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Tuca Vieira: um atlas fotográfico para revelar uma Paris além dos cartões-postais

Como fotografar uma das cidades mais conhecidas e mais fotografadas do mundo sem repetir as imagens que todos já conhecem? Essa é a pergunta que orienta o trabalho do fotógrafo brasileiro Tuca Vieira durante sua residência artística na Cité internationale des arts, em Paris, realizada por meio de um programa da Académie des beaux-arts.

7 jul 2026 - 09h04
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Fotógrafo há mais de três décadas, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela USP e vencedor do Prêmio Jabuti de 2021 com o Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo, Vieira desenvolve na capital francesa o projeto Atlas Photographique de Paris. A proposta é construir um retrato da metrópole para além de seus monumentos e cartões-postais.

"Basta pronunciar a palavra Paris e uma série de imagens já nos vem à cabeça", diz. "Mas a Paris de hoje é uma metrópole de cerca de 13 milhões de habitantes, muito mais complexa do que essa imagem cristalizada. É essa cidade que me interessa investigar."

Paris, em projeto fotográfico de Tuca Vieira.
Paris, em projeto fotográfico de Tuca Vieira.
Foto: RFI

Em vez da Torre Eiffel ou da avenida Champs-Élysées, o fotógrafo procura registrar bairros residenciais, periferias, ruas comuns e espaços do cotidiano.

"Eu busco a cidade do nosso cotidiano. Não me interesso muito pelo espetacular nem pelas coisas muito particulares."

O fotógrafo Tuca Vieira está em residência artística na Cité des Arts, num programa da Académie des Beaux Arts, com um projeto sobre Paris, em 1° de julho de 2026.
O fotógrafo Tuca Vieira está em residência artística na Cité des Arts, num programa da Académie des Beaux Arts, com um projeto sobre Paris, em 1° de julho de 2026.
Foto: RFI

A inspiração vem, em parte, do fotógrafo francês Eugène Atget, que documentou Paris entre o final do século XIX e o início do século XX.

"O trabalho de Atget está no centro da fotografia como linguagem. É um trabalho que transita entre o documental e o artístico."

Fotografar devagar

Para realizar o projeto, Vieira utiliza uma câmera apoiada sobre um tripé. O equipamento, tradicionalmente empregado na fotografia de arquitetura, exige preparação cuidadosa antes de cada imagem e permite corrigir as perspectivas dos edifícios.

Em uma época marcada pela produção incessante de fotografias em celulares, ele vê essa escolha como uma forma de reflexão sobre o próprio ato de fotografar.

"Eu sempre me pergunto qual é o papel do fotógrafo. Como produzir uma imagem que consiga se destacar nesse oceano de fotografias efêmeras que circulam hoje?"

Todo o trabalho é realizado a partir do nível da rua, opção que Vieira considera também uma forma de posicionamento diante da cidade.

"Se a gente quer fazer uma intervenção na cidade, tem que fazê-la a partir do ponto de vista de seus cidadãos."

Um método criado em São Paulo

O projeto parisiense dialoga diretamente com o Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo, publicado em 2021. Durante dois anos, Vieira dividiu a capital paulista em 203 setores, baseado em antigos guias de ruas, e percorreu cada um deles para produzir ao menos uma fotografia.

Centro de São Paulo, parte do projeto Atlas Fotográfico de São Paulo, de Tuca Vieira.
Centro de São Paulo, parte do projeto Atlas Fotográfico de São Paulo, de Tuca Vieira.
Foto: RFI

"São Paulo era a minha cidade, mas eu não a conhecia. A fotografia acabou sendo uma desculpa para conhecer lugares onde eu jamais iria naturalmente."

O método agora é adaptado para Paris, mantendo o mesmo objetivo: compreender a cidade por meio do deslocamento e da observação sistemática de seu território.

A fotografia de Paraisópolis

Foi ainda como fotógrafo da Folha de S.Paulo que Vieira produziu, em 2004, uma das imagens mais conhecidas da fotografia brasileira: a vista aérea que contrapõe os edifícios de alto padrão do bairro paulistano do Morumbi à favela de Paraisópolis.

Foto de Tuca Vieira mostra um complexo residencial de luxo junto à comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, em 2004.
Foto de Tuca Vieira mostra um complexo residencial de luxo junto à comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, em 2004.
Foto: RFI

A fotografia foi realizada durante uma reportagem sobre os 450 anos da cidade de São Paulo.

"Na época eu fotografei em película e nem tinha ideia da repercussão que aquela imagem teria."

Além de ir para a primeira página da Folha, fotografia passou a ilustrar livros, pesquisas e exposições sobre urbanismo e desigualdade social em diversos países. Na França, integra livros didáticos de geografia e história.

"Quando professores franceses viram essa fotografia, ficaram até mais indignados do que nós diante daquela desigualdade à qual, infelizmente, muitas vezes estamos acostumados."

Hoje, além do Atlas de Paris, Vieira continua desenvolvendo a pesquisa Hipercidades, dedicada às grandes metrópoles contemporâneas. Em todos esses projetos, a fotografia funciona menos como registro e mais como uma forma de compreender o território e as transformações urbanas.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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