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Novela mostra o racismo praticado por brancos e entre negros

Romance interracial de ‘O Outro Lado do Paraíso’ discute diferentes práticas de discriminação

5 nov 2017
15h43
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“Mas ela é preta!”, reage Ivanilda (Telma Souza) ao ver a moça com quem o estudante branco Bruno (Caio Paduan) troca beijos na pista de um show. “Mulher esperta, agarrar um homão desse.”

Ivanilda (Telma Souza) ficou incomodada ao ver Bruno (Caio Paduan) aos beijos com Raquel (Érika Januza): preconceito de negro contra negro
Ivanilda (Telma Souza) ficou incomodada ao ver Bruno (Caio Paduan) aos beijos com Raquel (Érika Januza): preconceito de negro contra negro
Foto: Raquel Cunha/TV Globo / Divulgação

Na cabeça da manicure – negra como Raquel (Érika Januza), tal a namorada do rapaz – é, num primeiro momento, incompatível a união de pessoas com tons de pele tão diferentes.

Ela pratica o mesmo racismo do qual é vítima diariamente. Passado o estranhamento, Ivanilda entrega certo fetiche racial pelo jovem galã: “Descascava ele que nem laranja”.

Walcyr Carrasco, autor de ‘O Outro Lado do Paraíso’, vai além do racismo de branco com negro: ele quer mostrar também a discriminação entre os próprios negros.

Um tema espinhoso em um País racista ainda que tão miscigenado. E aqui o racismo costuma ser disfarçado. Criou-se até uma expressão para o preconceito não explícito praticado pelo brasileiro: racismo cordial.

Na trama das 21h da Globo, Raquel é uma quilombola que vai trabalhar na casa de Nádia (Eliane Giardini), mãe de Bruno, uma mulher arrogante e colecionadora de preconceitos.

Ela faz questão de humilhar a empregada com comentários em referência à sua origem étnica. Na cabeça da dondoca, o mundo se divide entre ‘nós’ (os brancos ricos) e ‘eles’ (todos os que não se enquadram nesse perfil).

Desde a chegada de Raquel, Nádia percebeu o interesse imediato de Bruno pela nova doméstica.

Ao comentar sua preocupação com o marido, o juiz Gustavo (Luis Mello), ouviu um deboche: “Elas (as empregadas) estão aí para isso mesmo. O filho do patrão é o namoradinho pra elas”.

O magistrado representa um pensamento do período escravagista: a negra é um objeto sexual usado para atender o desejo do homem branco dominante. Realidade tão antiga e assustadoramente tão atual.

A jornalista Alexandra Loras, nascida em Paris e ex-consulesa da França em São Paulo, afirma que o Brasil é a nação mais racista do planeta.

Em entrevista à ‘Veja’, ela explicou seu ponto de vista: “Sei que essa colocação é um pouco violenta para os brasileiros que gostam de se ver morando em um País onde a democracia racial deu certo. Mas o Brasil é o mais racista porque tem a segunda maior população negra do mundo e isso não é refletido na sociedade”.

É esse o questionamento proposto no horário nobre da Globo. Resta descobrir se o público vai aproveitar a visibilidade do problema para discuti-lo ou continuará a fingir que a discriminação racial é apenas ‘coisa de novela’.

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Fotos: Raquel Cunha/TV Globo – Legenda: Ivanilda (Telma Souza) ficou incomodada ao ver Bruno (Caio Paduan) aos beijos com Raquel (Érika Januza): preconceito de negro contra negro

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