutos. E o valor médio gasto pelos consumidores cresceu de R$ 121 em 2024 para R$ 126 em 2025, alta de 4%.

A explicação para isso tem relação com o fato de que os shoppings se tornaram um point de compras, alimentação, lazer, serviços (academia, clínicas, estética etc) e um maior número de eventos, segundo Humai.

Expectativa para 2026

O faturamento dos shoppings em 2026 deve aumentar 1,4%, atingindo R$ 203,7 bilhões, de acordo com projeção da Abrasce. "Estamos animados, confiantes, mas com cautela para 2026", comentou Humai.

Pelo lado positivo, ele citou o cenário macroeconômico, marcado pela geração de empregos, aumento da massa salarial e, principalmente, pela tendência de queda dos juros — o que tende a impulsionar o consumo nos shoppings e os investimentos em novas lojas.

O presidente da Abrasce afirmou ainda que o setor tende a se beneficiar do aumento da isenção do imposto de renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil, o que acaba de entrar em vigor. "Isso vai gerar uma sobra de bilhões de reais no orçamento das famílias, e uma parte disso deve ir para o varejo", estimou o presidente da Abrasce.

Neste ano, a Copa do Mundo também deve contribuir positivamente, incentivando as vendas de materiais esportivos e eletrônicos, como televisão. O horário dos jogos — que serão no começo da noite — também deve ajudar. "As pessoas saem do trabalho e podem ir ver o jogo nos shoppings, ficando ali depois. Se fosse no meio da manhã ou da tarde isso seria mais difícil", comentou.

Segundo o presidente da Abrasce, os pontos que exigem cautela são o cenário eleitoral no Brasil e os conflitos internacionais. "O rumo das eleições provoca muita instabilidade e dúvida por aqui. E no cenário internacional, os EUA estão colocando pressão em muitos países. Tem muita bravata, mas de todo modo, isso causa muita insegurança entre investidores, cadeias produtivas e empresas", disse Humai.

Estadão
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