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Inspiração de série, médica diz que negaria tratamento com 'House'

27 set 2011 - 22h19
(atualizado em 27/12/2011 às 18h55)
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Nathália Perdomo
Direto do Rio de Janeiro

Quem conhece o Dr. House, o médico mal-humorado da série de TV norte-americana, talvez não imagine que Lisa Sanders, escritora e consultora do programa, seja o oposto do protagonista. Neste domingo (4), a médica e jornalista conversou com o Terra durante a 15ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro e falou da sua visão sobre a série e sua relação com o Dr. House da TV.

"Sentimos uma certa afeição por ele, mesmo sabendo que ele é o médico mais malicioso de todos os tempos. E é por isso que Hugh Laurie é brilhante. Ele tem a capacidade de projetar essa dualidade. Eu não gostaria que o Dr. House fosse meu médico. Ele poderia ser meu amigo ou colega de profissão, mas não meu médico", afirmou a clínica-geral.

Na entrevista, Lisa contou o momento em que decidiu deixar a carreira de jornalista para seguir a medicina, falou de seu envolvimento com a popular série House e disse estar surpresa com a quantidade de pessoas reunidas na Bienal.

Depois da conversa, Lisa participou do Café Literário ao lado do psicanalista Francisco Daudt. Na conversa, cujo tema era "Do sintoma ao drama", ética profissional, tecnologia a favor da medicina e relação entre médico e paciente foram assuntos abordados.

Terra - O que é mais díficil para um médico: descobrir o diagnóstico ou dizer ao paciente o que ele tem?
Lisa Sanders - Às vezes, é difícil descobrir o diagnóstico, mas é divertido. Aliás, é muito mais divertido ser o médico do que a pessoa diagnosticada. Mas, ao mesmo tempo, somos nós que temos que dizer ao paciente o que ele tem. Não que seja difícil dizer, mas é difícil fazer isso da maneira certa. O médico tem que traduzir o que sabe e descobrir as melhores palavras e maneiras para que o paciente entenda. Em alguns casos, o paciente compreende bem e torna o processo menos difícil, mas frequentemente isso não acontece.

Terra - Como professora do curso de medicina da Universidade de Yale, você procura ensinar aos seus alunos como agir com o paciente, principalmente nessa hora difícil de dar o resultado do diagnóstico?
Lisa Sanders - A forma como o médico fala para o paciente o que ele tem causa um tremendo impacto no seu tratamento e na maneira de lidar com a doença. Eu procuro ensinar aos meus alunos e tenho muito interesse em estudar como o médico se comunica com o paciente. Eu costumo acompanhar os residentes até seus pacientes para ver como eles conversam.

Terra - Você gosta do House?

Lisa Sanders - Eu amo House! Quer dizer, a pessoa ou o programa de TV?

Terra - A pessoa...
Lisa Sanders - Ele é arrogante, se irrita facilmente, odeia pacientes e adora diagnósticos - foi assim que o criador da série o descreveu para mim. Quando você analisa seu interior, vê que aquilo é uma espécie de máscara, muito mais complexo do que parece, e acaba querendo protegê-lo. Sentimos uma certa afeição por ele, mesmo sabendo que ele é o médico mais malicioso de todos os tempos. E é por isso que Hugh Laurie é brilhante. Ele tem a capacidade de projetar essa dualidade. Eu não gostaria que o Dr. House fosse meu médico. Ele poderia ser meu amigo ou colega de profissão, mas não meu médico.

Terra - Como surgiu o convite para participar da série House?
Lisa Sanders - Há dez anos comecei a escrever a coluna mensal "Diagnóstico", na New York Times Magazine. House é baseado na minha coluna. Em 2004, depois que fizeram o programa-piloto, o criador da série me ligou para falar de sua ideia e perguntou se eu gostaria de trabalhar com ele. Eu disse que sim, claro!

Terra - Você lançou, em 2009, o livro Todo paciente tem uma história para contar, da editora Zahar. Você pensa em escrever outro livro este ano?
Lisa Sanders - Estou escrevendo um outro livro exatamente sobre essa relação entre médico e paciente. Como contar o diagnóstico ao paciente e o quão importante é esse processo. As palavras de um médico podem fazer com que a medicina funcione melhor, podem aliviar uma dor, é uma ferramenta muito importante. Mas esse próximo livro não será lançado ano que vem. Ainda não tenho previsão.

Terra - Você era jornalista antes de se tornar médica. Como foi essa transição?
Lisa Sanders - Eu produzia um programa de TV nos Estados Unidos e a gente estava filmando uma matéria sobre rafting. Naquele momento, uma mulher desmoronou e o Dr. Bob Arnot correu para salvá-la. Ele fez respiração boca a boca e a trouxe de volta. Aquilo ficou na minha cabeça e me ocorreu que, na televisão, eu jamais salvaria uma vida. Aos 36 anos, deixei meu emprego e fui para a faculdade de medicina, que é, de longe, a profissão mais fascinante. Quando eu acordo pela manhã, mal posso esperar para ir para o trabalho.

Terra - Você já disse em algumas entrevistas que o trabalho do médico é parecido com o do detetive. Você costuma ler muitos livros investigativos? Eles te inspiram?

Lisa Sanders - Eu leio muito Sherlock Holmes. Quando o livro foi escrito, no final do século XIX e início do século XX, não existia teste para confirmar o diagnóstico. E mesmo se existisse, ele não teria tratamento para nada. A penicilina só foi descoberta pouco antes da Segunda Guerra. Caso contrário, ele teria sido médico (risos). Mas as técnicas que o Sherlock Holmes usa para desvendar os crimes são parecidas com as técnicas de um médico ao tentar diagnosticar uma doença. Tanto é que o autor Sir Arthur Conan Doyle era médico.

Terra - Até onde a tecnologia é positiva para a medicina?

Lisa Sanders - A tecnologia nos dá muita informação, mas nós só precisamos da informação correta. Para chegar até ela, temos que pensar em quais testes podem nos ajudar a encontrar o diagnóstico. E a resposta não pode ser 'todos'. Essa informação em excesso fornecida pela tecnologia satura o médico, que, muitas vezes, não encontra o caminho para a cura daquele paciente.

Terra - E até onde vai a ética profissional na tentativa de diagnostica uma doença?
Lisa Sanders - Sei que muita gente deve querer saber isso, mas eu nunca invadi a casa de nenhum paciente (risos). Tivemos o caso de um paciente em que foi preciso pedir para a namorada dele acessar seu computador e pesquisar o histórico. Conseguimos, com isso, descobrir o tipo de droga que ele tinha tomado. Foi uma forma inteligente de se chegar à resposta.

Lisa Sanders
Lisa Sanders
Foto: Nathália Perdomo / Especial para Terra
Fonte: Terra
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