Christiane Torloni emociona com atuação sensível e poética em Velho Chico
A gargalhada de Christiane Torloni é inconfundível. Especialmente quando interpreta vilãs. E a atriz tem muitas no currículo. A mais recente foi Tereza Cristina, a 'rainha do Nilo' de Fina Estampa, novela exibida em 2011.
Agora, em 'Velho Chico', ela trocou o riso maquiavélico pelas lágrimas e o olhar triste e piedoso. Sua personagem, Iolanda, sofre em intensidade múltipla: por ser infeliz e testemunhar, quase impotente, a infelicidade de quem ama.
A cantora busca consolo e esperança no esoterismo e na fé. Lê o destino nas linhas das mãos e faz orações vibrantes. Nessa hora até surge um sorriso e uma ponta de esperança.
Em cena recente, Iolanda fez uma prece a Santa Sara Kali, padroeira dos ciganos e protetora dos humilhados, desesperados e exilados. A personagem se encontra em todas essas situações dramáticas.
A humilhação vem do marido, o irascível Coronel Afrânio (Antônio Fagundes), incapaz de enxergar as qualidades da mulher ao seu lado. O desespero é consequência da ruína da família - o desamor prevalece entre os Sá Ribeiro.
E o exílio é, na verdade, um autoexílio. Iolanda recolheu-se emocionalmente para suportar uma vida melancólica, na qual seu papel subalterno a sufoca, e seu desejo de liberdade parece claudicante se comparado à brutal força machista que a reprime.
Quase sempre escalada para viver mulheres expansivas, Christiane Torloni dessa vez mostra a grandiosidade de uma atuação contida, na qual o olhar é mais importante do que o gesto; e a mensagem nem sempre está explícita no texto e na eloquência, e sim camuflada nas intenções discretas da personagem. Muitas vezes, o silêncio e a omissão dizem tudo.
Impossível não destacar também a boa forma da atriz, 59 anos completados em fevereiro. Símbolo de beleza e sensualidade - posou nua três vezes para a revista 'Playboy' nos anos 1980 -, ela tem resistido ao modismo das plásticas deformantes e dos tratamentos estéticos invasivos que já tiraram a expressividade de muitas colegas de profissão.
Christiane Torloni continua cheia de entusiasmo e energia como na época em que viveu a espevitada Jô de 'A Gata Comeu' (1984), a sarcástica Fernanda da segunda versão de 'Selva de Pedra' (1986), a passional Diná de 'A Viagem' (1994) e a altruísta Helena de 'Mulheres Apaixonadas' (2003), entre outras personagens marcantes em seus 47 anos de carreira na televisão.
Independentemente do desfecho de 'Velho Chico', Iolanda já ganhou posição de destaque nessa galeria de tipos e na memória dos noveleiros. Com a personagem, Torloni se reafirma como diva. Não no sentido glamouroso do termo, e sim no significado de grande atriz, hábil em provocar emoção genuína no telespectador quase impassível dos tempos atuais.