Script = https://s1.trrsf.com/update-1765905308/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

'Ações sustentáveis só existem se fizerem sentido econômico', diz CEO da Prumo Logística

Rogério Zampronha afirma que o desempenho do Porto do Açu surpreendeu pela velocidade dos resultados já obtidos

27 mai 2025 - 11h11
(atualizado em 27/5/2025 às 11h25)
Compartilhar
Exibir comentários

À frente da Prumo Logística, holding que administra o Porto do Açu, no norte fluminense, e outras empresas, Rogério Zampronha, CEO do grupo, está empolgado com os resultados obtidos com o projeto. Boa parte deles, afirma o executivo, estão alicerçados em pilares focados na sustentabilidade.

Com dez anos, o Porto do Açu, hoje, no Brasil, só perde para o Porto de Santos em termos de movimentação. O empreendimento perto da divisa do Rio com o Espírito Santo foi idealizado pelo empresário Eike Batista, em 2007, por meio do Grupo EBX. A Prumo, por meio da EIG Global Energy Partners, abraçou a ideia em 2014, após o colapso do grupo liderado por Eike.

O Porto do Açu, perto da divisa do Rio com o Espírito Santo
O Porto do Açu, perto da divisa do Rio com o Espírito Santo
Foto: Wanezza Soares/Estadão Blue Studio / Estadão

A seguir, os principais trechos da entrevista com Zampronha.

A sustentabilidade está no centro da estratégia da Prumo Logística? O que isso significa na prática?

A sustentabilidade é central à nossa estratégia, não é algo acidental. E isso acontece por diversas razões. Trabalhamos com três pilares principais: a geração de negócios sustentáveis no nosso ecossistema, a redução da nossa própria pegada de carbono e o uso da sustentabilidade como vetor de desenvolvimento econômico e social principalmente na região onde atuamos.

O primeiro pilar mencionado por você é a geração de negócios sustentáveis. Como isso se concretiza no Porto do Açu?

Criamos o primeiro hub de produção de hidrogênio de baixo carbono da América Latina. É um espaço de um milhão de metros quadrados licenciado para a produção de produtos de baixo carbono. Quando começamos, a ideia é que levaríamos quatro ou cinco anos para atrair empresas, mas no primeiro ano esgotamos toda a área disponível com acordos firmados com empresas estrangeiras - como a Fuella, da Noruega, a Yamna, da Inglaterra, a HIF Global, americana com base no Chile, e a Sempen, outra multinacional. Elas produzem ali amônia verde, hidrogênio, e-gasolina e outros produtos.

Qual é a razão desse sucesso?

Temos uma vantagem natural. O porto tem 130 quilômetros quadrados - o equivalente a uma Manhattan e meia. Temos mais de sete quilômetros de cais e uma imensa área retroportuária para instalação industrial. E o Brasil tem grandes virtudes: regimes de vento, insolação, abundância de água e biomassa. Isso nos posiciona como líderes na produção de combustíveis limpos, como biocombustíveis e hidrogênio verde. Esses combustíveis são utilizados na descarbonização do setor marítimo, na indústria e também para exportação.

Há também uma conexão direta com o mercado nacional ou todo o ecossistema é voltado para a exportação?

Sim, também estamos voltados para o mercado brasileiro. Por exemplo, a amônia verde é insumo para fertilizantes - e o Brasil importa mais de 90% do que consome. O metanol verde, que também será produzido no hub, é um substituto do diesel marítimo e um componente da cadeia dos biocombustíveis. O Brasil importa praticamente todo o metanol que usa. Com o sucesso do primeiro hub, já começamos o licenciamento de mais 2,5 milhões de metros quadrados para expansão.

Quais outras iniciativas sustentáveis vocês estão desenvolvendo no porto?

Temos vários acordos, como com a Repsol, da Espanha, para estudos de captura e armazenamento de carbono (CCS). Trabalhamos também com gás natural. A Gás Natural Açu, empresa do nosso grupo, opera o maior complexo térmico a gás natural do Brasil - com 3 gigawatts. O gás é importante na transição energética. Desenvolvemos esse ecossistema com foco em excelência, segurança e responsabilidade ambiental. Sustentabilidade para nós é mais do que emissões: é também diversidade, segurança e impacto social.

No caso da redução da pegada de carbono, quais são os resultados palpáveis já obtidos?

Temos como meta ser o porto com a menor emissão de CO2 do Brasil - e um dos menores do mundo. Medimos todas as nossas emissões e buscamos alternativas constantemente. Por exemplo, a nossa térmica Gás Natural Açu tem a menor emissão de CO2 por megawatt entre todas as que operam no País. Fizemos também a primeira operação com HVO, um biocombustível renovável para navegação de curtas distâncias - nunca antes usado no Brasil. Firmamos também um acordo com uma empresa de rebocadores para usar energia renovável em determinadas operações. Isso reduz significativamente a pegada de carbono desse meio de transporte. Essa é mais uma frente da nossa busca pela descarbonização completa das operações.

E a conta dessas ações sustentáveis estão fechando?

Não acredito em ações sustentáveis apenas por "ter um bom coração". Elas só são sustentáveis de verdade se fizerem sentido econômico. Precisam fechar a conta, senão não são perenes. É isso que garante que essas ações continuem no longo prazo e que realmente impactem positivamente o meio ambiente e a sociedade.

E o terceiro pilar da estratégia envolve impacto social. Do que estamos falando exatamente?

Criamos uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, a Reserva Caruara, com 40 quilômetros quadrados adjacentes ao porto - a maior reserva privada de restinga do Brasil. Lá cuidamos de mais de 120 espécies animais, mais de 20 em risco de extinção. Temos um viveiro de plantas nativas que permite expandir a reserva como compensação ambiental de novos projetos no porto. Também firmamos parceria com o projeto Tamar - temos uma das maiores bases de proteção de tartarugas do país. Também contratamos jovens de São João da Barra, onde o porto está localizado, como guias da reserva. A Caruara virou ponto de ecoturismo no Rio de Janeiro. Recebemos cerca de cinco mil visitantes por mês, principalmente alunos das escolas da região, de forma gratuita. Isso gera oportunidade econômica, promove educação ambiental e fortalece nosso compromisso com o desenvolvimento da região.

Qual o impacto atual do Porto do Açu em termos de movimentação portuária para o Brasil?

O porto completou dez anos de operação em outubro do ano passado. Ainda somos jovens, mas já superamos o Porto de Santos no número de embarcações que nos acessam, pelo segundo ano consecutivo. Claro que Santos é imbatível em contêineres, mas temos muitas embarcações de apoio à produção de petróleo no pré-sal, o que gera um alto volume de movimentações. Esse grande número de embarcações cria uma base de consumo relevante para os novos combustíveis que produzimos e testamos ali. Muitas das empresas que operam conosco são multinacionais que buscam descarbonizar suas cadeias. Encontram aqui uma multiplicidade de soluções que poucos portos no mundo conseguem oferecer. É uma combinação de competência, sorte e uma visão estratégica clara - e estamos aproveitando essa oportunidade ao máximo.

A guerra tarifária em curso no mundo é algo que preocupa? Tem impactado vocês?

Muito. A sobretaxa dos EUA sobre o aço brasileiro fez com que os americanos buscassem outros insumos, como ferro-esponja e carvão, que exportamos pelo Porto do Açu. Nosso volume cresceu 69% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2024. Essa tensão entre EUA e China abre oportunidades para o Brasil. Os chineses exportam quase 500 bilhões de dólares para os EUA e já avaliam instalar fábricas aqui para produzir localmente e exportar com menos tarifa. Já temos sócios e clientes chineses, então esse movimento pode se intensificar.

Os gargalos de infraestrutura afetam vocês de que maneira?

Nós temos os mesmos problemas do Brasil inteiro. Por exemplo, ainda não temos uma ferrovia chegando ao porto. Sobre isso, existe um projeto muito avançado do ministério dos Transportes com a Infra S.A., que é a Estrada de Ferro 118. Ela vai ligar Vitória ao Rio de Janeiro, passando pelo Porto do Açu. É um dos projetos mais maduros da Infra em desenvolvimento. A expectativa é que seja leiloado ainda este ano ou no início do ano que vem.

E em relação ao acesso marítimo?

Aí temos uma vantagem enorme. Diferente de outros portos do Brasil, temos dois terminais totalmente independentes. Um deles é o terminal de águas profundas mais profundo do país, com calado de 25 metros. Só para você ter uma ideia, 35% das exportações de petróleo do Brasil, que é o item número um da pauta exportadora, passam por esse terminal operado por uma empresa do nosso grupo, a Vast. O terminal 2 tem sete quilômetros de canal dragado. Ali temos operações que vão desde exportação de grãos, importação de fertilizantes, apoio logístico para exploração de petróleo e até indústrias como a Technip, que produz tubos flexíveis. Como os acessos são independentes, temos o menor tempo médio de espera de navios do país. Isso é uma vantagem real.

O hidrogênio verde é alvo de polêmica porque vários especialistas afirmam que talvez seja muito caro ou inviável a produção e exportação dele para outros continentes a partir do Brasil em um curto ou médio espaço de tempo. Como vocês estão posicionados em relação a isso?

Olha, se você me perguntar qual vai ser a taxa de câmbio no final do ano, eu sou economista, eu vou passar maior vergonha, eu vou dizer que não tenho a menor ideia, eu vou dar um número para você, a única coisa que eu sei é que eu vou errar. Deixando a brincadeira de lado, óbvio que eu não sei como o mundo vai se desenvolver nos próximos 20 anos ou 30 anos. Nós nos posicionamos como o Porto Verde do Brasil. Criamos um hub voltado para a produção de insumos da transição energética. E aqui é importante dizer: nunca foi nossa estratégia exportar hidrogênio verde diretamente, porque ele é difícil de transportar. Nosso foco é usá-lo como insumo em outras cadeias, como a produção de amônia verde, briquete de ferro a quente ou metanol verde, um insumo importante tanto para biocombustíveis como para a indústria química. Se as coisas acontecerem, mesmo em uma velocidade mais lenta do que se esperava originalmente, que é o que a gente está observando, ainda assim, essa iniciativa nossa de criar o Porto Verde, o porto da transição energética do Brasil, ela vai se materializar, já está se materializando. Essa visão de usar o hidrogênio como insumo de outras cadeias está se consolidando em outros hubs pelo mundo - e é exatamente o que estamos fazendo aqui.

O mesmo raciocínio vale para a energia eólica offshore?

A geração offshore resolve o problema da concentração de energia limpa em um só ponto - algo essencial para indústrias eletrointensivas. O Brasil tem dificuldade de oferecer pontos de conexão. E o nosso porto tem uma localização privilegiada: os ventos ali são muito bons, similares aos do Nordeste. Sem querer, viramos uma base ideal para instalação e manutenção de projetos eólicos em alto-mar.

A subida do nível do mar no médio prazo é uma preocupação? Vocês monitoram de alguma forma isso?

Sim. Há dois anos contratamos uma consultoria internacional para avaliar os impactos da elevação do nível do mar e outros efeitos climáticos, como o aquecimento das águas. O estudo mostrou que somos bastante resilientes pelos próximos 50 anos. Apresentamos os resultados ao nosso conselho de administração e eles embasaram nosso plano de adaptações climáticas. Monitoramos dezenas de variáveis, como temperatura da água, do ar, altura das ondas, nível do mar e assim por diante. E temos planos de ação para mitigar os impactos previstos. Como somos uma infraestrutura crítica - afinal, 35% do petróleo exportado e 6% do PIB brasileiro passam por aqui - levamos esse tema muito a sério.

Qual a importância da COP-30, especialmente sendo no Brasil?

É enorme. A COP-30 em Belém representa a continuidade do protagonismo que começou na Eco-92, no Rio. O Brasil está no centro da agenda climática, e sediar a COP reforça nosso papel. Belém apresenta desafios logísticos, claro, mas também mostra a realidade amazônica e os contrastes do país. Não é turismo, é uma chance de acelerar projetos de transição com impacto social e ambiental reais. Participamos de todas as COPs, principalmente por meio do CEBDS, da Apex e outras associações. A sustentabilidade é central para nossa estratégia. Não é só discurso - já ganhamos prêmios internacionais nessa área. Estamos comprometidos com essa agenda porque ela nos posiciona de forma diferenciada no Brasil e no mundo.

Estadão
Compartilhar
TAGS
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade