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"Um projeto de inclusão", diz diretor sobre filme 'Colegas'

16 out 2012
11h31
atualizado em 2/10/2014 às 15h14
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Enquanto alguns se sentem intimidados ao se depararem com pessoas com síndrome de Down, Marcelo Galvão se apaixonou por elas a tal ponto que decidiu fazer um filme. Inspirado em seu tio, o diretor criou Colegas, longa-metragem que traz uma abordagem leve e cômica sobre a deficiência. "Não é um filme pretensioso, é um filme gostoso de assistir, em que você não se dá conta de que são três pessoas com síndrome de Down que estão ali. Dessa forma, ele já se torna um projeto de inclusão", disse o cineasta em entrevista ao Terra.

O filme faturou o prêmio de melhor longa brasileiro no Festival de Gramado deste ano
O filme faturou o prêmio de melhor longa brasileiro no Festival de Gramado deste ano
Foto: Edison Vara/Pressphoto / Divulgação

Ganhador do Kikito de melhor longa nacional no Festival de Gramado deste ano, Colegas também passou pelo Festival do Rio e, agora, chega a São Paulo para disputar a 36ª Mostra Internacional de Cinema, que começa em 19 de outubro. Satisfeito por conquistar aplausos em pé em várias sessões, Marcelo admite que "foi uma surpresa" o carinho com que o filme tem sido recebido pelo público.

As referências ao seu tio, que morreu no ano passado, começam desde o título do filme, já que ele costumava chamar as pessoas de "colegas". Além de algumas piadas que resgatam o bom humor de Márcio - que, aliás, é o nome de um dos personagens -, o instituto interno dos três protagonistas é muito parecido com o que ele vivia. "Eu usei no filme desde atitudes, até coisas que aconteceram na vida dele", contou o diretor.

Com a "espinha dorsal" do roteiro escrita durante uma viagem, Marcelo criou uma trama livre de paternalismo. Stallone (Ariel Goldenberg), Márcio (Breno Viola) e Aninha (Rita Pokk) protagonizam cenas hilárias e despretensiosas, durante a fuga do internato em que moram. Aficionados por cinema, eles trabalham na videoteca da instituição e, inspirados pelo filme Thelma & Louise, decidem roubar o carro do jardineiro e lançarem-se à busca de seus sonhos: ver o mar, casar e voar.

Em uma atmosfera lúdica e repleta de referências cinematográficas, o road movie narra aventuras que fazem o espectador esquecer que os protagonistas possuem a síndrome: é então que a inclusão social fica nítida. Marcelo, que nunca enxergou o tio como "uma pessoa deficiente", tenta levar ao público a sua experiência pessoal com um Down. E consegue. "Queria transmitir os bons momentos que passei com ele, que era uma companhia muito boa", relembrou o diretor.

Durante as filmagens, Marcelo relata não ter tido problemas com a adaptação de Ariel, Breno e Rita. Além da imaginação realçada, "se você fala que ele vai ser um gênio, de repente ele vira um gênio", o diretor ainda destacou o comprometimento e a disciplina dos três. "Eles estão curtindo o momento, viajar, ficar famoso, mostrar que são iguais, que têm os mesmos direitos", observou.

Retratar pessoas com a síndrome, no entanto, gerou vários percalços. Segundo Marcelo, muitas empresas negaram o patrocínio por temerem associar suas marcas a uma deficiência. Após um intenso trabalho de captação, o orçamento de R$ 6 milhões incluiu cenas gravadas na Argentina, em um campo de girassol, falésias e o aluguel de helicóptero. Gravado em película 35mm, "o custo de produção mesmo foi de R$ 3,5 milhões", observou ele.

Para o lançamento do filme, foi utilizado o recurso do crowdfunding - iniciativa de financiamento colaborativa -, mas os problemas também persistiram durante a venda para salas de cinema. Segundo o diretor, o filme foi julgado como uma produção de nicho. "Quando o público gosta e aplaude em pé, você vê que não é um filme de nicho", argumenta.

Cinema autoral
Conhecido pela bem-sucedida estreia no cinema com Quarta B, Marcelo já possui outros roteiros escritos, incluindo a história de um matador e um road movie de pai e filho. No Brasil, sua principal referência cinematográfica é a produção de Fernando Meirelles - que, inclusive, assistiu Colegas antes da finalização e deu uma dica essencial. "Mostrei para ele algumas cenas em que apareciam o meu tio, no final do filme, em cima dos créditos, até porque era uma homenagem a ele. Mas elas deixavam o filme mais pesado, e foi legal ouvir que ele tiraria aquela parte. Fez uma diferença grande", conta Marcelo.

Além de elogiar outros nomes brasileiros, como Breno Silveira e Luciano Moura, o diretor destaca a produção estrangeira de David Cronenberg, Lars Von Trier, Thomas Vinterberg, David Lynch, Stanley Kubrick e Woody Allen. Quando se trata de cinema autoral, Marcelo é incisivo: "é possível fazer filmes bons para um grande público. Forrest Gump e Pulp Fiction são exemplos disso".

Ele, que critica o cinema brasileiro por muitas vezes se prender demais à característica autoral, ressalta que também é preciso pensar no público. "Alguns filmes parecem ter sido feitos apenas para o próprio diretor, de tão subjetivos que são. Temos que lembrar também que a maior parte do cinema feito no Brasil é com o dinheiro público", observa. "Uma das coisas que aprendi é que, mais importante do que produzir um filme, é conseguir colocá-lo no cinema, porque é muito difícil", destaca.

Outra novidade de Colegas foi a exibição do filme em audiodescrição, que beneficia portadores de deficiências visuais. O diretor ainda pretende disponibilizar o recurso nas salas de cinema e no posterior lançamento do filme em DVD. "No DVD é certo que vamos colocar, também quero linguagem de libras e legenda em português para deficientes auditivos", adianta.

Com previsão de lançamento para 1º de março de 2013, Colegas tem no elenco nomes como Lima Duarte, Juliana Didone, Leonardo Miggiorin e Marco Luque.

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Fonte: Terra
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