Brejeira, Êta Mundo Bom é antídoto contra baixo astral no país
A carioquíssima Globo nunca gostou tanto do sotaque caipira do interior de São Paulo. No ar desde janeiro, a trama rural de época Êta Mundo Bom aumentou em 25% a audiência na faixa das 18h30.
Com média de 25 pontos nos 124 capítulos exibidos até quinta-feira (9), de acordo com aferição do Kantar Ibope, a produção superou o público das últimas nove novelas no horário. Tornou-se o maior sucesso desde Cordel Encantado, de 2011.
O autor Walcyr Carrasco é craque no gênero comédia romântica caipira. Quem não se lembra do êxito de O Cravo e a Rosa, que atingiu pico de 48 pontos na mesma faixa horária, em 2001?
Não há novidade no enredo nem na estrutura dramatúrgica de Êta Mundo Bom. O poder de atrair o telespectador está no carisma dos personagens. Eles são bem delineados dentro do maniqueísmo proposto: bom e mau, vítima e vilão,
O noveleiro não fica na dúvida entre amar ou odiar, torcer a favor ou contra. Diferentemente da confusão ou indiferença provocada por personagens ambíguos - tão recorrentes em novelas dos últimos anos.
A azeitona no empadão é o humor brejeiro ao estilo das comédias familiares de Mazzaropi. Por mais previsíveis que sejam as situações e piadas, o riso sai espontâneo devido ao envolvimento afetivo entre a novela e seu espiador.
Afetividade esta que gera fidelização. Esse vínculo que transpõe a tela fria da TV faz o telespectador esquecer o controle remoto. Se está sendo entretido, por que mudaria de canal? Walcyr Carrasco resgata o prazer de acompanhar uma novela do começo ao fim, sem pular capítulos. Hábito cada vez mais raro nos lares brasileiros.
A caipirada liderada por Candinho (Sergio Guizé) e Cunegundes (Elizabeth Savala) prova que, mesmo após várias mudanças de gerações e costumes, ainda há numeroso público interessado em novela, desde que a mesma cumpra missão básica: divertir com leveza e despretensão.
O desempenho positivo de Êta Mundo Bom impulsiona as demais atrações do horário nobre. As faixas seguintes acabam por herdar boa audiência. Essa transferência de público é essencial para amenizar o efeito do zapping desenfreado.
Em tempos de noticiário carregado de violência e escândalos das mais variadas origens, a telenovela das 18h virou um antídoto eficiente contra a soturna realidade.