'V': eles, enfim, chegaram. E agora?
- Márcia Pereira
- Direto de São Paulo
Entre os fãs de ficção científica um dos desejos mais arraigados é a vontade de, pelo menos, pisar numa nave alienígena. Viajar e ficar amiguinho de um poderoso e evoluído ser espacial, então, nem se fala. A série V (Warner Channel, todas as terças-feiras, às 22h - prime time) se fia nesses desejos e jura que irá realizá-los - sem necessariamente querer que tudo corra às mil maravilhas -, bem como dos telespectadores, que adorariam ver como funciona uma nave (telespectadores esses que vão se surpreender com o precário sistema de segurança das aeronaves aliens, por exemplo).
No seriado - que estreou em novembro de 2009 nos Estados Unidos e no início de abril aqui no Brasil e é baseado em minissérie homônima dos anos 80 -, uma frota de 29 naves alienígenas chega à Terra de repente, sem nenhuma retaliação por parte dos terráqueos - o que, em qualquer filme de ficção científica, já seria motivo para uma batalha pirotécnica à la Independence Day. A chegada é extremamente pacífica, assim como pretende ser pacífica a convivência desses poderosos ETs com os pouco evoluídos seres humanos.
Loba em pele de cordeira
No lugar de um grande lagarto ou humanóide cabeçudo, quem se apresenta como líder dos aliens é a chiquérrima Anna, uma bela mulher de formas humanas perfeitas, poliglota (fala de japonês a espanhol, de francês a português, entre outras tantas línguas terráqueas) e com guarda-roupa de CEO de empresa com IPO na bolsa de Nova York - papel da brasileira Morena Baccarin, uma espécie de musa das produções B do gênero e que foi alçada ao panteão das estrelas da telinha americana graças ao sucesso de V nos EUA (a audiência média do programa é de cerca de 8 milhões de telespectadores por episódio, número que coloca a série entre as 10 mais assistidas entre os americanos).
É assim, derrubando clichês da ficção científica, mas também reforçando outros - no fundo (bem debaixo da pele de cordeiro, ou humana, no caso dos visitantes), os ETs são todos mauzinhos - que a série vai conquistando seu lugar no disputado ranking de audiência americano.
Dilemas existenciais
No elenco também estão remanescentes de outras séries de sucesso, como a agente do FBI Erica, vivida por Elizabeth Mitchell, a doutora Juliet de Lost e Scott Wolf, o bonitinho de O Quinteto. Ela faz parte do grupo de resistência que sabe mais do que devia sobre os "pacíficos" alienígenas - que, na verdade, querem escravizar os humanos e aniquilar os que se opuserem aos planos diabólicos da grande líder Anna ¿ e ele, um repórter de TV em ascensão, a princípio se presta a servir como porta-voz extra-oficial dos ETs - mas sempre com uma pulga atrás da sua orelha televisiva a respeito do espírito "friendly" dos visitantes.
Erica, ainda, viverá um dilema familiar: enquanto ela integra o grupo secreto da resistência humana contra os aliens, seu filho, o adolescente Tyler (Logan Huffman), irá se envolver com Lisa (Laura Vandervoort), filha de ninguém menos que a diabólica Anna. Outro dilema viverá o padre Jack (Joel Gretsch), que terá sua fé em Deus abalada com a chegada de uma raça que só aparentemente foi forjada à semelhança do todo-poderoso, mas que, na real, é concebida de escamas, pupilas amareladas e ofídicas e muita gosma.
A princípio o plot de V pode parecer um monte de bobagens - aliens que visitam a Terra, em busca de algo que não está claro, bem como não são claras suas intenções para com os terráqueos -, mas sua realização é competente e consegue entreter, deixando, ao final de cada episódio, o telespectador com aquela típica fissura do "quero mais", uma arma implacável na fidelização da audiência. V vem em paz, mas pode te enlaçar de um jeito que, quando perceber, você já está completamente tomado!