Montagner brilharia no papel que recusou em A Lei do Amor
Quando a Globo decidiu adiar A Lei do Amor e produzir Velho Chico na faixa das 21h, Domingos Montagner viveu um dilema.
O ator estava escalado para interpretar o vilão Tião Bezerra quando foi convidado a ser Santo dos Anjos, o herói da trama rural.
Após refletir, ele entrou na sala de Denise Saraceni, diretora artística de A Lei do Amor, e comunicou: "Quero muito trabalhar com você, mas agora preciso fazer Velho Chico".
E assim aconteceu a troca. Montagner embarcou na jornada poética da novela ambientada às margens do Rio São Francisco, local onde morreu afogado, aos 54 anos, em 15 de setembro, a 14 capítulos do fim da saga criada por Benedito Ruy Barbosa e Bruno Luperi.
Sem muitas opções de atores ao mesmo tempo galãs e dramáticos acima dos 50 anos, a Globo fez óbvio: escalar José Mayer. Competente e versátil, o veterano sempre dá conta do recado. Sua performance tem sido correta.
Mas é impossível não vislumbrar o impacto maior que Domingos Montagner provocaria no papel. Tião é um vilão clássico: cultiva feridas emocionais da pobreza, de um amor frustrado, de humilhações públicas e outras frustrações que o tempo se encarregou de inflar.
O personagem criado pelos autores Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari exige ambiguidade, frieza e virilidade. Características que, conexas ou isoladas, Montagner explorou tão bem em tipos como o Capitão Herculano de Cordel Encantado, o presidente Paulo Ventura de O Brado Retumbante e o navegador Miguel de Sete Vidas.
Em seus oito anos de teledramaturgia, o ator interpretou poucos homens urbanos e contemporâneos como Tião. E nenhum deles era tão explicitamente imoral e insensível como o antagonista de A Lei do Amor. Um prato cheio para Montagner surpreender o telespectador, como o fez em cada novo trabalho na TV.
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