Rogéria não morreu, eternizou-se sendo nossa Marilyn Monroe
Atriz usou talento, inteligência e bom humor para conquistar respeito e quebrar preconceitos
Geminiano com ascendente em Leão, Astolfo Barroso Pinto nunca correu de homofóbicos.
“Quando vinham com violência, eu virava um boxeador”, contou em entrevista ao canal GloboNews, enquanto os dedos com unhas pintadas de vermelho ajeitavam o cabelão louro de pantera.
Astolfo e Rogéria sempre conviveram em harmonia na mesma pessoa. “Jamais na vida pensei que era mulher”, enfatizava repetidamente. “Gosto de ser o que sou, o travesti da família brasileira.”
Na noite de segunda-feira (4), a múltipla artista – atriz, cantora, apresentadora, dançarina, vedete e jurada de talentos – morreu em decorrência de uma infecção generalizada.
Foi em Paris, onde quando jovem se apresentou nos mais luxuosos cabarés, que ela fez a transição de visual: o rapaz de cabelos curtos e aparência andrógina se transformou numa bela mulher com visual de diva hollywoodiana.
A inspiração foi ninguém menos que Marilyn Monroe, o maior mito já produzido pelo cinema. Alguém que, apesar de frágil, chutou todos os obstáculos para desbravar seu próprio caminho, assim como o fez aquele tímido Astolfo saído da cidadezinha fluminense de Cantagalo.
No retorno ao Brasil, Rogéria usou o salto alto – mais o talento, a inteligência e o humor sempre afiado – para pisotear o preconceito numa época na qual os termos homofobia e transfobia sequer eram citados.
Na TV, nas telonas e nos palcos, ela mostrou densidade dramática e verve cômica. Uma atriz consistente, capaz de interpretar papéis femininos como o da esposa evangélica na peça ‘O Desembestado’, em atuação que lhe rendeu em 1979 um dos mais prestigiados prêmios do teatro brasileiro, o Mambembe.
Os noveleiros foram presenteados por ‘dona Rogéria’, como era respeitosamente tratada pelos fãs nas ruas, com performances hilárias.
Como esquecer a Carolina de ‘Paraíso Tropical’, a Alzira de ‘Lado a Lado’ e a Úrsula de ‘Babilônia’, entre outros tipos de sua reluzente contribuição à teledramaturgia?
Nesta madrugada, o canal Viva exibiu justamente o capítulo de ‘Tieta’, novela de 1990, na qual a dondoca Ninete faz chegada triunfal a Santana do Agreste.
Ironia do destino, homenagem do destino: trata-se do mais popular personagem feito por Rogéria na Globo.
Quando surgia diante das câmeras despida da ficção mas em figurinos deslumbrantes, a artista fazia questão de opinar a respeito de temas relevantes, como a preservação dos valores familiares e a conscientização coletiva contra os reacionários.
Sempre gargalhando e com discurso positivo, exalava aquilo que os franceses que ela conheceu tão bem classificam de ‘bien dans sa peau’ – o estado emocional de sentir-se bem consigo mesmo.
E assim, única e inigualável, Rogéria parte deixando um rastro cintilante na cultura e na sociedade deste País.
“Se eu tivesse cumprido todas as regras, eu nunca teria chegado em qualquer lugar”, disse Marilyn Monroe.
Este seria o epitáfio perfeito para Astolfo, o homem corajoso e transgressor que se fez mulher e grande artista.