Wim Wenders tira filme de circulação após apelo de Nastassja Kinski
Há anos atriz pede corte de cena de nudismo aos 13 anos. Medida gera críticas ao cineasta alemão, em meio a debate sobre se obras devem ou não ser reeditadas.A Fundação Wim Wenders anunciou nesta quarta-feira (03/06) que o filme Movimento em Falso, de 1975, será retirado por ora de circulação. O longa está no centro de uma disputa de grande repercussão entre o cineasta alemão e a atriz Nastassja Kinski, que estrelou no filme quando era adolescente.
Há anos, Kinski pede que Wender remova uma cena do longa. Na breve sequência, o coestrela Rüdiger Vogler, então com mais de 30 anos, visita a personagem de 13 anos no quarto, onde ela está deitada na cama, vestindo apenas uma calcinha. O homem se despe até ficar de cueca, deita-se sobre ela, dá-lhe um tapa e depois acaricia seu rosto.
"Embora eu não soubesse muita coisa aos 13 anos, eu já conseguia perceber que aquilo não estava certo", disse Kinski recentemente ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung.
O aclamado diretor reagiu publicamente aos pedidos de Kinski pela primeira vez em 2024, afirmando que compreendia suas "percepções e sentimentos atuais". Ele disse ainda que, hoje, não filmaria a cena daquela forma.
Wenders recorre à academia
Ao discursar na cerimônia do Prêmio Alemão de Cinema, realizada na semana passada em Berlim, Wenders disse que o caso levantava uma questão maior: como lidar com filmes criados em outra época?
"Não posso culpar o jovem de 29 anos que eu era há 50 anos, que fez um filme de seu tempo, querendo, de certa forma, capturar o espírito da época", disse Wenders, ao receber o prêmio honorário pelo conjunto da sua obra.
Ele expressou hesitação em editar o filme retroativamente, mesmo sabendo que a cena causa dor a uma atriz que "eu admirava profundamente, e ainda admiro". O diretor convocou a Academia Alemã de Cinema a iniciar uma discussão sobre o dilema, acrescentando que esperava contribuições de cineastas mais jovens.
Procurada pela DW, uma porta-voz da Academia Alemã de Cinema afirmou que a instituição ainda não tinha posição sobre o tema.
Filmes devem ser revisados?
Para Wenders, alterar filmes já finalizados pode criar precedentes difíceis para arquivos, processos de restauração e a história cultural. Ainda assim, diversos filmes já foram reeditados após o lançamento, seja para encurtá-los visando maior sucesso comercial nos cinemas, para adaptá-los a determinados mercados ou simplesmente porque o cineasta decidiu que as obras ficariam melhores.
Steven Spielberg se arrependeu, entretanto, por ter modificado "ET: O Extraterrestre na reedição do 20º aniversário do blockbuster. Na versão revisada, agentes federais que originalmente apareciam com armas passaram a carregar walkie-talkies.
"Isso foi um erro", disse Spielberg em um fórum da revista Time nos Estados Unidos, em 2023. "Eu nunca deveria ter feito isso. ET é um produto de sua época. Nenhum filme deveria ser revisado com base nas lentes pelas quais hoje somos, voluntária ou involuntariamente, obrigados a olhar."
Para ele, os filmes são "um marco de onde estávamos quando os fizemos e de como o mundo era". De Aladdin (1992) a Lilo & Stitch (2002), muitos clássicos da Disney também foram modificados em relançamentos ou nas versões disponibilizadas na plataforma Disney+, para se adequar às sensibilidades do público contemporâneo.
Mesmo cineastas autorais revisaram filmes já lançados. Ridley Scott remontou seu sucesso de ficção científica Blade Runner (1982) em 2007, e George Lucas fez alterações na trilogia original de Star Wars para o 20º aniversário. Apenas uma semana após o lançamento de O Iluminado (1980), Stanley Kubrick ordenou que exibidores cortassem uma cena considerada confusa por críticos.
Wenders é acusado de evitar responsabilidade
A maioria dos críticos do discurso de Wenders acusa o cineasta de transferir a responsabilidade própria ao recorrer à Academia Alemã de Cinema, embora a palavra final sobre o filme seja sua.
Ao transformar a questão em problema público, Wenders "executou uma manobra absolutamente inteligente", avaliou a crítica de cinema Annette Brauerhoch em entrevista à rádio Deutschlandfunk.
"Isso não é uma questão de censura ou de cultura do cancelamento, como ele sugeriu em seu discurso", afirmou o advogado de Kinski, Christian Schertz, que já anunciou que entrará com uma ação judicial caso a cena não seja removida.
Para outros críticos, Wenders falsamente retratou o pedido como uma ameaça à liberdade do cinema. "Qualquer pessoa que assistisse e ouvisse suas palavras só poderia ficar atônita", escreveu um editorial do Süddeutsche Zeitung. Um artigo de opinião do jornal Welt concordou que "seria simbolicamente correto remover a cena".
Normas da indústria já mudaram
Persistem controvérsias em torno de filmes antigos que sexualizaram crianças. Um deles é Pretty Baby (1978), de Louis Malle, no qual a atriz Brooke Shields, então com 12 anos, apareceu nua ao interpretar uma prostituta infantil. O filme foi proibido em algumas províncias do Canadá até 1995.
Shields também relatou ter se sentido "forçada" e desconfortável no set de A Lagoa Azul (1980), filmado quando ela tinha 14 anos, enquanto seu colega de elenco Christopher Atkins tinha 18. No longa, os personagens principais aparecem nus e em cenas íntimas.
Olivia Hussey e Leonard Whiting tinham apenas 15 e 16 anos quando protagonizaram Romeu e Julieta (1968), de Franco Zeffirelli. Eles entraram com um processo de 500 milhões de dólares contra a Paramount Pictures por causa de uma cena de nudez no filme.
Embora a ação tenha sido definitivamente rejeitada pela Justiça em outubro de 2024, disputas desse tipo levaram a mudanças significativas na forma como a indústria do entretenimento trabalha hoje com crianças.
Produções contemporâneas impõem regras rigorosas, como a presença de responsáveis legais no set, consentimento parental explícito e o uso de coordenadores de intimidade profissionais para lidar com material sensível.
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