Novos heróis nas telas: é a hora e a vez dos dubladores no Brasil
Redes sociais impulsionam fãs de profissionais da dublagem, que terão conferência nacional DublaCon
Conhecer quem faz a voz de um ator ou personagem querido é como descobrir a identidade secreta de um super-herói. A afirmação pode parecer exagerada, mas é exatamente esse o sentimento dos milhares de fãs e seguidores dos principais dubladores do País.
Nos últimos anos, eles saíram do anonimato para se transformar em estrelas pop. A força das redes sociais (Instagram e TikTok, principalmente), um certo "saudosismo de Sessão da Tarde", o sucesso dos animes e filmes de herói estão entre as prováveis causas desse reconhecimento.
Mas se hoje dubladores têm fãs-clubes, dão autógrafos na rua e até preparam uma conferência nacional, a DublaCon, é porque o caminho foi trilhado por vozes pioneiras, como a de Selma Lopes, de 93 anos, que continua na ativa dublando personagens como Marge Simpson e a atriz Whoopi Goldberg.
Em meados da década de 1940, ela iniciou a carreira cantando em programas de rádio infantojuvenis. "Foi por acaso. Estava acompanhando meu irmão e a produtora me perguntou se eu cantava também. No mesmo instante, a menina precisou inventar um nome artístico. Olhou para o lado e viu um maço de cigarro Selma. Assim Maria Lopes Gonçalves passou a se chamar Selma Lopes.
Quando o icônico estúdio Herbert Richers iniciou suas operações, nos anos 1950, Selma foi uma das primeiras contratadas. "No início, o estúdio procurou atores que trabalhavam em rádio", contou. O teste para Selma entrar nesse universo foi dublando o personagem Ligeirinho, o camundongo mexicano.
O trabalho de Selma ajudou a construir o imaginário que até hoje atrai jovens atores para a profissão (para ser dublador é preciso ser ator). Esse é o caso de Wirley Contaifer, de 31 anos, da nova geração de dubladores. Ele é a voz do Homem-Aranha/Peter Parker, nos filmes em que o personagem é interpretado por Tom Holland.
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"Meu interesse começou ainda criança, quando eu descobri que o Chapolin Colorado, meu primeiro herói, não era brasileiro. E entendi que a voz que ele tinha era feita por alguém", contou Contaifer. A partir dessa descoberta, ele soube o que queria fazer da vida. "Tive minha formação como ator e a pressão, até familiar, de fazer televisão, mas sempre fui devoto da invisibilidade. Um ator que pode ser sentido e não visto."
Sucesso
O dublador Élcio Romar, de 72 anos, é a voz clássica de Woody Allen e Michael Douglas na TV brasileira. Para ele, a dublagem é uma arte de sensibilidade que "ou é muito fácil ou é impossível. Você pode ficar 50 anos tentando dublar e não conseguir. É preciso de punch, agilidade e outras qualidades. Não precisa ser bonito, tem de ter talento. Todo dublador é ator, mas nem todo ator é dublador", advertiu.
De tanto ser a voz de atores que estão sempre em filmes exibidos na TV, Romar já foi reconhecido nas ruas. "Comecei a conversar com um taxista e ele perguntou se eu era a voz do Michael Douglas. Ele ficou tão feliz que não me deixou pagar a corrida", contou.
Cláudio Galvan, de 51 anos, que conquistou o papel de Pato Donald cantando Garota de Ipanema com a voz do personagem clássico durante um teste, também tem sido reconhecido nas ruas e shoppings. Ele não se incomoda se lhe pedem, na rua, para imitar o Pato Donald. "Embora faça uma voz caricata, as redes sociais mostraram a nossa cara, com muitos posts e entrevistas", disse.
A dubladora Andréa Murucci, de 56 anos, voz da princesa Pocahontas e de atrizes como Julia Roberts e Helena Bonham Carter, é um exemplo de como as redes sociais ajudaram a popularizar o trabalho dos dubladores. Uma das frases dubladas por ela no filme Encantada virou um clássico instantâneo do TikTok. Anônimos e artistas têm gravado vídeos curtos e bem-humorados dublando Andréa: "Com vocês, meu verdadeiro amor! Meu príncipe, meu sonho ganhou vida!". Em alguns vídeos, a declaração de amor é feita a uma caixa de pizza ou uma garrafa de cerveja.
Para todos
"Acho que para além das redes, os fãs sempre estiveram aí. A dublagem do Brasil é excelente. Ela atende a uma questão de acessibilidade, permite a quem não é alfabetizado ou tem dificuldade de ler legendas rápidas ir ao cinema ou assistir a um filme na tevê", falou Andréa. "Hoje, menos gente 'vira a cara' para a dublagem. Nós estamos presentes na vida das pessoas desde o começo, desde a infância", completou.
Nesse sentido, a atriz e cantora Kika Tristão, de 57 anos, é a voz de muitas princesas quando elas estão cantando nos filmes da Disney (inclusive da já citada Pocahontas). "Eu encontro fãs que me reconhecem pela voz, e que me dizem que fiz a infância deles muito mais feliz. Toda semana recebo esse tipo de carinho", revelou.
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A DublaCon, conferência brasileira sobre dublagem é organizada por Ygor Guidoux, de 32 anos, um apaixonado por dublagens que também se tornou dublador profissional. "O evento é uma forma de devolver todo o carinho que esses profissionais têm com os fãs. Carinho e respeito se paga com carinho e respeito. Os dubladores e dubladoras merecem muito", acrescentou.
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Como fazer
O dublador Wendel Bezerra, de 47 anos, voz de Bob Esponja (além de galãs como Leonardo DiCaprio e Robert Pattinson), explica como são as etapas de produção de uma dublagem. "Um filme de 100 minutos leva em média 25 horas para ser dublado. O processo todo envolve tradução, checagem, mixagem, escolha de atores. Em média, um filme leva entre 30 ou 40 dias."
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Os atores, acrescenta, recebem por hora (horas produzidas). Os dubladores que atuam em grandes produções, os mais requisitados do mercado, podem ganhar em um mês de R$ 20 mil a R$ 40 mil.