História de fé de Padre Cícero, o ‘Padim Ciço’, vira série na TV Aparecida
Produção sobre o ‘Cearense do Século’ mistura dramatização, animação e documentário
Em agosto de 2022, o Vaticano autorizou o início do processo de beatificação de Cícero Romão Batista, o Padre Cícero. Na ocasião, ele recebeu o título ‘Servo de Deus’, primeiro passo para ser reconhecido como santo.
Eleito ‘O Cearense do Século’ em concurso da TV Verdes Mares, afiliada da Globo em Fortaleza, e um dos ‘100 Maiores Brasileiros de Todos os Tempos’, de acordo com votação promovida por SBT e BBC, o religioso possui milhões de devotos.
Proprietário de terras e profundamente ligado à política local, Cícero se destacou pela caridade: distribuía lotes aos pobres, usava sua influência para pressionar o poder público a socorrer os necessitados e defendia a fauna e a flora da região.
Padre Cícero morreu aos 90 anos em 1934. Estava rompido com a Igreja Católica devido ao polêmico ‘milagre da hóstia’.
Algumas hóstias ofertadas por ele teriam virado sangue na boca de fiéis. Popularmente chamado de ‘Padim Ciço’, o sacerdote foi reconciliado pelo Vaticano em 2015.
Estreia hoje (10), às 22h, na TV Aparecida, a série ‘Cícero’, sobre a vida e a obra dele. Serão 10 episódios de 45 minutos cada, sempre às quartas, com reapresentação às 22h30 de domingo.
Realizada pelas produtoras baianas Têm Dendê e Origem, a série tem um formato híbrido, misturando ficção com atores, ilustrações animadas e depoimentos de romeiros e pesquisadores.
O Sala de TV conversou com o ator Antonio Fábio, que interpreta o protagonista.
Como foi o processo de construção do personagem Padre Cícero?
O processo se deu a partir das leituras de livros escritos sobre a figura de Cícero, o contexto histórico do Nordeste e do País da época em que ele viveu. Foi preciso entender o homem, o político e o homem de fé antes de tentar qualquer coisa para incorporá-lo. A maior dificuldade que encontrei foi a não semelhança física com a figura de Cícero, mas depois compreendi que a intenção não era essa *mimese, e sim a aura do Padre Cícero, suas ações e, sobretudo, a sua fé. Fui seguindo e guiado pelo bom roteiro. E, claro, atento à direção.
(*Mimese: termo crítico e filósofo relacionado à recriação da realidade na obra literária.)
E a experiência com as pessoas nas gravações, vendo você caracterizado na figura de devoção deles?
Quando chegamos para gravar em Juazeiro do Norte, eu caracterizado, foi impressionante a reação das pessoas que estavam ali no Horto e nas redondezas onde fazem romarias de fé. Me lembro da emoção de alguns que se aproximavam com reverência como se o próprio Cícero estivesse ali presente em carne e osso. Emoção mesmo, lágrimas e olhos brilhando ao me ver vestido como o Padim Ciço.
Você tem religião? Esse fator interferiu na atuação?
Não houve interferência de minhas crenças ou de minha fé na composição que fiz de Cícero. O que houve foi respeito pela figura tão importante, de admiração pela inteligência, pela sagacidade e pela fé daquele homem, que além de tudo foi politicamente tão relevante para região, e guardião da fé de tantas mulheres e homens.
O diretor Pola Ribeiro também conversou com o blog a respeito da série.
Como foi a experiência de dirigir esse trabalho sobre a vida de Padre Cícero?
Dirigir e mergulhar profundamente na história de Padre Cícero, a pesquisa, a avaliação, até pensar em um recorte sobre Padre Cícero, foi uma aventura fantástica. Eu já tinha feito esse recorte com Antônio Conselheiro, com Canudos. Mas conseguir retomar essa história da fé popular ligada a Padre Cícero, e principalmente visitar o Cariri (onde fica Juazeiro do Norte) para conhecer as pessoas, foi realmente especial.
O que mais impressionou nas tomadas?
A literatura em torno de Padre Cícero, tanto a de cordel quanto as pesquisas acadêmicas realizadas junto do trabalho da equipe que estava no roteiro e que depois foi para produção, se transformou num processo incrível de conhecimento, de perceber que aquele canto do Brasil em que estávamos gravando, o Cariri, tem uma mensagem importantíssima para dar para o País. Se pensar no Brasil do futuro, tem um DNA ali no Cariri. Então, a experiência de dirigir o projeto de Padre Cícero, inclusive as partes ficcionais, e de tentar tirar uma dramaturgia possível do personagem Padre Cícero, foram experiências bem enriquecedoras.
Como avalia os depoimentos reais dos casos de milagres colhidos para a produção?
O incrível quando se chega ao Cariri, é ver que Padre Cícero está nas pessoas. Tudo é verdade. As pessoas sabem que ele é santo, não há nenhuma dúvida da fé que eles têm. Não há dúvida sobre as falas dele sobre a vida, a ecologia, o meio ambiente, o trabalho, a ética, a religiosidade. É muito vivo! Faz muitos anos que Padre Cícero não está mais encarnado aqui, mas a presença dele é totalmente real nos personagens, nas pessoas que habitam o Cariri, que transitam pela cidade. É algo absolutamente presente, é algo que dialoga com a contemporaneidade, com a economia local, com o desenvolvimento, com a fé. Você vê um Padre Cícero vivo em todo Brasil. Ele está na Sapucaí, nas peças de teatro, e está muito vivo no Cariri.