Eu vi a dor da perda de um filho nos olhos das famílias dos Mamonas Assassinas
Apuração de matéria 3 anos após a morte trágica dos artistas teve momentos de comoção
Ano 1999. Eu era subeditor da revista ‘Contigo’. Recebi a missão de localizar e entrevistar os parentes mais próximos dos Mamonas Assassinas. A morte deles completaria 3 anos.
Sem ter nenhum endereço, fui até a Praça do Cecap (Caixa Estadual de Casas para o Povo), em Guarulhos, onde foi instalada uma estátua de mamona gigante em homenagem aos músicos que saíram dali para o estrelato.
Moradores da área me passaram o endereço da residência dos pais de Sérgio e Samuel. Fiz o que se fazia antigamente: bater palmas diante do portão. Fui atendido com simpatia e me convidaram a entrar.
O quarto dos irmãos permanecia intacto, exatamente como deixaram antes de viajar a Brasília para o último show antes de o jatinho se chocar contra a Serra da Cantareira na volta para casa.
Uma família me forneceu o endereço da outra e assim entrevistei também os pais de Dinho, a avó do Bento e os pais e a irmã de Júlio. Todos me receberam de braços abertos.
Vi a dor do luto em cada rosto, nas palavras, nos relatos. “Sem um filho te apagarás no poente”, escreveu William Shakespeare, ele próprio um pai estraçalhado após enterrar o caçula, Hamnet.
Testemunhei também sorrisos emocionados quando relembraram as alegrias que os ‘meninos’ deram ao Brasil. O acidente fatal completa 30 anos neste 2 de março de 2026.
Os Mamonas Assassinas eram mais do que um grupo musical anarquista com músicas escatológicas: o quinteto tinha a capacidade de reverter a tristeza de quem os via na telinha.
O impacto do grupo na cultura brasileira e na televisão foi avassalador e raro. Em menos de um ano de sucesso nacional, eles transformaram irreverência em fenômeno popular, romperam protocolos em programas de auditório como o ‘Domingão do Faustão’ e o ‘Domingo Legal’, de Gugu Liberato, e devolveram à TV aberta um senso de espontaneidade que parecia perdido.
Eles mostraram que era possível fazer sátira social, brincar com sotaques, estilos e preconceitos sem perder a leveza.
Abriram caminho para uma geração de artistas que entenderam que a televisão também podia ser palco para o absurdo criativo e a mistura de gêneros.
Na carta editorial daquela edição da ‘Contigo’, foi incluída uma foto em que eu apareço ao volante de uma Brasília amarela, símbolo da canção mais famosa deles, ‘Pelados em Santos’.
Eu tinha 21 anos na época. Aquela foi uma das matérias mais tristes que fiz nessas quase três décadas de jornalismo.