Morre ‘a última rainha de Paris’, Jacqueline de Ribes, símbolo de elegância em extinção
Ela nasceu para ser dondoca, mas decidiu ousar e se tornou uma das mulheres mais bem-vestidas de todos os tempos
“Jacqueline de Ribes não era elegante, ela era a própria elegância” escreveu a revista francesa ‘Point de Vue’ ao anunciar a morte no dia 30 de dezembro, aos 96 anos, da condessa que gravou sua imagem na história da moda.
Nascida em Paris, neta de banqueiro, ela manifestou a paixão pela estética aos nove anos, quando pediu para visitar o ateliê do estilista Christian Dior. Pouco depois, sua família ficou refém de alemães nazistas na ocupação da França.
Aos 18, Jacqueline se casou com Edouard de Ribes, filho de conde e alto executivo. A união durou 65 anos, até a morte dele.
No começo da década de 1950, a jovem sofisticada que chamava a atenção nos salões parisienses passou a ser notada por editoras de revistas e fotógrafos celebrados.
Posou para as lentes de Robert Doisneau e Richard Avedon, que souberam valorizar a magreza e o nariz adunco. Não era explicitamente bela, porém, ganhava ares de esfinge.
Em 1985, Jacqueline lançou sua própria marca de roupas, incentivada por amigos costureiros, a exemplo de Yves Saint Laurent, Pierre Bergé e Emanuel Ungaro.
Sua elegância impressionou Valentino Garavani, que a definiu como “a última rainha de Paris”. Foi eleita a mulher mais bem-vestida do mundo em votação aberta. Jean-Paul Gaultier criou uma coleção de alta-costura inspirada nela, ‘Divine Jacqueline’.
Igualmente admirada nos Estados Unidos, ela ganhou uma exposição no Costume Institute do Metropolitan Museum de Nova York. Na época, seu rosto foi projetado na fachada do Empire State Building.
Jacqueline de Ribes usou a fama e a influência para arrecadar fundos para várias causas sociais, como cuidados com crianças doentes, tratamento de pacientes de câncer e manutenção de hospitais públicos. Foi também colunista da revista ‘Marie Claire’ e produtora de espetáculos teatrais.
Adeus ao Grand Monde
A morte de Jacqueline de Ribes representa a quase extinção da elegância clássica e dos grandes nomes da alta sociedade europeia, associados ao status aristocrático e ao poder de influência.
Hoje, a moda sobrevive graças ao ‘fast fashion’ divulgado por influenciadoras digitais, muitas vezes mais comprometidas com engajamento e metas comerciais do que com referências históricas e identidade própria.
A alta-costura ainda fascina, mas agoniza. Aliás, há cada vez menos festas onde se pode usar longo e smoking. Os grandes eventos (verdadeiros rituais) foram substituídos por celebrações pensadas para a fotografia instantânea, não para a memória.
As pessoas refinadas e cultas estão ofuscadas por gente que faz da ostentação e da quebra voluntária da privacidade um estilo de vida.
O prestígio social deixou de ser construído ao longo do tempo e passou a ser medido em número de seguidores e viralização.
A imprensa de moda, que ajudou a consagrar Jacqueline de Ribes, também mudou de papel. Revistas que antes formavam o olhar, educavam o gosto e narravam o futuro da moda, hoje lutam para sobreviver em meio aos ‘looks do dia’ e outros conteúdos descartáveis.
Em seu quase um século de vida, a condessa viu o mundo mudar — em variados aspectos, não foi para melhor.