Carolina Ferraz emplaca 3º remake de Janete Clair em 'O Astro'
- Caio Márcio
Quando a escritora Janete Clair morreu, em 1983, Carolina Ferraz, então com 15 anos, sequer sonhava com uma carreira de atriz. Mas agora, aos 43, seu discurso parece mostrar que as heroínas da eterna "maga das oito" se encaixam perfeitamente em suas aspirações artísticas. Como, por exemplo, a batalhadora e romântica Amanda de O Astro.
Quando a novela original foi ao ar, em 1977, Carolina tinha apenas 9 anos. Mas, para ela, que também protagonizou o "remake" de Pecado Capital e o Férias Sem Volta, ambos assinados por Janete, a sensação é de que a personagem "acabou de sair do forno".
"A Amanda tem um lado muito atual. Ela enfrenta vários problemas com o pai, abre mão da carreira para salvar os negócios da família e tem uma relação muito bacana com a irmã. São questões que a gente vê demais hoje por aí. É uma mocinha extremamente contemporânea", analisa Carolina, que aparecerá em cenas mais ousadas ao lado de Rodrigo Lombardi, intérprete do misterioso Herculano Quintanilha, seu par na trama.
Sendo exibida às 23h, a minissérie tem uma abertura maior para cenas sensuais que, se transmitidas mais cedo, poderiam ser vetadas. Um detalhe que é, inclusive, valorizado pela atriz. "O politicamente correto atrapalha muito qualquer expressão artística. Não tem como mudar muito isso. A gente está aqui para ser subversivo e encontrar soluções. Mas 'O Astro' não é sobre isso e as cenas são elegantes. Dessa forma, se transformam em um atrativo a mais", valoriza.
Confira a entrevista e a trajetória da atriz a seguir:
TV Press - Você se lembra de ter assistido à novela O Astro na época em que ela foi exibida?
Carolina Ferraz - Não vi muita coisa. Eu tinha uns 9 anos, era bem pequena. Mas lembro das referências, como o turbante do Francisco Cuoco, aquela pedra ametista, a própria abertura da novela. Só que não chega a ser uma imagem clara na mente, são flashes que aparecem e somem. E também me recordo da Dina Sfat nesse período, mas é algo bem vago mesmo. Na hora em que a novela passava, eu já estava na cama!
TV Press - Chegou a procurar material da época para sua construção de personagem?
Carolina - Não, eu preferi não pesquisar e nem ver nada. E foi melhor assim. Até porque as pessoas que decidiram correr atrás desse material não acharam tantas coisas.
TV Press - O que você usou como referência na construção desse personagem?
Carolina - A gente teve a sorte de receber 12 capítulos com um mês de antecedência. E isso foi bem legal. Tivemos várias leituras de núcleo também, incluindo trabalhos com grupos diferentes. Foi um processo importante até para entender o tom dos outros personagens, ver quem estava fazendo o que e de que jeito. A partir daí, foi deixar a Amanda chegar e tomar conta de mim. Mas eu li muito os capítulos. Gosto disso. Às vezes, em novela, é complicado trabalhar desse jeito porque chega uma hora em que você está gravando demais e não consegue mais ler tudo, se prende ao que é seu e mal dá tempo para isso. Aqui as coisas são diferentes.
TV Press - Essa é a terceira vez que você atua em um texto adaptado do original da Janete Clair. Como lida com a forma dela contar as histórias?
Carolina - A Janete Clair construía personagens muito humanizados. O próprio Herculano, personagem do Rodrigo Lombardi, é um exemplo. Ele deu um golpe na cidade, é verdade, mas foi traído. A intenção dele era fazer o que vários outros já fizeram, infelizmente. Mas se deu mal porque tinha um parceiro ainda mais canalha que ele. A Amanda tem as questões da família: apesar de ser arquiteta, fica à frente da empresa para não deixar o patrimônio se perder. Ela é uma heroína muito moderna, mesmo sem ter sido escrita agora. Sei que sou suspeita, mas assino embaixo do texto. Acho que a Janete consegue ser contemporânea mesmo tendo partido há quase 30 anos. E esse casal, Amanda e Herculano, tem uma particularidade diferente em sua união que eu acho bem bacana, que me ajuda demais.
TV Press - Qual particularidade?
Carolina - É um casal que namora mesmo. Não tem aquela coisa dos dois ficarem juntos, a relação se estabelecer e, depois, acontecer algo, separando-os. E para eles só se acertarem no final. Não, em O Astro é uma relação de amor mesmo. O tempo todo eles estão juntos. Eles têm crises, brigam, mas se amam e ficam juntos. Desde Milena e Nando, em Por Amor, que eu não vivo uma experiência como essa. De interpretar alguém que namora sem essa coisa de "a gente se ama, mas nossas famílias não se entendem".
TV Press - O Astro chega com um formato de 60 capítulos, tamanho de minissérie, mas com estrutura de novela. Isso favorece o seu trabalho?Carolina - Nesse esquema de 60 capítulos, a gente pode imprimir uma densidade muito maior. Quando é uma novela, você não consegue ler todo o capítulo. Chega uma hora em que o volume de cena é muito grande. Se o seu personagem é importante, então, nem se fala. Aqui, tudo está amarrado, a serviço de uma função dramatúrgica dentro da história. Isso a Janete conseguia fazer bem, e o Geraldo Carneiro e o Alcides Nogueira estão mantendo.
TV Press - Você citou a Milena, de Por Amor, novela que foi reprisada recentemente. Você a considera sua grande personagem na tevê?
Carolina - Citei a Milena porque ela e o Nando formaram um casal que namorou a novela inteira. As pessoas sentem falta de relações assim no ar. São personagens como a Milena que tornam as histórias mais realistas. E fez muito sucesso, isso é inegável. Mas não sei qual foi o papel que mais me marcou. Outro dia, eu estava conversando com um grande ator e ele me questionou quantas novelas eu lembrava que ele tinha feito. Na lata, me veio umas seis na cabeça. A vida é assim, vamos lembrar de uns dois trabalhos por década. É claro que tenho um carinho especial por alguns, mas é algo pessoal. Como, por exemplo, a Rubi, em Kubanacan. Sinto uma gratidão enorme pelo Carlos Lombardi, que foi o cara que viu meu humor e disse que eu tinha de fazer comédia. Em Por Amor, por outro lado, foi a primeira vez em que me "casei" com um autor. Rolou, ali, uma comunhão muito prazerosa com o Manoel Carlos. A Norma, que fiz em minha última novela, Beleza Pura, me surpreendeu pelo alcance. Outro dia, vi um site no Japão em que japonesinhas tentam falar "eu sou rica", por causa de uma cena que foi parar na internet (em que Norma, sua personagem, afirma que não será presa, mesmo sendo uma criminosa, pois tem dinheiro).
TV Press - Você se surpreendeu com a repercussão dessa sequência?
Carolina - O que eu acho mais surpreendente é que essa cena foi postada no Youtube porque aparecia uma câmera em cena. Não tem nada a ver com o texto, com o "eu sou rica". Mas acabou pegando. E descobri de uma forma completamente inusitada. Por conta de um filme que estou fazendo, fiz entrevistas com dezenas de travestis. E, durante uma delas, um celular tocou e o ringtone era "Eu Sou Rica". A dona do aparelho me perguntou se eu não estava me reconhecendo e não entendi nada. Aí ela me explicou o que estava acontecendo na internet.
TV Press - Além da novela, você também trabalha em um programa para o canal GNT. Quando ele deve estrear?
Carolina - Agora, no segundo semestre. Em novembro, a Globosat comemora 20 anos e estou produzindo cinco episódios que têm a ver com a forma como a comida influencia a vida das pessoas. Lancei um livro de culinária, o Na Cozinha com Carolina, que saiu com 5 mil exemplares em sua primeira edição e já estamos indo para a segunda. Acho que tem tudo a ver eu fazer esses programas. Tenho uma relação com a cozinha que não é de chef. Resgato esse lado de mulher que curte cozinhar.
Caminho torto
Nascida em Goiânia, Carolina Ferraz começou na televisão como apresentadora na extinta Manchete, em 1987. A então bailarina e modelo chegou a estar à frente do Shock e do conceituado Programa de Domingo, e não demorou a se render à insistência do diretor Jayme Monjardim em levá-la para o núcleo de teledramaturgia da emissora. Sua estreia veio no grande sucesso Pantanal, de 1990, numa participação que lhe rendeu novas oportunidades na própria rede. Carolina participou do elenco das minisséries Escrava Anastácia, O Fantasma da Ópera e Floradas na Serra, além da novela A História de Ana Raio e Zé Trovão. Chamou a atenção da concorrência e acabou assinando com a Globo em 1992, de onde não saiu mais. "Tem um monte de coisas que ainda quero fazer, mas me sinto muito feliz com essa evolução que tive na televisão. Valeu muito a pena me arriscar", avalia.
A estreia na Globo veio na bancada do Fantástico, traçando um caminho semelhante ao feito da Manchete, passando pouco tempo na função de apresentadora, que também foi exercida no Você Decide. Já em 1993, foi escalada para integrar o elenco de O Mapa da Mina, marcando presença nos folhetins novamente no ano seguinte, em Pátria Minha. Em 1995, Carolina ganhou seu primeiro papel de sucesso na Globo, em História de Amor. Na trama, interpretava a antagonista Paula, que disputava com a protagonista Helena, de Regina Duarte, o amor do médico Carlos Moretti, papel de José Mayer. "As pessoas lembram muito dessa época. Acho que curtiram me ver malvadinha", brinca.
A experiência com Manoel Carlos agradou e o autor logo se lembrou da atriz quando escreveu a charmosa Milena de Por Amor. O par com Eduardo Moscovis ganhou tanta aprovação do público que ambos foram escolhidos para, em 1998, protagonizarem o "remake" de Pecado Capital. De lá para cá, Carolina tem feito aparições menos constantes na televisão, mas sempre em personagens estratégicos. Como a requintada Rebeca de Belíssima e a vilã Norma de Beleza Pura. "Me orgulho por me sustentar com minha profissão e valorizo quando vejo que alguém está mesmo apostando em mim", filosofa.
Em forma
Considerada uma das atrizes mais belas e elegantes de sua faixa etária, Carolina Ferraz assume que se esforça para manter o físico invejado por tantas mulheres. E até faz piada ao comentar sua própria beleza. "Um amigo meu diz que, 'também, com a fortuna que é gasta nesse corpo!'. E invisto nele mesmo! Deus até dá, mas a gente ajuda, estabelece aquela parceria", brinca.
Para manter o fôlego no ritmo mais intenso de gravações, a atriz ainda recorre ao balé. "Nos últimos três meses, estou tentando manter uma rotina de três dias de treino por semana, cada um com uma hora e meia de duração", explica.