Automobilísticas europeias miram modelo de produção chinês
Pressionadas pela hipercompetitividade da China, marcas como Renault remodelam desenvolvimento, custos e prazos. Novo Twingo elétrico combina o uso de centros chineses, produção europeia e prazos menores.Montadoras na Europa e em outros polos automotivos no mundo têm buscado, cada vez mais, seguir um modelo de produção chinês. O mais recente lançamento da francesa Renault, o novo Twingo, é um exemplo claro desse movimento.
O automóvel 100% elétrico foi concebido em diferentes continentes, um processo que veio em resposta à hipercompetitividade do setor imposta pela China. É lá que muitas montadoras tradicionais estão desenvolvendo novos modelos com foco em velocidade, custo e tecnologia.
O carro está em produção na Eslovênia e começa a chegar às concessionárias europeias em abril, com preço pouco abaixo de 20 mil euros (cerca de R$ 116 mil). Ainda não há previsão de venda no Brasil.
"A verdadeira concorrência não é China versus Ocidente, mas sistemas rápidos versus sistemas lentos", afirmou Bill Russo, ex-executivo da Chrysler e analista do setor automotivo.
"Se você quer entender para onde o futuro da indústria automobilística está indo, precisa entender como a China constrói esse tipo de produto", disse Russo à DW.
Montadoras vão à China
Fabricantes ocidentais e japoneses como Tesla, Volkswagen e GM produzem há muito tempo na China tanto para o mercado doméstico quanto para exportação.
Mais recentemente, muitas ampliaram sua presença para além da manufatura, passando a projetar e desenvolver modelos inteiros no país, na tentativa de se beneficiar da concentração de fornecedores de veículos elétricos, da expertise local e de uma ampla base de consumidores.
Renault e Mercedes inauguraram centros de pesquisa ampliados em Xangai em 2024. A Volkswagen expandiu seu centro de pesquisa e desenvolvimento na província de Anhui em 2025, mesmo ano em que a Toyota transferiu todo o desenvolvimento de novos carros para consumidores da China para dentro do país.
"A China se tornou, como disse um fornecedor, a academia do mundo em termos da indústria automobilística", afirmou Alexandre Marian, consultor da AlixPartners.
Ainda assim, enquanto competem com rivais chineses no exterior, as montadoras tradicionais enfrentam pressão para reduzir custos e acelerar o desenvolvimento de produtos em todos os mercados — inclusive em seus países de origem.
Os ciclos de desenvolvimento de novos veículos giram em torno de dois anos na China, menos da metade do tempo necessário para as montadoras tradicionais. Segundo Russo e outros especialistas, as empresas chinesas recorrem mais à automação, conduzem etapas em paralelo, são mais coordenadas com fornecedores e mantêm designs mais simples.
Para Russo, os prazos menores são um subproduto da virada da indústria para um foco prioritário em tecnologia.
Atualizando modelos
A Renault deixou de vender sua marca no mercado chinês em 2020. Mas uma visita ao Salão do Automóvel de Xangai, em 2023, convenceu executivos da empresa de que era hora de desenvolver algo dentro da China.
"A questão era entender como acelerar nosso processo de desenvolvimento", disse Oliver Laik, chefe do segmento de carros compactos de entrada da empresa.
A unidade de desenvolvimento da Renault em Xangai, conhecida como Centro ACDC, permitiu à empresa se aproximar do ecossistema chinês e entender como ele funciona.
O Twingo original estreou em 1992, no Salão do Automóvel de Paris, onde rapidamente ganhou o apelido de "Le Frog" ("O Sapo") devido à dianteira compacta e aos faróis redondos.
Atualizá-lo como um veículo elétrico inicialmente parecia menos atraente para a Renault, segundo Laik. Carros menores têm margens de lucro mais baixas na Europa devido aos elevados custos fixos, e aumentar o preço poderia empurrar consumidores para veículos usados ou outros modelos.
Mas produzi-lo na China — algo que rapidamente recebeu apoio da cúpula da empresa — reduziria custos e preservaria um preço atrativo na Europa.
Menos participação de fornecedores, mais reuniões
Um ciclo normal de desenvolvimento para um novo Twingo teria levado cerca de 42 meses, estima Laik.
Grande parte desse tempo é dedicada à validação do veículo, um período de testes que se estende por diferentes estações do ano e inclui exposições a diversas altitudes, além de condições severas de direção e corrosão.
Em vez de concentrar uma longa fase de desenvolvimento após a validação, engenheiros do Centro ACDC trabalharam de forma paralela, o que permitiu resolver problemas de maneira pontual.
A Renault também alterou sua relação com fornecedores para um modelo conhecido como "build to plan" (algo como "produção planejada").
Em vez de pedir contribuições dos fornecedores, a Renault passou a projetar as peças e enviar especificações exatas aos fabricantes, economizando tempo e custos. Em alguns casos, a própria empresa montou componentes de fornecedores, incluindo os bancos.
De volta à França, os designers de produto também trabalharam em um ritmo mais apertado, diz Laik. A equipe fez reuniões mais frequentes, e vice-presidentes da empresa passaram a receber atualizações semanais.
Que lições ficam?
A Renault estima que o uso do seu Centro ACDC na China reduziu os custos em 40% em comparação com um processo de desenvolvimento tradicional.
A empresa planeja produzir mais dois modelos nos próximos meses, um para sua subsidiária Dacia e outro para a parceira Nissan. Também pretende reduzir ainda mais o tempo de desenvolvimento.
Modelos futuros passarão a incorporar peças chinesas, segundo Laik. Até mesmo os faróis dianteiros do Twingo vieram de um fornecedor chinês, uma vez que fornecedores franceses e europeus não conseguiram atender aos requisitos da Renault.
Permanece a dúvida sobre se as montadoras conseguem replicar em seus mercados domésticos o que chamam de "velocidade chinesa".
Estruturas hierárquicas, IA e software
As montadoras tradicionais ainda podem avançar em outras áreas, acredita Alexandre Marian, incluindo um uso mais eficiente da inteligência artificial e o abandono de estruturas hierárquicas que prolongam os prazos.
Os engenheiros europeus são muito qualificados e tecnicamente avançados, afirma Marian.
"Eles desenvolveram muito conhecimento, muita experiência, e criaram carros realmente bons", disse Marian à DW. "O ponto é que eles precisam mudar, mas, ao mudar, também precisam se empoderar."
Para Bill Russo, a importância da adaptação vai além dos veículos elétricos e alcança a direção autônoma e o software.
"Aqui é uma panela de pressão", afirmou Russo. "Se você não for rápido, vai perder a oportunidade."
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