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Breno se destaca ao falar sobre sexo, mas discurso reforça estigmas sobre homens gays

Confissões de desejo e fetiche colocam em evidência a tensão entre liberdade sexual, dificuldade de vínculo afetivo e rejeição ao afeminado

5 fev 2026 - 06h00
(atualizado às 06h00)
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“Eu experimento minha sexualidade de diversas formas, porque acho que ter esse corpo saudável e aproveitar a vida não tem que ser limitado”, disse Breno em texto divulgado pela Globo.

O mesmo material enviado à imprensa revelou que o máximo de tempo que ele ficou sem sexo foram duas semanas, devido à recuperação de uma cirurgia. Dentro da casa, o biólogo fez outras declarações sobre a vida sexual.

“Eu fico com quatro pessoas em dois dias. Às vezes, fico com duas pessoas em um dia”, contou. “Fico com vários, mas todos sabem que só quero sexo.”

As falas, em si, não carregam nada de errado. Breno descreve um homem gay adulto, saudável, bem resolvido com o próprio corpo e livre para viver sua sexualidade sem culpa, algo que historicamente foi negado à população LGBTQIAP+.

Não há ilegalidade, agressividade ou desrespeito nos relatos. Pelo contrário: ele deixa claro que existe consentimento e transparência nas relações que estabelece, o que desmonta leituras moralistas ou alarmistas.

O ponto sensível está em outro lugar. Quando esse tipo de discurso ganha grande visibilidade, especialmente no reality show mais assistido da TV, pode reforçar uma imagem cristalizada: a de que homens gays seriam movidos quase exclusivamente pelo sexo casual, incapazes ou desinteressados em construir vínculos afetivos duradouros.

Trata-se de um estereótipo antigo, confortável para quem observa de fora, mas limitador para quem vive dentro dele.

O filósofo francês Michel Foucault, ao analisar a sexualidade como construção social e política, já alertava que o problema não está no sexo em si, mas nas narrativas que se repetem ao longo do tempo. 

A associação quase automática entre homossexualidade masculina e promiscuidade não surge espontaneamente; ela é produzida, reforçada e reproduzida socialmente.

Sexólogos contemporâneos também apontam esse impasse. O psicoterapeuta americano Joe Kort, especialista em saúde mental masculina e sexualidade, observa que muitos homens gays crescem aprendendo que o desejo é permitido, mas o afeto pode parecer arriscado. 

Segundo ele, o sexo casual frequentemente aparece não apenas como escolha consciente, e sim como território emocionalmente seguro, onde há menos risco de rejeição profunda.

Não é coincidência que uma das queixas mais recorrentes entre homens que se relacionam com homens seja a dificuldade de estabelecer laços emocionais profundos. A sensação de ser desejável existe; já a de ser escolhido para permanecer, nem sempre.

Isso não significa que o sexo casual seja um problema ou que a liberdade sexual vivida por Breno precise ser revista. A questão surge quando uma única forma de viver o prazer passa a dominar o imaginário coletivo e acaba apagando outras possibilidades igualmente legítimas.

O desconforto provocado pelas falas, registrado em vários posts nas redes sociais, não nasce do conteúdo explícito que pode chocar setores mais conservadores, mas do reforço involuntário de uma ideia antiga: a associação entre homossexualidade masculina e incapacidade de amar ou de construir relações afetivas consistentes.

Em outra ocasião, Breno foi questionado se costumava “ficar” com famosos. A resposta chamou atenção não pelo que nega, mas pelo que afirma. “Amo trabalhador braçal, frentista, gente que trabalha em padaria, segurança. Adoro”, disse.

À primeira vista, a frase pode soar apenas como a valorização do sujeito comum. No entanto, também revela um problema pouco discutido: a fetichização de homens de baixa renda como símbolo de uma masculinidade “raiz”, frequentemente associada à heterossexualidade.

Quando determinadas profissões e classes sociais passam a ser desejadas não pelo indivíduo em si, mas pelo que representam simbolicamente — força física, dominação ou silêncio emocional —, ocorre uma objetificação que reduz o parceiro a instrumento de fantasia.

Esse mecanismo não surge no vácuo. O próprio Foucault apontava que o desejo é atravessado por relações de poder e por construções sociais que hierarquizam os corpos. Nesse contexto, o homem másculo, “do povo”, passa a ocupar lugar de valor justamente por representar o modelo heteronormativo que historicamente excluiu os próprios gays.

Sabe-se que, dentro da comunidade, muitos homossexuais rejeitam parceiros com traços considerados delicados. Expressões como “não afeminado” ou “sem trejeitos” aparecem com naturalidade em aplicativos de paquera, funcionando como filtros que reproduzem preconceitos antigos. Há, sim, muitos gays homofóbicos.

É importante deixar claro: preferências pessoais por determinados biotipos, estilos ou perfis são naturais. O problema surge quando essas escolhas, verbalizadas sem contexto em rede nacional, acabam reforçando imaginários excludentes enraizados na sociedade. 

Breno é um exemplo positivo de homossexual livre da repressão, porém, talvez precise recalibrar suas falas para não prejudicar a si mesmo e a uma comunidade que ainda luta para ser respeitada em toda a sua complexidade.

No 'BBB26', o biólogo Breno suscita questões relevantes sobre a vida do gay na sociedade
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Foto: Divulgação/TV Globo
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