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No auge, Marcelo Rezende reinventa o jornalismo "mundo cão"

Em seu melhor momento na carreira, apresentador do Cidade Alerta credita sucesso a manifestações pelo Brasil e novo formato do programa: "é um show de variedades"

1 abr 2014 - 09h00
(atualizado às 10h50)
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"Maníaco do Parque me nocauteou", afirma Marcelo Rezende:

As manifestações que se espalharam de forma massiva pelo Brasil em junho do ano passado fizeram muito bem a Marcelo Rezende. Ao vivo, com imagens de passeatas por todo o País, o apresentador viu o Cidade Alerta, programa que voltou a apresentar na TV Record em 2012, quase dobrar a audiência durante suas coberturas. "Corta pro Rio", "corta pra São Paulo", “corta pra Bahia”, "corta pra mim", ordenava à produção de forma exaltada e incessante entre um comentário e outro, boa parte deles elogiados pelo público, que encontrava uma voz dissonante à da imprensa tradicional no entendimento das revoltas da população. "As manifestações foram fundamentais pro meu trabalho, porque a repercussão do que fizemos foi muito positiva", avalia o apresentador, que chegou a assustar em pleno horário nobre a emissora onde passou a maior parte da vida profissional, a Globo. "Eu dizia o que vinha à cabeça, o que me falava o sentimento e foi lindo ver todas aquelas pessoas externando uma sensação de abandono própria de todo brasileiro, ignorado pelo poder público. São essas passeatas que, a meu ver, vão mudar o Brasil."

A entrevista é na sede emissora, no bairro da Barra Funda, zona oeste de São Paulo. A sala de Rezende fica na parte mais ao fundo da redação do programa, um ambiente movimentado, com entra e sai incessante de funcionários, que encontram por ali refresco no ar condicionado em uma quarta-feira com os termômetros batendo na casa dos 35,5ºC, uma das maiores temperaturas já registradas no mês de fevereiro na capital paulista. Apesar da grande importância do jornalista à audiência das tardes do canal, seu ambiente privado é apertado. Cabe, com muito custo, uma mesinha de pouco mais de um metro de largura, com computador disposto do lado direito, e um pequeno sofá de dois lugares. É quase apertado demais para a equipe de três pessoas da reportagem do Terra - repórter, cinegrafista e fotógrafo - e uma assessora da Editora Planeta, responsável pela publicação do primeiro livro do jornalista, intitulado com seu mais famoso bordão, Corta Pra Mim, lançado em novembro. 

<p>Apresentador do 'Cidade Alerta' credita sucesso a manifestações pelo Brasi</p>
Apresentador do 'Cidade Alerta' credita sucesso a manifestações pelo Brasi
Foto: Marcelo Pereira / Terra

Marcelo voltou de férias há apenas dois dias. Viajou à França, onde se afastou dos grandes centros abarrotados de turistas e alugou um carro para passear por cidades mais bucólicas do interior do país. Nelas, admirou a arquitetura histórica, a singularidade das populações e, principalmente, um dos grandes prazeres de seus momentos de folga: o vinho. "Você vê as coisas (violência) todos os dias e evidentemente elas não passam despercebidas dentro de você. Ficam impregnadas, mesmo que você não perceba naquele momento. Então você vai buscando alguns caminhos. E os caminhos que encontrei foram ler, cozinhar, falar de vinho, mentir sobre vinho...", sorri. "Negócio de vinho tem muita mentira... Eu tomo vinho há 30 e tantos anos e vejo uns caras descobrindo cada coisa... Outro dia eu estava num evento onde tinha um monte de 'cara importante'. Aí um deles foi lá e disse que tinha um vinho com gosto de asfalto molhado... Sério mesmo?"

A conversa sobre amenidades dá o tom natural da conversa, mesmo quando em assuntos tão caros a todo brasileiro como segurança pública e política. Assim como se mostra atualmente no ar em um programa cada vez mais focado no humor e menos na indignação, Marcelo aparenta ser um sujeito tranquilo, simpático. Dá abertura, mantém uma constante fala mansa, raramente um pouco exaltada; gosta de brincar e de fazer piada.

Alterna naturalmente o tom frente às câmeras, tendo em vista o volume de tragédias exibidas nas reportagens, mas sempre retorna ao lado mais leve, menos rígido. Comenta com zombaria roupas das repórteres, fala sobre exageros nas maquiagens. Vira e mexe inventa um apelido para um dos colegas. O correspondente do Rio de Janeiro Luiz Bacci, substituto do apresentador durante o período de férias e uma das grandes estrelas da atual versão do programa, por exemplo, ganhou a alcunha de "menino de ouro"; o respeitado jornalista especializado em segurança pública Percival de Souza, "por parecer estar sempre em estado de catatonia", de "morto".

O novo tom é uma mudança brusca do estilo sisudo apresentado por Rezende ao longo de toda a sua carreira, desde os tempos de reportagem investigativa até os períodos de âncora no Linha Direta (Globo), Repórter Cidadão (RedeTV!) e no próprio Cidade Alerta - que já havia comandado entre 2004 e 2005, antes de reassumi-lo dois anos atrás. Mas a característica não foi uma ordem da emissora. A fuga da seriedade, antes vista como inerente a qualquer programa do estilo, é fruto de uma imposição do próprio Marcelo, que, em suas palavras, estava “de saco cheio de não brincar”.

"Quando me chamaram pra voltar ao Cidade Alerta, eu disse que faria só se fosse para ser do jeito que sou no dia a dia. E eu passo a maior parte do meu tempo brincando... Aí, no terceiro dia, um enfartou, outro foi pro hospital: 'isso não vai dar certo! Tá maluco? É notícia de polícia, de manifestação!' Mas eu disse que faria e ponto. O cara vê a notícia ruim, que é a realidade, e depois se diverte. Com a vantagem de ver um morto falando: o Percival", ele brinca. E continua, citando exemplos.

"O Cidade Alerta guinou de um programa policial para um show de variedades. A base é a notícia, mas de repente bota lá o Malloy, nosso carrinho, o helicóptero que desce em 3D. Agora, a gente inventou um robô em que aparece a cara do Percival. É da hora... É divertidíssimo, é divertidíssimo", ele sorri largamente, demonstrando satisfação. "Então tem um lado que é show e outro que é jornalismo. Na hora que tenho que pegar pesado, eu pego, e depois espero uma hora pra dar uma aliviada."

O trabalho de Marcelo na emissora se limita exatamente ao que se vê no ar. Diferente de muitos de seus pares, ele não atua na produção, elaboração de pautas ou edição de reportagens. Diariamente, chega por volta das 14h à Record. Joga conversa fora, coloca os assuntos em dia. Às 15h, 15h30, assiste a uma ou outra matéria a ser exibida, avaliando por cima qual a mais relevante para abrir a atração se nada de mais urgente acontecer. 

Nada disso, no entanto, impede o trabalho de ser exaustivo. Rezende apresenta o programa inteiro em pé, sempre falando de improviso, ao longo de 3h20 quase ininterruptas. Um pouco acima do peso, aos 62 anos, chegou à conclusão de que o atual ofício é mais cansativo do que o de repórter, exercido por décadas, no qual precisava viajar frequentemente de um lugar a outro e fazer tocaias para conseguir encontrar investigados, pistas e flagrantes. "Não deve existir nenhum outro programa de jornalismo diário de 3h20", ele comenta. "Ninguém aguenta! Tem hora que eu saio de lá, penso que é a porta de saída e na verdade estou caindo no poço do elevador, de tão cansado. Meu camarada, o sujeito precisa ter fôlego."

Isso não foi impedimento para assumir um novo ofício, mesmo que "forçadamente". No primeiro semestre do ano passado, o diretor do Cidade Alerta, Clóvis Rabelo, levou uma notícia ao jornalista: acabara de fechar um contrato com uma editora para que Rezende escrevesse um livro. Marcelo inicialmente titubeou. Logo, no entanto, se pôs sobre a escrivaninha para elaborar o trabalho que, em linguagem direta e sem firulas, narra os bastidores de algumas das mais marcantes reportagens de sua carreira - como a investigação sobre o ex-todo-poderoso da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) Ricardo Teixeira e os esforços para conseguir ser o primeiro jornalista a entrevistar Francisco de Assis Pereira, mais conhecido como Maníaco do Parque (condenado por estuprar e matar ao menos seis mulheres em São Paulo, no final da década de 1990). 

Ex-jornalista da Globo relembra "caça" a chefão da CBF:

O trabalho todo, que entre a elaboração, a escrita e a revisão levou quatro meses, acabou dando gosto - Marcelo já tem elaborada a história inteira para um novo livro, desta vez uma ficção policial. E foi um estrondoso sucesso. "Olha aqui", ele estica o braço, mostrando a mão e o pulso lesionados por esforço repetitivo após uma maratona de autógrafos para a divulgação do trabalho que passou por São Paulo (duas vezes), Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Salvador. "Fiz infiltração, coloquei gelo durante as férias, suspendi os lançamentos pra depois do Carnaval... Autógrafo eu estou acostumado a dar, mas não pra três mil pessoas. Era muita gente a cada lançamento: mil, duas mil, três mil... Eu não esperava por isso. Foi muita confusão! Achava que ia lançar um livro, mas aquilo virava um show de rock. Eu imaginava umas 500 pessoas, mas quando via era uma multidão." 

A grande repercussão do livro é amplamente creditada por ele ao formato atual do programa. "É um momento em que o público está mais próximo de mim. Antes, as pessoas tinham respeito, mas achavam que eu iria explodir ou que apareceriam uns caras em volta dando tiro, porque eu sempre estava no meio de confusão. Então houve uma guinada nessa coisa. As pessoas passaram a conhecer mais o meu lado de brincar, e isso mudou muito minha relação com elas."

<p>Diferente de muitos de seus pares, ele não atua na produção, elaboração de pautas ou edição de reportagens, mas nem por isso seu trabalho deixa de ser exaustivo</p>
Diferente de muitos de seus pares, ele não atua na produção, elaboração de pautas ou edição de reportagens, mas nem por isso seu trabalho deixa de ser exaustivo
Foto: Marcelo Pereira / Terra

Nada disso provavelmente teria acontecido, no entanto, se Rezende tivesse mudado seu foco na televisão. Ainda que mais leve, o Cidade Alerta continua sendo um programa do gênero conhecido pela mídia de “mundo cão”, responsável por disseminar na sociedade majoritariamente notícias sobre segurança pública, repercutindo crimes com imagens fortes, entrevistas com familiares de mortos, vítimas e bandidos e fazendo longos apelos por uma evolução dos políticos brasileiros e das autoridades no trato a essas questões. E o apresentador é um ferrenho defensor desse trabalho - do qual também gosta muito.

“Esse tipo de programa que eu faço, que o Datenão faz, a imprensa diz assim: 'mundo cão', 'sensacionalismo'... Mas isso, pra mim, é falta de assunto: a pessoa cria um preconceito e um estereótipo e nem assiste”, ele critica. “Mas esses programas são fundamentais, senão estaria tudo escondido numa materinha de um minuto dos jornais clássicos. Esses programas trazem a verdade das ruas e fazem sucesso justamente porque refletem a vida de todo mundo, das pessoas cada vez mais reféns de si próprias. A gente não precisa mais ser sequestrado; já estamos, mentalmente, em nossos medos. Nossos programas refletem a verdade - e é uma verdade que os governantes não gostariam de ver na televisão.”

Foi essa mesma verdade a base de Rezende para narrar as manifestações ocorridas no meio do ano passado. Subitamente, o povo, representado por dezenas de milhares em marcha pelas principais capitais do Brasil, passou a gritar exigindo por - muito além do não aumento das tarifas de ônibus, estopim para tudo o que aconteceu - segurança, educação, saúde. Atacou a organização da Copa do Mundo no País, os mandos e desmandos políticos, a burocracia dos governos, a corrupção descontrolada. 

<p>Ele alterna naturalmente o tom frente às câmeras, tendo em vista o volume de tragédias exibidas nas reportagens, mas sempre retorna ao lado mais leve, menos rígido</p>
Ele alterna naturalmente o tom frente às câmeras, tendo em vista o volume de tragédias exibidas nas reportagens, mas sempre retorna ao lado mais leve, menos rígido
Foto: Marcelo Pereira / Terra

E as opiniões de muitos jornalistas eram, no entendimento de Rezende, totalmente distorcidas da realidade. “Ficava morrendo de rir com as coisas que ouvia a imprensa falar. Por exemplo, que as manifestações não têm uma proposta única... Que proposta? Isso aqui é um país de ladrão! É uma arruaça! Proposta única é a Seleção Brasileira ganhar a Copa do Mundo!”, ele altera um pouco o tom de voz, sem se exaltar. 

“O Brasil é um país onde o cidadão só tem deveres e não tem direitos. O cofre do Governo esvazia e ele inventa um tributo, um imposto novo. Que proposta única você vai querer nesta esculhambação? A Copa do Mundo, orçada em R$ 2,5 bilhões, já está em quase R$ 9 bilhões e ninguém vai preso. Quem vai pagar a conta somos nós. Aí me explica: eu preciso de Copa do Mundo? Preciso de Copa do Mundo na área da saúde, educação... Esse negocio de que Seleção Brasileira é a pátria de chuteiras é de relinchar e dar coice, de tão idiota. Seleção são 11 caras que vão lá, vestem a camisa e que tenta ser campeã do mundo pra encher o bolso dos mesmos caras. Eu não ganho um tostão, você não ganha um tostão...”

A falta de otimismo em relação ao futuro do País – que chama de realista -, paradoxalmente, não tira de Marcelo a ansiedade pela chegada do evento, cuja abertura ocorre em junho, em São Paulo. Não por alguma vontade de acompanhar pela primeira vez em território nacional a atuação dos melhores jogadores do mundo ou pela chance de voltar a ficar próximo do esporte que foi sua porta de entrada para o jornalismo. Ela é devida, sim, à certeza nutrida por Rezende de que as manifestações - as mesmas que encara como única forma de uma melhora para o Brasil -, vão voltar com tudo a ocupar as principais cidades brasileiras durante a realização do Mundial. 

“É um processo lento. Não vamos vai corrigir um erro de 500 e poucos anos do dia pra noite, mas, sim, com calma, com novas gerações surgindo, com a indignação na alma, que é fundamental”, ele avalia. “Mas a rua vai voltar. O que vimos na Copa das Confederações vai vir mais forte na Copa do Mundo. Pode dar ponto facultativo, ajustar para as facções criminosas pisarem um pouco no freio, mas a revolta das pessoas é muito grande. Se os políticos acham que o evento vai ser um palco de felicidade, do meu ponto de vista vai ser também um palco para externar todo o inconformismo do brasileiro. E, pra ser mais sincero, espero que seja o que aconteça...”

Fonte: Terra
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