'Paraíso' alavanca audiência apostando na filosofia caipira
Cenas longas, sotaque carregado nos "erres" e o cenário - sempre - agradável do campo. Os trunfos que Paraíso apresenta são extremamente simples, mas essa talvez seja sua maior vantagem para alcançar os 30 pontos de média de audiência que a história de Benedito Ruy Barbosa consegue em alguns capítulos.
É claro que é notável o crescimento nos números de todos os horários da Globo - Caras & Bocas tem média nacional de 32 pontos, Malhação já atinge 25 e a reprise de Senhora do Destino faz bonito ao bater 22 no horário da tarde -, mas há de se reconhecer que Benedito, pelas mãos das filhas Edmara e Edilene Barbosa, acertou quando decidiu resgatar valores esquecidos nas tramas atuais.
Tanto que não é difícil ouvir em cenas da novela expressões como "'inté' o casamento tem de ter respeito".
Um dos fatos curiosos que mais chama a atenção na novela é a completa ausência de um grande vilão. A amarga Mariana, de Cássia Kiss, ensaia alguns passos de maldade, mas não chega a assumir esse posto na trama. Em Paraíso, os impedimentos são de índole, morais, completamente distantes dos que normalmente são vistos na televisão.
Até mesmo tabus que em outras produções eram criticados ganham maquiagem e temperam a história. Como a ideia de incesto sugerida com o casamento de Rosinha e Zeca, de Vanessa Giácomo e Eriberto Leão. Os dois foram criados como irmãos, a ponto do rapaz ver a atual sogra como mãe desde pequeno, já que a sua morreu no parto. E as discussões religiosas que já sacrificaram produções passadas - como Eterna Magia, por exemplo - também emplacam. Uma prova de que o problema não é o que se escreve, mas como se escreve.
A audiência da história começou a crescer, coincidentemente, quando a mocinha se trancafiou em um convento, sem contato com os outros personagens. Cenas que Nathália Dill, intérprete da doce Maria Rita, aproveitou para prender a atenção com a veracidade transmitida quase que apenas com seu olhar.
A menina, aos 23 anos e em seu segundo papel na TV, consegue convencer tanto ao lado de veteranos, como Mauro Mendonça e Cássia Kiss, que vivem os pais da mocinha, como quando aparece sozinha. Uma surpresa agradável, já que a falta de elenco com cacife para protagonizar uma novela é um problema constante nas emissoras.
O ar campestre de Paraíso rende uma fotografia há tempos esquecida pela TV aberta. As sequências demoradas não cansam e até o sotaque carregado de quase todos os personagens dá charme à trama. Ainda mais por contar com um elenco que dá conta do recado. Alexandre Nero, na pele do bronco Terêncio, segura bem a posição de segundo mocinho da história e repete o sucesso de sua estreia em A Favorita, quando se destacou como o verdureiro Vanderlei, que aparecia esporadicamente no ar e, quase sempre, com pouco texto.
Lidi Lisboa, que ficou conhecida como a descolada Tatiana, de Paraíso Tropical, melhor amiga da prostituta Bebel, de Camila Pitanga, chama a atenção encarnando a romântica e ingênua Das Dores. E Soraya Ravenle, mais marcada na TV por suas atuações cômicas, é outro nome que desponta na novela, representando bem os conflitos da viúva de meia-idade Zefa, apaixonada pelo patrão, Eleutério, de Reginaldo Faria.
Mas nem por isso Paraíso deixa de ter seus excessos. Como nas cenas em que os personagens falam sozinhos. Traço típico das tramas de Benedito Ruy Barbosa, esse recurso tem sido carregado demais nos últimos capítulos da história. Como nos conflitos em relação ao casamento de Rosinha, de Vanessa Giácomo, com o mocinho Zeca, de Eriberto Leão, e nos preparativos para a união de Zefa e Eleutério.
Chega a ser cansativa a quantidade de vezes em que esses personagens são mostrados nessa situação. Além disso, como o grupo de regateiras da fictícia Paraíso já aprontou tudo o que podia, as cariocas Zuleika e Leni, de Cristiana Oliveira e Aisha Jambo, chegaram para preencher o espaço vazio deixado pelas meninas. Mas as duas vieram com textos carregados de exageros.