SBT recebeu 40% menos verba publicitária com Lula do que no governo Bolsonaro
Herdeiras seguem a diplomacia comercial de Silvio Santos, que era de direita, ao se aproximar do presidente de esquerda
A visita de Lula ao SBT, em 15 de dezembro, gerou um recado político claro das duas partes. Ocorreu após três anos em que a emissora da família Abravanel recebeu bem menos verbas de publicidade do governo federal do que Globo e Record — uma diferença que pesa no caixa.
A direção da TV quer mais investimentos e o presidente sabe da importância da cobertura dos telejornais da disputa eleitoral de 2026.
Até aqui, neste terceiro mandato do petista, a rede fundada por Silvio Santos teve cerca de R$ 129 milhões em propaganda da Presidência, ministérios e alguns órgãos comandados pelo Poder Executivo.
A coluna fez a soma a partir de dados divulgados pelo portal Poder360. Os números poderão variar para mais após o balanço final do ano passado.
Nesse mesmo período (2023, 2024 e 2025), a Record recebeu da administração petista aproximadamente R$ 203 milhões e a Globo, R$ 462 milhões.
Um investimento maior faria diferença à saúde financeira do SBT, que teve a sede hipotecada (segundo o site O Antagonista) para cumprir o pagamento de compromissos.
Talvez, por isso, as herdeiras de Silvio Santos tenham feito um aceno tão explícito a Lula ao recebê-lo de maneira calorosa na festa de lançamento do SBT News. Mas essa tentativa de reaproximação não é nova.
Amigo do poder, seja à direita ou à esquerda
Em 7 de julho de 2023, esta coluna destacou a mesma situação no título de um texto: ‘Por que Silvio Santos se aproxima de Lula após ter apoiado Bolsonaro’.
Na época, o dono do SBT havia enviado Daniela e Patrícia para visitar o presidente em Brasília. Um gesto de cortesia — não exatamente desinteressado — depois de Bolsonaro ter sido recebido duas vezes na mansão do comunicador, em São Paulo.
“Desde os tempos em que era apresentador na Globo, Record e na extinta TV Tupi, ele (Silvio Santos) sempre fez questão de manter boa relação com as mais altas esferas de poder”, diz trecho do artigo publicado neste espaço, lembrando que o empresário foi recebido por Lula em 2010.
“Como homem de negócios, Silvio age com pragmatismo, evitando atrito com os ocupantes do Palácio do Planalto. Acima da posição ideológica (o apresentador é visto como conservador), há o interesse comercial.”
Agora no comando da empresa e com a missão de buscar o lucro em tempos difíceis para a TV aberta, as filhas de Silvio também recorrem à diplomacia para, provavelmente, conseguir o aumento das verbas de publicidade de Brasília.
Ideologia não paga folha de funcionários
Nos quatro anos de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, o SBT recebeu R$ 292 milhões em verbas de propaganda do gabinete presidencial. Média de R$ 73 milhões por ano. Com Lula, caiu para cerca de R$ 43 milhões anuais.
Portanto, é natural, pela lei de sobrevivência de mercado, que o clã Abravanel siga os exemplos de Globo, Record e Jovem Pan News, que recuaram na ofensiva contra Lula e, coincidentemente, passaram a receber mais dinheiro do governo de esquerda nos intervalos da programação.
Ainda que as herdeiras de Silvio Santos sejam evangélicas e com pensamento à direita, elas têm consciência de que não podem ignorar uma importante fonte de receitas como a Presidência. A questão ideológica fica em segundo plano. Afinal, militância política rende ‘likes’, mas não paga salários dos funcionários nem os pesados encargos e impostos.
A política e a televisão se retroalimentam para sobreviver. Tanto é que, no último ano de mandato, quando fez campanha à reeleição, Jair Bolsonaro aumentou em quase 100% a verba direcionada à ‘inimiga’ Globo. Não foi um gesto de bondade.
Tecnicamente, a distribuição dos milhões em propaganda da Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República) entre as grandes emissoras segue critérios como audiência comprovada e alcance nacional, fatores nos quais Globo e Record levam vantagem sobre o SBT.
Na prática, sabe-se que afinidade editorial, bom trânsito político e relações institucionais estáveis também pesam na definição do volume de investimentos.