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Demitido, único autor ainda vivo de ‘Vale Tudo’ deveria escrever remake da novela

Nova versão de clássico da teledramaturgia só se justifica se a Globo mantiver o politicamente incorreto do texto original

27 fev 2024 - 11h05
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A Globo pretender produzir o remake de ‘Vale Tudo’ em 2025, ano em que o canal completará 60 anos. Exibida entre maio de 1988 e janeiro de 1989, a novela ofereceu teledramaturgia de qualidade e crítica social talhante. 

Tornou-se um clássico que gera saudosismo nos telespectadores mais velhos e curiosidade nas novas gerações ao assistir a trechos postados em redes sociais como o TikTok. 

Com escassez de autores experientes após a demissão, aposentadoria ou morte de veteranos da escrita, a Globo aposta nos remakes – como os de ‘Pantanal’ e ‘Renascer’ – para reverter a perda vertiginosa de audiência desde 2019, quando marcou média geral de 36 pontos com ‘A Dona do Pedaço’, de Walcyr Carrasco. 

Desde então, as produções das 21h encontram dificuldade para cumprir a meta de 30 pontos. Algumas não chegaram nem aos 25. Viva na memória popular, ‘Vale Tudo’ pode provocar euforia suficiente para atrair mais gente para a TV aberta, alvo da concorrência da dramaturgia de canais pagos e plataformas de streaming. 

O remake da trama de Raquel (Regina Duarte), Maria de Fátima (Gloria Pires) e Odete Roitman (Beatriz Segall) só se justifica se a Globo mantiver a ousadia do texto original, com falas politicamente incorretas e críticas irônicas sobre o povo brasileiro. Suavizar os diálogos para agradar à patrulha das regras seria um crime contra a obra-prima dos folhetins. 

O autor ideal para atualizar ‘Vale Tudo’ é Aguinaldo Silva. Ele escreveu a novela com Gilberto Braga, falecido aos 75 anos em 2021, e Leonor Bassères, que morreu com 77 em 2004. Possui destemor para questionar a sociedade tradicional e talento para a comédia ácida. Deixou sua marca em trabalhos memoráveis como ‘Roque Santeiro’, ‘Tieta’, ‘Senhora do Destino’ e ‘Fina Estampa’. 

‘Vale Tudo’ precisa ser reescrita por alguém com coragem de incomodar os conservadores, cutucar a passividade da maioria dos brasileiros e contrabalancear a militância equivocada que enfraquece algumas causas ao invés de fortalecê-las. Aos 80 anos, com a cabeça a mil, Aguinaldo cumpriria a missão sem titubear. 

O autor foi dispensado pela Globo em 2020, após quatro décadas na emissora. O mau desempenho no Ibope de ‘O Sétimo Guardião’ e a acusação de plágio ecoada na imprensa geraram a munição que seus desafetos internos precisavam para não renovar o contrato. Perda relevante a um canal que já não conta mais com Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa, Lauro César Muniz e outros mestres da arte de criar telenovelas. 

Por vezes, surgem rumores de possível retorno de Aguinaldo Silva à antiga casa, onde ganhou dois prêmios Emmy Internacional. Saboreando a vida em Lisboa, o artista dos roteiros usou o X (antigo Twitter) para negar qualquer negociação. Pensando bem, da maneira que o tratou, a Globo nem merece tê-lo de volta.

O trio que parou o Brasil em 1988-1989: Maria de Fátima (Gloria Pires), Odete Roitman (Beatriz Segall) e Raquel (Regina Duarte)
O trio que parou o Brasil em 1988-1989: Maria de Fátima (Gloria Pires), Odete Roitman (Beatriz Segall) e Raquel (Regina Duarte)
Foto: Reprodução
Os três autores em vinheta ao final do último capítulo de 'Vale Tudo', em janeiro de 1989, e Aguinaldo Silva atualmente, aos 80 anos
Os três autores em vinheta ao final do último capítulo de 'Vale Tudo', em janeiro de 1989, e Aguinaldo Silva atualmente, aos 80 anos
Foto: Reproduções
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