Dalton Vigh se sobressai na reta final de 'Negócio da China'
De seu ostensivo 1,92 m de altura, Dalton Vigh tenta camuflar uma insistente timidez. É sucinto em sua fala baixa e pausada ao dissecar os 14 anos de carreira na TV.
Apesar de já contar com 13 tramas no currículo, foi apenas no ano passado, por baixo dos impecáveis ternos do tirânico Marconi Ferraço, em Duas Caras, que Dalton mudou de patamar na Globo. Não que seu vilão Clóvis, em O Profeta, ou mesmo o simpático Said, de O Clone, não tenham dado destaque à carreira deste carioca de 44 anos.
Mas Ferraço lançou um holofote sobre Dalton, capaz de recomendá-lo como o ator para substituir Fábio Assunção como o mocinho na reta final de Negócio da China.
Para amenizar a imagem nociva de seus personagens anteriores, o ator teve um curto espaço de tempo para moldar uma personalidade tranqüila para o Otávio, o médico boa-praça, que entra na história de Miguel Falabella para disputar a atenção da bela Lívia, de Grazi Massafera.
"Pena que não temos tempo para criar tantas histórias com o Otávio. Mas, sinceramente, acho que ele não acaba com a Lívia, mas com a Celeste, da Juliana Didone. Estou esperando por isso", admite Dalton, num raro momento de descontração.
Como você reagiu ao ser chamado para entrar rapidamente em Negócio da China?
Fiquei muito surpreso. Não estava contando com um convite tão inesperado. Mas me animei bastante porque nunca havia trabalhado com o Miguel Falabella. Já conhecia o trabalho do diretor de núcleo, que é o Roberto Talma, e também queria fazer alguma coisa há tempos com o Maurinho (Mendonça, diretor da trama). Foi bacana, uma surpresa agradável. O problema é que, como fui chamado muito de última hora, não tive tempo de fazer uma composição, uma pesquisa mais aprofundada para o Otávio. Foi no susto. O Miguel simplesmente me falou algumas coisas sobre o personagem.
Foi um tiro no escuro entrar numa história sem algum preparo?
Não tinha como ser diferente. Mas me inspirei na figura de alguns médicos que conheço. Meu ponto de partida e única referência foi meu clínico geral, que também é cardiologista. Esse médico é um cara conceituado, renomado, mas age como uma pessoa simples, é bem-humorado. As pessoas normalmente têm uma imagem errada e acham que um profissional sério e compenetrado é sisudo, sério também na vida pessoal. Mas resolvi deixar o Otávio mais gente boa, um cara que sabe fazer piada, brincar com as pessoas, assim como meu médico. Ele vê a vida com bons olhos, mesmo depois de ter perdido o filho e sido abandonado pela mulher. Mas ainda tem alegria. Envolve-se com a Lívia porque se comove com a doença do filho dela.
Quando você acabou de viver o Clóvis, em O Profeta, disse que não queria um vilão tão cedo, mas apareceu o Ferraço. O fato de agora ter sido chamado para um mocinho e dar esse tempo nos malvados foi o que mais o motivou?
Quando estava acabando de gravar O Profeta, o Talma me falou: "Chega de fazer vilão depois do Clóvis!" Quando pintou o Ferraço, queimei a língua porque era um personagem maravilhoso, foi o papel mais marcante na minha carreira. Ele tinha uma história. Era um personagem tridimensional, não era só o vilão e ponto final.
Tinha um porque em suas maldades, teve uma trajetória contada na história, o fato dele ter sido vendido pelo pai, a dor dele ser posto para fora de casa e como ele se transformou naquela pessoa. Depois ele tenta se redimir. Tinha uma coisa bacana, foi muito bem desenhado pelo Aguinaldo Silva. Era um personagem muito sério, agora é um respiro fazer um cara legal, bem-humorado.
Mas Negócio da China está com uma das audiências mais baixas do horário, 20 pontos de média. Isso deixou você receoso em algum momento?
Não, imagina! Isso não diz nada para mim. O que conta é o personagem, o trabalho em si. Para mim, essa profissão é meio que uma brincadeira, um grande faz-de-conta. É muito prazeroso poder interpretar um personagem, ainda mais numa situação onde você é pego de surpresa, quando cai de paraquedas. Isso dá uma adrenalina a mais. Em nenhum momento fiquei melindrado com a audiência.
Não achei que seria um rabo de foguete. É óbvio que quando a gente está tendo uma audiência boa, todos ficam felizes porque todo mundo está gostando do trabalho. Agora, nessa situação, nunca pensei que a minha entrada até pudesse levantar a audiência. Fui para fazer o possível dentro daquele personagem. A audiência para mim é indiferente. Recebo o mesmo salário com audiência boa ou ruim. Isso é uma discussão de outra esfera.
Por ser uma brincadeira a atuação, você costuma dizer que não levava a sério ser ator. Como desistiu da faculdade de Publicidade e de dar aulas de inglês para mudar de carreira?
Nunca achei que pudesse ganhar dinheiro como ator e que eu conseguisse entrar no mercado. Era mais uma relação de paixão mesmo. Quando estava no final do curso de Publicidade (estudou na Faculdade Metodista de São Bernardo, em São Paulo), entrei em crise porque não era aquilo que eu queria. Não estava tendo prazer com essa carreira. Um dia, em casa, resolvi fazer um curso de Teatro e me convenci de que seria uma terapia. Quando iniciei o curso, começaram a pintar trabalhos. Eu tinha uns 25 anos e fui fazer aulas no Teatro Escola Célia Helena, em São Paulo. Logo me chamaram para atuar em comerciais. Antes de acabar o curso de interpretação me chamaram para uma peça e, depois disso, comecei na Manchete.
Você já atuou em várias emissoras, como a Manchete, Record, SBT e até a TV Cultura. Que diferencial isso traz para você como ator?
Me trouxe jogo de cintura para saber as limitações de cada empresa, principalmente quando você trabalha em outras emissoras que não têm a mesma estrutura da Globo. Isso me fez ver com outros olhos o que acontece na Globo. Para mim foi ótimo porque tive o tempo de aprender, de me preparar, de entender como era fazer uma novela. Tive a sorte de pegar o (Walter) Avancini logo no primeiro trabalho, que me ensinou muita coisa em Tocaia Grande, na Manchete. Quando vim para a Globo, não senti a pressão de entrar na emissora número um do Brasil. Entrei com uma bagagenzinha.
Os atores que começam suas carreiras pelas mãos do Avancini costumam sempre se referir ao início. Que lembranças você traz desse período da Manchete, estreando com o personagem Venturinha?
O Venturinha foi um xodó. Acho que não existem mais diretores como o Avancini. Essa figura do homem de televisão como ele, o Herval Rossano, o Daniel Filho, que têm uma postura controladora e que alteram o capítulo, não existem mais na TV. Hoje em dia, a forma de se trabalhar na Globo é muito diferente. Tenho saudades de alguns momentos, de pessoas com quem trabalhei. Sou meio saudosista em tudo.
Lembro com muito carinho desse início, do quanto foi bom ter começado com ele. Depois disso, comecei a fazer papéis mais sérios, mais sisudos.
Várias vezes você disse que se sentia estereotipado por quase sempre fazer personagens engravatados, que combinavam com seu tipo físico. No entanto, já atuou em tipos diversos, como um frade, um caubói e um inquisidor. Você ainda sente limitações na carreira?
O problema é como as pessoas enxergam você. Aprendi a conviver com meu 1,92 m sabendo que não tenho um biotipo brasileiro. Sei que o meu tipo físico vai me limitar para alguns personagens.
Ok, isso acaba sendo para todo mundo. Mas sempre tem uns malucos que olham para você é dizem: "Ah, mas você seria ideal para tal papel". Isso é bom. O bacana da minha carreira é poder enveredar por caminhos diferentes e, sempre que possível, vou tentar fazer com que isso aconteça. Adoro trabalhar com caracterização, por exemplo, que foi o caso do Adalberto em "Duas Caras". Nunca tinha trabalhado com maquiagem que mudasse o rosto. Era chato ficar duas horas parado, dormindo na cadeira de maquiagem. O bom dessa profissão é poder ser várias pessoas. Adoraria interpretar o Hommer Simpson, por exemplo.
Sem disfarces
A voz empostada de Dalton Vigh rendeu frutos na carreira do ator. Em 1998, o ator apresentava toda a programação do canal por assinatura People+Arts em Miami. Volta e meia viajava para os Estados Unidos para gravar as chamadas e vinhetas dos programas do canal. Ao saber dessa experiência de Dalton, a direção da Record fez um convite quando o ator menos esperava. Ele foi chamado para comandar o programa Top TV.
A produção, que foi ao ar em 2000 na emissora ¿ um ano antes de Dalton ficar conhecido como ator como o Said de O Clone -, foi criada para homenagear os 50 anos da televisão brasileira. O "game" era disputado por estudantes de Comunicação, que se enfrentavam em gincanas temáticas sobre emissoras de TV. "Era uma idéia interessante. Pena que durou uns seis meses. Logo a Record resolveu voltar a produzir novelas e me chamou para fazer 'Vidas Cruzadas'", lembra.
Apesar de não ter se identificado tanto com a função de apresentador, alegando sua indisfarçável timidez, Dalton não descarta a hipótese de um dia voltar a apresentar algum programa. "Olha, se pagarem bem, eu vou. Mas gosto mesmo é de ser ator. Como apresentador você tem a responsabilidade de ser você, não posso viver um personagem", avalia.
Ritmo intenso
Entre uma novela e outra, Dalton Vigh assegura que nunca fica com suas longas pernas para o ar. Aficionado pela carreira, o ator está ansioso com a estréia do longa Corpos Celestes, que filmou em 2005, e só agora está previsto para estrear no cinema. A produção conta com a direção de Marcos Jorge, que se destacou recentemente no cinema nacional com Estômago.
Além dessa estréia, Dalton já começou a leitura da peça Noite de Reis, de Shakespeare, com direção de Amir Haddad. "Essa é a peça que mais me deu vontade de fazer nos últimos anos. Espero que tenhamos patrocínio", torce.
Trajetória Televisiva
# Tocaia Grande (Manchete, 1995) - Venturinha.
# Xica da Silva (Manchete, 1996) - Frei Inquisitor Expedito.
# Os Ossos do Barão (SBT, 1997) - Luigi.
# Estrela de Fogo (Record, 1998) - Fernão.
# Pérola Negra (SBT, 1998) - Tomás.
# Andando nas Nuvens (Globo, 1999) - Cícero.
# Top TV (Record, 2000) - Apresentador.
# Vidas Cruzadas (Record, 2000) - Lucas.
# O Clone (Globo, 2001) - Said.
# A Casa das Sete Mulheres (Globo, 2003) - Luigi.
# Malhação (Globo, 2004) - Professor Oscar.
# Começar de Novo (Globo, 2005) - Johnny.
# O Profeta (Globo, 2006) - Clóvis.
# Duas Caras (Globo, 2007) - Marconi Ferraço.
# Negócio da China (Globo, 2008) - Otávio.