Sport e Flamengo: PGR abre caminho para título compartilhado de 1987
O Campeonato Brasileiro de 1987, conhecido como Brasileirão de 1987, se transformou em um dos temas mais controversos do futebol nacional.
O Campeonato Brasileiro de 1987, conhecido como Brasileirão de 1987, se transformou em um dos temas mais controversos do futebol nacional. A disputa judicial sobre quem é o campeão daquele ano, Flamengo ou Sport, atravessou décadas e permanece atual. Em 2026, a discussão ganhou novo fôlego após parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR). Esse documento abriu espaço para o reconhecimento de um título compartilhado entre os dois clubes.
A confusão começou muito antes das ações judiciais. Em 1987, o país vivia um período de transição no futebol, com clubes em busca de maior independência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Desse cenário surgiu um impasse sobre o formato da competição. Como consequência, o futebol brasileiro passou a conviver com dois módulos distintos e, mais tarde, com interpretações diferentes sobre qual torneio representou o verdadeiro Brasileirão.
Como surgiu a polêmica do Brasileirão de 1987?
A origem do conflito está na criação do Clube dos 13, entidade formada por grandes clubes brasileiros que defendiam um campeonato mais rentável e organizado. Em 1987, esse grupo lançou a Copa União, torneio que reuniu as principais equipes do país. Paralelamente, a CBF estruturou um modelo próprio, com módulos distintos, e tentou conciliar interesses esportivos e políticos.
Na prática, a temporada de 1987 contou com:
- Módulo Verde: equivalente à Copa União, com equipes como Flamengo, Internacional, São Paulo e outros grandes clubes.
- Módulo Amarelo: competição sob a chancela da CBF, com clubes como Sport e Guarani, entre outros.
O Flamengo venceu o Módulo Verde ao bater o Internacional. Já o Sport conquistou o Módulo Amarelo em final contra o Guarani. O regulamento proposto pela CBF previa um quadrangular final entre os dois primeiros de cada módulo. No entanto, o Clube dos 13 rejeitou esse formato, e o Flamengo se recusou a disputar esse cruzamento. Assim, Sport e Guarani decidiram o título dentro do modelo da CBF, e a entidade apontou o Sport como campeão brasileiro.
Por que o Flamengo luta na justiça para ser reconhecido campeão de 1987?
Desde o fim da competição, a diretoria rubro-negra sustenta que o Brasileirão de 1987 correspondeu, de fato, à Copa União, que o Flamengo venceu. Para o clube, o Módulo Verde reuniu a elite do futebol nacional e representou a principal divisão do campeonato. Dessa forma, a equipe carioca entende que o título daquele ano lhe pertence, independentemente do quadrangular previsto pela CBF.
Ao longo dos anos, o Flamengo buscou na Justiça o reconhecimento de seu título nacional. A CBF, em alguns momentos, reconheceu o clube como campeão. No entanto, decisões judiciais posteriores reforçaram o Sport como único vencedor oficial do Campeonato Brasileiro de 1987. Em 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) consolidou entendimento no sentido de que apenas o Sport ocupa a condição de campeão brasileiro daquela temporada.
A partir daí, a situação ganhou definição mais clara do ponto de vista jurídico, mas a discussão continuou viva entre torcedores, dirigentes e especialistas em direito esportivo. O Flamengo manteve seu esforço para ver a conquista da Copa União como título nacional. Além disso, o clube buscou revisar decisões anteriores e ampliou o debate sobre a legitimidade da competição de 1987.
O que muda com o parecer da PGR e a possibilidade de dois campeões?
Em fevereiro de 2026, o tema voltou ao centro das atenções após a PGR emitir parecer favorável ao Flamengo. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, encaminhou ao STF manifestação que sugeriu a revisão da decisão de 2017. A proposta não retira o título do Sport, mas abre caminho para que o Brasileirão de 1987 tenha dois campeões oficiais: Sport e Flamengo.
Na prática, o parecer da PGR defende que o país pode reconhecer a conquista do Sport no formato definido pela CBF e, ao mesmo tempo, admitir o título do Flamengo na Copa União como parte da história do campeonato nacional. Dessa maneira, essa interpretação permite a existência de um título compartilhado. Essa solução tenta equilibrar o valor esportivo das duas campanhas e leva em conta o contexto político da época.
É importante destacar que o parecer da PGR não produz efeito automático. O documento funciona como recomendação jurídica ao Supremo Tribunal Federal. Assim, a palavra final continua nas mãos do STF, que poderá:
- Manter a decisão de 2017, preservando apenas o Sport como campeão de 1987.
- Aceitar a tese da PGR e declarar Sport e Flamengo campeões brasileiros daquele ano.
- Definir algum outro entendimento, desde que respeite o processo e as decisões anteriores.
Enquanto o julgamento não termina, o Sport permanece oficialmente reconhecido como campeão. Porém, o debate sobre o título dividido ganha espaço nas discussões jurídicas, esportivas e históricas. O parecer de Paulo Gonet reforça a ideia de que o Brasileirão de 1987 comporta uma interpretação mais ampla. Além disso, o documento considera a complexidade política e organizacional do futebol brasileiro naquele período.
Quais são os possíveis impactos para Sport, Flamengo e para o futebol brasileiro?
Se o STF acatar o pedido da PGR e reconhecer o título compartilhado de 1987, o cenário estatístico do futebol nacional pode sofrer alterações importantes. O Flamengo passaria a contabilizar oficialmente mais um Campeonato Brasileiro. Ao mesmo tempo, o Sport manteria sua conquista histórica, celebrada com orgulho pela torcida pernambucana. Para ambos, surgiriam reflexos em registros oficiais, materiais de comunicação, museus dos clubes e narrativas institucionais.
No âmbito esportivo, alguns pontos se destacam:
- Estatísticas oficiais: número de títulos brasileiros de cada clube, além de rankings e listas da CBF e de entidades históricas.
- Memória do torcedor: reforço das versões já defendidas por cada torcida ao longo dos anos, o que intensifica rivalidades e debates.
- Precedente jurídico: criação de um caso relevante para outras disputas ligadas a regulamentos, competições paralelas e decisões de entidades esportivas.
Independentemente do resultado final no STF, o Brasileirão de 1987 se consolida como um marco na relação entre clubes, federações e instâncias de Justiça. A discussão sobre Sport e Flamengo ultrapassa o simples debate sobre quem levantou a taça. Ela revela como questões de organização, legitimidade e poder político influenciam a história de uma competição. Além disso, o parecer da PGR, ao admitir a coexistência de dois campeões, adiciona um novo capítulo a essa disputa. Quase quatro décadas depois, o tema continua presente no cotidiano do futebol brasileiro e ainda molda a memória do torcedor.