Com temas fortes, Vitória estreia sem pressão por audiência
Atrair o público para as novelas da Record tem sido uma missão complicada. Desde Máscaras, exibida em 2012, a emissora não atinge a média de dois dígitos de audiência com sua teledramaturgia. E nem sempre é pela falta de boas histórias ou de investimentos em produção - a mais recente, Pecado Mortal, de Carlos Lombardi, é um bom exemplo.
Apesar disso, a expectativa em torno de Vitória, próxima trama, é a melhor possível. Principalmente, por ser escrita por Cristianne Fridman, autora responsável por novelas bem-sucedidas como Vidas em Jogo e Chamas da Vida. "A emissora nunca me cobrou ibope. Quem cobra sou eu porque tem muita gente envolvida no projeto e ninguém entra em campo para perder", avalia Cristianne, que deve escrever 200 capítulos de história. "Vai ser a última novela longa da Record. Eu espero", confessa, aos risos.
A história central de Vitória, que tem direção de Edgard Miranda, gira em torno de Diana e Artur, protagonistas de Thaís Melchior e Bruno Ferrari. O nome de batismo do rapaz, na verdade, é Mossoró. Mas ele assume uma nova identidade para planejar uma vingança contra o pai, Gregório, papel de Antônio Grassi.
O ódio começa quando, aos 12 anos, Mossoró cai do cavalo, fica paraplégico e é rejeitado pelo pai por conta da deficiência. Mais tarde, ao descobrir que não é filho de sangue de Gregório, planeja seduzir sua suposta meia-irmã, Diana, para atingi-lo. O próprio Gregório, no entanto, desconhece o fato de não ser pai biológico do rapaz.
"Toda a amargura do personagem tem sentido dentro da história, ele vivenciou várias coisas. É um papel humano", ressalta Bruno Ferrari, que passou cerca de dois meses se movimentando em uma cadeira de rodas, dentro de sua casa, para se preparar para o personagem.
Já Diana, filha do segundo casamento de Gregório, é uma joqueta apaixonada por sua égua Vitória, que dá nome à novela. Depois de se envolver amorosamente com Artur durante uma viagem a Curaçao, no Caribe - onde ele mora desde o acidente -, sofre por acreditar que o rapaz é seu irmão. Mas o amor se transforma em ódio quando percebe que ele pretende destruir o haras Altacyr Ferreira. "É tudo muito confuso, é uma mistura de sentimentos que não sei onde vai chegar", despista Thaís.
Além de abordar temas como incesto e paraplegia, a novela terá um núcleo de neonazistas. Encabeçado por Priscila, primeira vilã de Juliana Silveira, o grupo persegue negros, nordestinos, homossexuais e qualquer pessoa que não se enquadre em seus parâmetros. Entre os integrantes estão Paulão, Bárbara e Enzo, interpretados, respectivamente, por Marcos Pitombo, Liege Muller e Raphael Montagner, todos bem nascidos e, à primeira vista, acima de qualquer suspeita. "Ninguém imagina que Priscila seja cruel, que à noite bote uma máscara ninja e vá depredar ônibus, matar nordestino na beira da Rio-Santos. Ela é uma psicopata", explica Juliana.
A história também vai contar com uma trama inusitada: o triângulo amoroso entre os cavalos Vitória, Gregory Segundo e Filho do Vento. A fêmea vem de uma linhagem de cavalos de corrida vencedores e é apaixonada por Filho do Vento, que corresponde a seu amor, apesar de serem rivais nas pistas. Mas Gregory Segundo se interessa por Vitória e vai fazer de tudo para conquistá-la. "É muito difícil escrever para os cavalos. Eles colocam muito 'caco' no texto", brinca a autora.
Para reproduzir a atmosfera elegante da novela, a Record investiu R$ 8 milhões na construção de 45 cenários e da cidade cenográfica. Também ofereceu diversos laboratórios para o elenco, de acordo com os núcleos da novela. Além de palestras sobre nazismo e neonazismo, alguns intérpretes aprenderam noções de montaria, de veterinária e outros, como Ricky Tavares, participaram de aulas de motocross. "Estou começando a gostar e fazer umas aulas de verdade de motocross", empolga-se ele, que interpreta Mossoró, dono do clube de motociclistas de Petrópolis, uma das locações do folhetim.
Diante de uma audiência abaixo do esperado nas últimas novelas, a direção da Record optou por mudar o horário de exibição de suas produções sem aviso prévio algumas vezes. Atitude que não deve acontecer com Vitória, que irá ao ar na mesma hora que a novela das nove da Globo. Depois de mudar tanto de estratégia ao longo dos anos, a emissora parece mais preocupada em agradar ao seu público do que em enfrentar a concorrente.
"Sempre fomos muito criticados por nossas novelas começarem às 22h30. As pessoas não assistiam porque precisavam acordar cedo no dia seguinte. Então, nesse horário, quem gosta do nosso trabalho vai acompanhar", simplifica o diretor de teledramaturgia Anderson Souza, que garante que a Record não estipulou nenhuma meta de audiência para Vitória. "Sempre esperamos mais, lógico que queremos voltar aos dois dígitos, mas não é uma exigência. Se acontecer, vai ser consequência da qualidade do produto", pondera.
Paraíso conturbado
Algumas cenas de Vitória foram gravadas em Curaçao, no Caribe. Lá, equipe e atores do elenco, como Thaís Melchior, Bruno Ferrari e Dado Dolabella, entre outros, ficaram durante 20 dias. "Apesar de todo o apoio que tivemos do local, é um país que não tem tradição em filmagem e em gravação. Tivemos de mostrar que sabíamos fazer televisão. E fizemos muito bem feito", gaba-se Edgard Miranda.
Foi durante a viagem para o Caribe que Dado Dolabella se envolveu em uma briga com um produtor da novela. Diante de uma situação de desconforto nos bastidores, a saída precoce do ator da trama de Cristianne Fridman - e da Record - foi inevitável, o que obrigou a autora a fazer modificações em sua ideia original. "Chegamos no limite. Infelizmente, não deu para continuar com o contrato do ator", admite Anderson Souza.