"É um homem hipócrita", diz Antonio Fagundes sobre César, de 'Amor à Vida'
Os vilões sempre tiveram função importante dentro dos folhetins. São eles que conduzem a trama e atrapalham o desfecho apaixonado do casal de protagonistas. No entanto, telenovelas recentes têm mostrado que o principal antagonista pode ir além da simples crueldade ou do drama exagerado. Os desfechos para quem pratica vilanias podem até ser sempre os mesmos: redenção, morte, prisão ou loucura. Mas a repercussão de tipos maquiavélicos junto ao público acaba levando os autores a abusarem da criatividade entre uma maldade e outra.
"O público se identifica com o vilão porque ele tem coragem de ir lá e fazer o que todo mundo gostaria. Existe um lado vil em cada um e nem por isso as pessoas agem de forma agressiva o tempo todo. Então, é possível ser engraçado, espirituoso e cometer atrocidades. Sempre coloquei ambiguidades nos vilões das minhas tramas", confessa Walcyr Carrasco, autor de Amor à Vida.
Inicialmente, parecia que o principal vilão da atual novela das 21h seria o afetado Félix (Mateus Solano). No entanto, no decorrer dos capítulos fica evidente que o personagem é apenas um subproduto de César (Antonio Fagundes), o pai que nunca lhe deu a devida atenção e mente por trás dos maiores segredos da trama. "Juro que eu não sabia que meu personagem seria tão do mal e tão do bem ao mesmo tempo. É um homem hipócrita, que sempre se justifica em seu moralismo", analisou Fagundes.
A impressão que se tem é que parece que existe um vilão para puro entretenimento, já que coube a Félix os momentos mais engraçados da trama, com direito até a bordões repetidos exaustivamente – como "eu salguei a santa ceia". E, enquanto isso, paralelamente, um outro vilão, mais sisudo, faz a trama acontecer.
A tática do vilão substituto de Amor à Vida acontece em muitas novelas. E, recentemente, foi uma das alternativas para Avenida Brasil. Na trama, Carminha (Adriana Esteves), concentrou a novela em torno de suas maldades para depois justificá-las com histórias traumáticas de infância, tudo por conta da cabeça diabólica de seu pai, Santiago (Juca de Oliveira). "Me surpreendi com a repercussão. Ela fazia coisas horríveis e foi abraçada pela massa. Carminha era fruto de seus traumas e era muito divertida, acho que foi isso que a aproximou do público", opinou Adriana.
O mesmo esquema de dois vilões a serviço da trama ocorrerá em Joia Rara, próxima novela das 18h da TV Globo. Na trama de Thelma Guedes e Duca Rachid, o malvado Ernest (José de Abreu) é o vilão por trás das maldades de seu filho bastardo, Manfred (Carmo Dalla Vecchia), cuja maior ambição sempre foi conquistar o carinho do pai.
Segundo Duca, a alta popularidade dos que praticam a maldade dentro das tramas depende da humanização e da construção dos atores para terem o efeito desejado. "Ninguém é tão monocromático. Todo mundo se divide entre maldades e bondades. E é por isso que os vilões não são mais tão odiados como antigamente", acredita Duca.
Na contramão de vilões ambíguos e com posturas que refletem seus traumas, o remake de Dona Xepa, da TV Record, reflete bem a função mais tradicional deste tipo de personagem dentro da trama. Rosália (Thais Fersoza) tem sua maldade justificada apenas por sua ambição. Com poucas nuances, ela faz de tudo para ter o que quer. "Rosália é do tipo que não se arrepende. É a primeira vez que encarno alguém tão má e estou adorando. A vilania é excelente para a atuação, basta encontrar um caminho crível para isso", explica Fersoza.
Identidades confusas
Vilões capazes de amar e fazer bem ao próximo e mocinhos dignos das piores atitudes. Valores invertidos e de caráter mais realista tomam conta da teledramaturgia brasileira. "A dualidade dos antagonistas tirou até os mocinhos da zona de conforto do maniqueísmo", acredita Thelma Guedes, uma das responsáveis pelo texto de Joia Rara.
Na próxima novela das 18h, o mocinho Franz (Bruno Gagliasso) terá suas porções de maldades e fraquezas. Algo que lembra a postura de Nina, a justiceira de Avenida Brasil, interpretada por Débora Falabella. Ou, indo mais a fundo, a destemida Márcia (Malu Mader), em O Dono do Mundo, de 1991. Na trama, a mocinha virginal é seduzida pelo inescrupuloso Felipe Barreto (Antonio Fagundes). E, depois de descobrir as armações do vilão, parte em busca de vingança. "Acho que a Marcia seria melhor compreendida hoje em dia", analisa o autor Gilberto Braga.
Em Sangue Bom, atual novela das 19h, a it girl de atitudes pouco ortodoxas Amora (Sophie Charlotte) foi colocando suas vilanias para fora aos olhos do público. No entanto, a intérprete ainda acredita que sua personagem não seja uma vilã, mas sim um reflexo de suas experiências. "O grande problema da Amora é que ela não consegue olhar para o outro. Na teledramaturgia, normalmente, essa é uma das características dos vilões. Mas não é maldade, é mais defesa", ressalta.
Instantâneas
# Muitas vilãs amenizam seu discurso e suas atitudes com altas doses de ironia, humor e bordões. Casos de Altiva, personagem de Eva Wilma em A Indomada e seu "oxente, my god!", e de Nazaré (Renata Sorrah) em Senhora do Destino, ambas novelas assinadas por Aguinaldo Silva.
# Antes de Carminha, de Avenida Brasil, o autor João Emanuel Carneiro já havia sentido o poder das vilãs com Flora, personagem de Patrícia Pillar em A Favorita.
# João Emanuel, inclusive, parece ter uma fixação por vilãs louras. Além das antagonistas de Avenida Brasil e A Favorita, Bárbara, interpretada por Giovanna Antonelli em Da Cor do Pecado, e Leona, papel de Carolina Dieckmann em Cobras & Lagartos, também exibiam visual platinado. "Acho que o tom mais claro é um contraponto para as maldades feitas pelas personagens", acredita o autor.
# Conhecido por inúmeros mocinhos desde que estreou na TV, Mateus Solano ainda se surpreende com a popularidade de Félix, de Amor à Vida, nas ruas. "Me param e ficam repetindo os bordões. Além disso, é impressionante o sucesso do personagem com as crianças", empolga-se o ator.