'Sessão de Terapia' traz consultório de psicanálise para a tela da TV
- MAURO TRINDADE
A TV por assinatura permite algumas experiências aparentemente impossíveis nas emissoras com sinal aberto. Caso de Sessão de Terapia, que o GNT passou a apresentar dia 1º de outubro. Nada de extorsões com fotografias, irmãos gêmeos separados na infância, portas se abrindo em momentos constrangedores e outros recursos que a teledramaturgia herdou de romances, novelas e "vaudeville". É uma experiência rara em televisão, tanto por prescindir dos tradicionais recursos do folhetim quanto pelas situações de aprofundamento a que se propõe. Em resumo: não sobreviveria 30 segundos em ambientes comerciais.
Em um consultório, um psicanalista recebe homens e mulheres em busca de auxílio para seus problemas pessoais. Toda ação fica restrita a dois planos. O primeiro, no "presente", com a relação entre terapeuta e psicanalisados. O segundo, no campo minado da memória, relatado pelos próprios "analisantes". Assim, sem mudanças de cenários, sem "stock-shots", sem correrias, tiroteios ou explosões, toda a dramaturgia depende quase unicamente da performance dos atores. Há, inclusive, muito pouco do "gentleman agreement", o acordo silencioso entre ficção e telespectadores que nos faz aceitar que Miguel Falabella seja um assassino de noivas em uma história e Tony Ramos um bigodudo misógeno em outra. Só resta o discurso de cada um.
Mesmo o burilado texto - que tenta dar conta do que há de fragmentário, circular e falho na locução dos personagens - só subsiste pela força interpretativa do pequeno elenco. O ator Zécarlos Machado carrega o psicanalista Theo - ironicamente "Deus" em grego - com o devido ritual ao ofício da psicanálise. Educado sem exageros, ouve muito, fala pouco e restringe de maneira sutil as expressões corporal e facial. Maria Fernanda Cândido viveu a verborrágica paciente Júlia no capítulo de estréia. A direção de Selton Mello cuida e bem de não interferir no solo dos artistas. Nada de movimentos de câmara velozes ou complexos. Quem corre aqui é a cabeça e pouco o olho do telespectador. São os detalhes que importam.
A série começou em Israel, chamada Betipul, ou Em Tratamento, no ar desde 2005. Com a versão norte-americana da HBO, In Treatment, a história ganhou o mundo e hoje está na Argentina, Holanda e em cerca de outros 30 países. Por aqui, o GNT apostou alto na série. A emissora declara que cada episódio de cerca de 30 minutos custa R$ 130 mil. Serão 45 capítulos que irão ao ar de segunda a sexta, às 22h30 e às 0h.
Mais do que as cifras que ajudam o marketing da emissora, quem dá a dimensão de Sessão de Terapia é seu bom elenco capitaneado pelo talentoso e experiente Zécarlos Machado e pela ótima atriz Selma Egrei, no papel de Dora Aguiar, orientadora de Theo. A despeito de ser exibida na tv e contar com um protagonista de formação teatral, Sessão de Terapia evoca muito do cinema nacional, até por certas similaridades com Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. É quase irresistível imaginar o que Carlão Reichenbach ou Walter Hugo Khoury fariam com uma série como essa. E certamente no Canal Brasil.
Sessão de Terapia - Segunda a sexta, às 22h30 e à 0h, no GNT.